Qual o significado profundo de cultura?
30/11/2009A Júlia Rodrigues está trabalhando em sua monografia para a revalidação do certificado de instrutora do Método DeRose.
Nela, Júlia versa sobre a relação mestre/discípulo, bastante diversa do que conhecemos em nossas escolas e universidades, onde alunos e professores se encontram por motivos externos àqueles que seriam seus impulsos mais autênticos.
Ontem estava ajudando-a a digitar o trabalho e encontrei um trecho muito verdadeiro que gostaria de, com a licença dela, compartilhar com você:
O gosto pelo saber e pelo desenvolvimento interior do ser humano quase já não se encontra em parte alguma.
Há sim, por outro lado, um culto à informação e àquele que consegue assimilar uma grande quantidade de dados.
Uma pessoa culta hoje é sinônimo de uma pessoa que mais parece um computador ou uma enciclopédia do que um ser humano.
Esqueceu-se que o homem culto é aquele que tem a capacidade de cultivar seu próprio espírito e para tanto que está em constante observação de si mesmo – é refinado nesse sentido.
Culto, cultivado é alguém que trata de si mesmo com arte, faz de seu próprio ser objeto de estudo, ou, que não é rude para tratar com sua existência, mas erudito (que etimologicamente significa: não rude).
Gosta-se hoje de aprender tudo pronto, de respostas fechadas, de um conhecimento que vem de fora, do que “dizem que…”, “provaram que…”, quem disse, de onde veio esse conhecimento?
Este conhecimento não traz consigo nada de real e trata somente de um amontoado de palavras, mas é o que está em voga e faz sucesso hoje.
Fala-se como se a vida fosse também assim algo pronto e determinado, como se sua beleza não fosse justamente a capacidade de criação, de invenção de cada qual por si mesmo…
Além de remeter-me a um texto sobre Educação que li esta semana, isso me faz pensar que o que hoje chamamos de cultura, na verdade, é um produto (ainda que seja um produto importante) das atitudes daquele que se cultiva e, por consequência cultiva aqueles que estão em seu entorno. Fixar-se por demais nisso é olhar para o dedo e não para as estrelas para as quais ele aponta.
Aquele que cultiva a si e aos outros busca as melhores formas de trazer o mundo para si e de se expressar para esse mundo, seja através de palavras, imagens, sons, aromas, sabores ou de veículos ainda mais sutis. Esse cultivo nos dará a arte em todas as suas formas: crítica, virulenta, bela, permanente ou mesmo efêmera.
Há algum tempo não me importo quando alguém cita um nome que eu não conheço. Estou começando a entender que a cultura não é feita de nomes e que esses nomes são meras contingências, uma maneira de organizar o conhecimento. Poderiam ser outros nomes, ora.
A essência da verdadeira erudição, que foge aos pedantismos, não está nessas causas, os nomes, as qualificações, as indexações: mas no efeito. Diz muito mais respeito a como eu me relaciono com meus semelhantes que ao nome da nova banda independente famosa desta semana e da banda obscura da década de 70 que a influenciou.
Essa história faz lembrar de um personagem de Dias Gomes que fazia discursos em latim e ninguém entendia nada e todo mundo, ainda assim, achava lindo. Não porque de fato achasse, mas porque, socialmente, era isso o esperado.
A cultura hoje em dia é um tanto assim. Achamos lindo. Mas não estamos entendendo nada.





7 comentários
Ótimo texto, Alessandro. Tento de modo geral ser otimista e positivo com esse magnífico tempo em que vivemos. Contudo vejo que hoje tudo é muito padronizado, “pasteurizado”, incluindo aí a cultura, conforme observado no texto de outra maneira. A não muito tempo atrás, parecia que tudo, objetos, roupas, livros, tinham mais vida. As pessoas realmente viviam e usavam para si o que tinham. Percebíamos com mais facilidade o “efeito” acima citado. Atualmente parecem ter apenas pra parecer que tem. Pra criar uma identidade em cima de seus objetos, roupas, livros. Mas não encontramos autenticidade. Enfim, achei válido comentar que você expressou bem em palavras aspectos que venho observando paulatinamente, sem saber bem o que era.
Eu achei seu texto muito bacana. E acho que a cultura está se padronizando e virando outra coisa. Mas que bom que alguns poucos ainda a fabricam…
Uma pequena reflexão, a que a de Ronaud Pereira me suscitou: nessa hiper-valorização de objetos, roupas e livros, mais que ideias em si, como referências ou formadores de identidade indivíduos e até comunidades ou tribos urbanas, lembrei-me especificamente de uma discussão que tive com alguns colegas da facul, de até que ponto uma roupa revela de fato tua personalidade e formação ideológica. Ora, se sabemos que mais e mais pessoas consomem uma cultura tão pré-fabricada, pronta, pasteurizada, sem uma consciência crítica autêntica, sem atentar para as ideias por trás da imagem na blusa, por exemplo (sim, quero alfinetar muitos camisa-Che Guevara, que nem sabem ao certo porque estão usando aquilo, ao cúmulo de muitos, ironicamente, não compartilham de nenhuma simpatia esquerdista, ou então esquerdistas meramente influenciados por discursinhos acadêmicos arcaicos), então essa tese desvela-se bem discutível. Há vezes, então, que uma blusa com o rosto de Bob Marley significa: “eis um alienado”.
Muito interessante. Talvez eu seja um otimista, mas eu vejo que, com a difusão de meios de comunicação mais eficientes (internet por exemplo), a difusão de verdadeiro conhecimento e cultura vai aumentar também. Obviamente que não no mesmo ritmo, mas aos poucos, as pessoas vão perceber que estão se limitando, e que podem crescer e se expandir. Não acho que há cem anos atrás a situação era “melhor” nesse sentido.
Achei muito interessante,o artigo mostra com clareza o que é e o que representa a cultura nos dias atuais,ela se tornou uma meta quase impossível de se alcançar,a sociedade desvaloriza não só a cultura mas também os poucos que a possuem,isso é uma vergonha para nós,mas quem se com o desenvolvimento tecnologico a cultura também se desenvolva.
oii texto otimo mas te agradeço pelo texto vai servi pra uma redação brigado, mas to vendo que se nos lutarmos pela cultura comceguimos bjs obrigado de novo por mostra a todos oque é cultura :) thausinho
simplesmente brilhante
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