A Júlia Rodrigues está trabalhando em sua monografia para a revalidação do certificado de instrutora do Método DeRose.

Nela, Júlia versa sobre a relação mestre/discípulo, bastante diversa do que conhecemos em nossas escolas e universidades, onde alunos e professores se encontram por motivos externos àqueles que seriam seus impulsos mais autênticos.

Ontem estava ajudando-a a digitar o trabalho e encontrei um trecho muito verdadeiro que gostaria de, com a licença dela, compartilhar com você:

O gosto pelo saber e pelo desenvolvimento interior do ser humano quase já não se encontra em parte alguma.

Há sim, por outro lado, um culto à informação e àquele que consegue assimilar uma grande quantidade de dados.

Uma pessoa culta hoje é sinônimo de uma pessoa que mais parece um computador ou uma enciclopédia do que um ser humano.

Esqueceu-se que o homem culto é aquele que tem a capacidade de cultivar seu próprio espírito e para tanto que está em constante observação de si mesmo – é refinado nesse sentido.

Culto, cultivado é alguém que trata de si mesmo com arte, faz de seu próprio ser objeto de estudo, ou, que não é rude para tratar com sua existência, mas erudito (que etimologicamente significa: não rude).

Gosta-se hoje de aprender tudo pronto, de respostas fechadas, de um conhecimento que vem de fora, do que “dizem que…”, “provaram que…”, quem disse, de onde veio esse conhecimento?

Este conhecimento não traz consigo nada de real e trata somente de um amontoado de palavras, mas é o que está em voga e faz sucesso hoje.

Fala-se como se a vida fosse também assim algo pronto e determinado, como se sua beleza não fosse justamente a capacidade de criação, de invenção de cada qual por si mesmo…

Além de remeter-me a um texto sobre Educação que li esta semana, isso me faz pensar que o que hoje chamamos de cultura, na verdade, é um produto (ainda que seja um produto importante) das atitudes daquele que se cultiva e, por consequência cultiva aqueles que estão em seu entorno. Fixar-se por demais nisso é olhar para o dedo e não para as estrelas para as quais ele aponta.

Aquele que cultiva a si e aos outros busca as melhores formas de trazer o mundo para si e de se expressar para esse mundo, seja através de palavras, imagens, sons, aromas, sabores ou de veículos ainda mais sutis. Esse cultivo nos dará a arte em todas as suas formas: crítica, virulenta, bela, permanente ou mesmo efêmera.

Há algum tempo não me importo quando alguém cita um nome que eu não conheço. Estou começando a entender que a cultura não é feita de nomes e que esses nomes são meras contingências, uma maneira de organizar o conhecimento. Poderiam ser outros nomes, ora.

A essência da verdadeira erudição, que foge aos pedantismos, não está nessas causas, os nomes, as qualificações, as indexações: mas no efeito. Diz muito mais respeito a como eu me relaciono com meus semelhantes que ao nome da nova banda independente famosa desta semana e da banda obscura da década de 70 que a influenciou.

Essa história faz lembrar de um personagem de Dias Gomes que fazia discursos em latim e ninguém entendia nada e todo mundo, ainda assim, achava lindo. Não porque de fato achasse, mas porque, socialmente, era isso o esperado.

A cultura hoje em dia é um tanto assim. Achamos lindo. Mas não estamos entendendo nada.

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