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Professores: o aluno precisa aprender a ter noção. “Só” isso

2 de dezembro de 2008 | Publicado na Categoria Educação | 5 Comentários »

O vídeo abaixo é sobre educação e tecnologia, sobre como a educação pode se posicionar em relação à tecnologia.

A conferência de Luli Radfahrer foi apresentada durante o terceiro Descolagem, que debateu sobre a escola no século XXI.

Mas a principal coisa que ele falou não foi sobre a tecnologia. A palestra serviria ainda se estivéssemos em uma época em que nem se imaginasse a existência de internet e afins.

Basicamente ele fala que o papel do professor em um mundo em que as informações estão disponíveis (de uma forma ou de outra, as informações sempre estiveram disponíveis: mudou o jeito e a facilidade de procurar) é preparar o aluno para que ele tenha seus próprios critérios ao selecioná-las.

Para que o aluno, sozinho, saiba o que para ele é relevante. O professor, assim, é um guia, um cara que mostra o quanto o mundo pode ser legal e que propõe desafios.

Assista. Devo alertar você. Tem uma hora de duração, mas vale cada segundo:

No entanto, hoje, a relevância no ensino, hoje, é uma coisa chamada vestibular. O vestibular guia a escola, que precisa ganhar dinheiro para pagar os empregados e que precisa lidar com o medo dos pais de que o filho não passe no vestibular. A escola guia os professores que precisam passar o conteúdo, que precisa ser o conteúdo cobrado no vestibular.

Isso não permite que o aluno encontre a sua própria relevância. O aluno não aprende a ter noção, termo que o próprio Luli Radfaher usa. Ele disse muitas outras coisas legais, mas a realidade hoje é essa: vestibular.

Quando eu digo que o vestibular deveria ser substituído por um sorteio – e só estou repetindo as palavras de Rubem Alves, cuja filosofia coincide em muitos pontos com essa palestra de Radfahrer -, não afirmo que um sorteio seria melhor para selecionar os alunos merecedores de cursar o que parece ser o santo graal da educação hoje em dia, o ensino superior e os seus demais patamares, cada vez mais insuficientes.

Afirmo que as duas coisas são igualmente ruins. A diferença é que um sorteio desobrigaria os anos anteriores de ensino a se atrelarem ao conteúdo do vestibular.

Veja este trecho de Rubem Alves:

Se eu fizer os exames vestibulares, não passarei. E se o novo reitor da Unicamp fizer os vestibulares, não passará. Se o Ministro da Educação fizer os vestibulares, não passará. Se os professores das universidades fizerem os vestibulares, não passarão. Se os professores dos cursinhos que preparam os alunos para passar nos vestibulares fizerem os vestibulares, não passarão (cada professor só passará na disciplina em que é especialista…). Se aqueles que preparam as questões para os vestibulares fizerem os vestibulares, não passarão. Então me digam, por favor: por que é que os jovens adolescentes têm de passar no vestibular? Os vestibulares são um desperdício de tempo, de dinheiro, de vida e de inteligência. Passados os exames, a memória (inteligente) se encarrega de esquecer tudo. A memória não carrega peso inútil.

Veja também este texto sobre a escola quero-quero: uma idéia que, se fosse seguida em maior escala garantiria um maior números de adultos um pouco menos neuróticos no futuro.

O trecho deste texto é ainda mais revelador:

Tomei o café da manhã com um amigo, dono de um famoso cursinho. Ele me disse algo mais ou menos assim: “Tudo o que ensinamos é perda de tempo. Não faz sentido. Não está ligado à experiência viva dos estudantes. Por isso aquilo que nós supostamente ensinamos e eles supostamente aprendem é logo esquecido…” E eu acrescento: a culpa não é deles, dos cursinhos. É dos vestibulares – esse estúpido sistema que muito contribui para a ruína da educação. Por isso não dou a menor importância às fotografias dos que passaram em primeiro lugar.

Assim: o cara é dono de um mega-cursinho, ganha dinheiro com isso e sabe a inutilidade de seu papel. E agora passa na tevê aqui em Curitiba uma propaganda de um desses estabelecimentos que garante que é o mais puxado, com 70 horas semanais ou coisa assim.

Meu avô pagou caro pelo cursinho que fiz em 1992 e, tenho de admitir, foi tempo perdido. Só serviu para passar no vestibular. E a efetividade do curso superior, nos quatro ou cinco anos seguintes é algo a ser discutido também.

As cinco horas por dia em que eu ficava sentando ouvindo coisas que eu iria esquecer eu poderia ter gastado vivendo ou aprendendo a ter noção. Coisa que, definitivamente, tenho muito pouco ainda.

Estou providenciando.

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5 Comentários para “Professores: o aluno precisa aprender a ter noção. “Só” isso”

  1. Ray-Sama - 2 12 2008 às 14:04

    Aloha!

    Amigo, isso é triste.
    Sei disso pois eu passo por isso. Oh! Não queria q o Vestibular fosse assim. Nunca quis, é tortura!

    Aloha!

  2. Nelson [Pô, meu!] - 2 12 2008 às 16:06

    Alessandro,

    Concordo em parte com você e com Luli. Mas devemos ter cuidado quando falamos no aluno. Não existe um só tipo de aluno, existem diversos. E eles começam sem ter noção de nada. Aos poucos vão crescendo e ganhando noção. Portanto, um aluno de curso superior não é igual, e não pode ter o mesmo tratamento de um aluno da 4ª série primária ou o nome que estejam chamando isso hoje. ;-)
    Abração,

  3. Anny - 2 12 2008 às 17:42

    Alessandro:
    Todos nós sabemos disto, né? Fiquei triste quando vi meus filhos enfrentando este tipo de autotortura.
    Ainda bem que este tempo já passou.
    E como vc diz estou também aprendendo até hoje a ter noção…Rs!

  4. Norberto Kawakami - 2 12 2008 às 22:10

    O problema desse argumento é não colocar algo que consiga fazer um contraponto.
    Sem o vestibular vamos fazer o quê?
    A minha sugestão seria considerar apenas as notas do ensino básico, uma redação e uma entrevista.
    Mas este tipo de avaliação demanda tempo e dinheiro que ninguém parece estar disposto a gastar.
    O que acho horrível é considerar o vestibular um vilão e achar que sem ele, fazendo com que qualquer pessoa que tenha feito o ensino básico passe automaticamente a cursar o ensino superior sem nenhum tipo de avaliação… Como muita gente anda dizendo por aí…

  5. Osvaldo Mota - 24 11 2009 às 2:53

    Oi, educar, precisa ser educar. Escrever bonito, palavras rebuscadas, nada disso serve pra vida como entender o ser humano. Saber muito não leva ninguém a um sucesso completo, se não entender, que lidamos cada dia com gentes, como homens, humanos, pessoas que tem sentimentos, vida, necessidades e carência. De nada adianta ser um grande conhecedor das letras, se não for um grande conhecedor do que é ser humano. Se a educação continuar do jeito que está indo, tenho absoluta certeza, que teremos grandes problemas com nossa educação. Falo isso, com profundo conhecimento do que é educar.

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