Para abandonar livros e coçar, é só começar… Com tantos livros bons esperando para serem lidos no mundo, eu acabei me tornando uma leitora exigente: se logo no começo o livro não mostra alguma coisa interessante, seja pela história ou pela maneira como é escrito, eu o abandono. É lógico: quando abandonamos um livro é pelo começo dele, ninguém deixa para abandonar livros nos capítulos finais. O que varia de leitor para leitor (e de livro para livro) é o que consideramos esse começo: podem ser algumas páginas, pode ser o primeiro capítulo…

Ao mesmo tempo, entendo o problema que os autores de livro têm. Uma história precisa de ambientação, de personagens a serem apresentados, de muitas pequenas situações que, todas juntas, constroem uma história. Tudo isso demanda certo tempo, ou seja, muitas linhas. É preciso envolver o leitor, apresentar uma coisa de cada vez. Só que se isso tudo demorar demais, o leitor vai embora antes. É como aquela pessoa que faz uma introdução tão longa para contar uma história, que quando chega lá todo mundo já perdeu o interesse.

prender o leitor

Então um autor precisa conciliar as duas coisas: ser interessante no começo e conquistar o leitor ao longo do livro, até que tudo se torne irresistível e ele não queira mais ir embora. Existem vários recursos para isso. A primeira linha do livro O Processo, de Kafka, é tão interessante que se tornou antológica: “Alguém devia ter caluniado Josef K., visto que uma manhã o prenderam, embora ele não tivesse feito qualquer mal.” Machado de Assis começa Memórias póstumas de Brás Cubas pelo fim (“Ao verme que primeiro roeu as frias carnes do meu cadáver dedico com saudosa lembrança estas memórias póstumas”). No A menina que roubava livros, o autor dá o tempo todo pistas do que acontecerá no futuro, o que enche o leitor de curiosidade. A autobiografia de Samuel Wainer, que li recentemente, começa pelo meio, pelo fato que mudaria sua vida para sempre: uma entrevista com Getúlio Vargas. E por aí vai.

Os recursos são muitos, não há limites para a forma de contar uma boa história. Mesmo quando é um assunto sério ou uma biografia, ainda assim é possível colocar algum “molho”, contar de uma maneira interessante. Na apresentação, a história pode ser cronológica, começar de trás para frente, começar pelo meio e voltar… vai do limite da imaginação do autor. Quando o leitor se der conta, ele já está no meio, quer saber o que vai acontecer, ou seja, está fisgado.

Sobre o autor: Caminhante Diurno

Caminhante tem casa, marido, cachorro, blogs (Caminhante Diurno e Caminhando por Fora), carteirinha da biblioteca. E não pode viver sem qualquer um deles.