A auto-importância que uma pessoa se dá é diretamente proporcional à quantidade e à duração das buzinadas que ela dá no trânsito e estas são inversamente proporcionais à importância que ela realmente tem.
É uma lei físico-social que inventei esses dias.
Neste domingo, assisti a um comercial de carro que convidava o espectador a imaginar que ele fosse a única pessoa no mundo.
Não é preciso: no momento em que o sujeito entra num carro, isso já acontece.
Depois, o mesmo comercial convidava o espectador a imaginar que ele era não a única pessoa, mas o único homem do mundo (é o comercial de um carro para homem, portanto). E aí apareciam, como mágica, diversas mulheres, em diversas funções a admirar o jovem man-sebo (um neologismo que inventei esses dias). Nenhuma delas dirigia. Só trabalhavam em roupas sumárias (roupas sumárias são roupas resumidas; uma definição que inventei esses dias).
Assim, educado pela publicidade, é natural que o sujeito buzine tão logo o carro da frente não saia um milésimo de segundo após a luz vermelha acender para rua transversal e antes mesmo de a luz verde acender para a sua própria via. Por que ele não some de sua frente e de sua rua? Afinal, ele é a única pessoa do mundo.
Note que não são poucos aqueles que confundem o metal com sua própria carne. Dizem: “alguém bateu em mim” e não “alguém bateu no carro”.
E o farol vermelho? The red is the new yellow. Cada vez mais comum ver gente passando quando o semáforo já fechou. Afinal, a lei e a segurança é para os outros. Não para si.
E, diante disso, pergunto-me: pra que tanta pressa? Pra que tanto individualismo? Pra que tanta auto-importância?
A animação acima, lembrança do Lauro Valente, é do século passado e tem décadas e não melhoramos nada desde então.
Na falta daquela máquina, de que fala Douglas Adams em O Mochileiro das Galáxias (ou em uma das sequências), na qual o sujeito entra para ser punido ganhando em instantes a percepção da real magnitude do Universo, saindo dali inteira e eternamente atordoado, gostaria de compartilhar algo.
Veja, estou lendo Uma Nova História do Tempo, de Stephen Hawking e Leonard Modinow, onde encontro alguns dados interessantes:
Vemos 5 mil estrelas, somente cerca de 0,0001% de todas as estrelas apenas de nossa galáxia, a Via Láctea.
Observe que em uma cidade grande, devido ao que os astrônomos chamam de poluição luminosa, vemos ainda menos que isso. Quase nada, na verdade.
A própria Via Láctea não é senão uma entre mais de cem bilhões de galáxias que podem ser vistas com os telescópios modernos e cada galáxia contém, em média, uns cem bilhões de estrelas.
Agora para falarmos de distâncias, ainda que viajássemos na velocidade da luz (300.000 km por segundo) levaríamos 4 anos para chegar até a estrela mais próxima. Na mesma velocidade, levaríamos 100 mil anos para percorrer a Via Láctea. Cem mil anos na velocidade da luz e não chegaríamos a tempo do jantar.
Agora, entre essas cem bilhões de galáxias (observadas; pode haver mais), entre cada uma delas, existem distâncias maiores ainda.
Um dado para visualizarmos melhor todo esse drama galáctico:
Se uma estrela fosse um grão de sal, seria possível colocar todas as estrelas visíveis a olho nu (aquelas 5 mil) em uma colher de chá, mas todas as estrelas no universo encheriam uma bola de mais de 12 quilômetros de largura.
Imagine: uma bola de sal, em Curitiba, que vai do Boa Vista ao Boqueirão, em que cada grão é uma estrela.
Vou fazer um desenho pra ajudar você:
O risco vermelho seria o diâmetro desse globo.
Agora, imagine que você é um motorista que está indo do Boa Vista até o Boqueirão. O semáforo abriu. O carro à frente demorou 1,2 segundo para arrancar. Antes de buzinar lembre-se: poderia ser pior. Poderia haver uma esfera de sal no meio do caminho.
Caso você seja um buzinador(a) compulsivo(a) sugiro que você cole a seguinte imagem no seu volante:
É uma representação do que seria nossa galáxia (óbvio que nenhum telescópio ou câmera já saiu dela para que fosse feita uma fotografia), uma dentre 100 bilhões em um universo dentre todos os possíveis. Lembre-se, ela levaria mil séculos para ser atravessada na velocidade da luz. Não precisa ter pressa. Se há vida inteligente em todo esse espaço, certamente não há buzina entre eles.
Se ainda assim, você se acha muito importante ou não entendeu o que eu quis dizer, assista a esta palestra de Mario Sérgio Cortella:













