Por que o Paraná lembra um pouco o Peru

Estou aqui divertindo-me com a leitura do livro A Grande Caçada aos Tubarões, do Hunter S. Thompson. Ainda. E, para escrever sobre o que gostaria de escrever neste instante, preciso contextualizar as coisas para aqueles que não votam no estado do Paraná.

Para quem não sabe o que é isso ou onde é explico: é mais ou menos um Acre – imagino que todo mundo saiba o que é o Acre e onde fica já que está passando uma minissérie na Globo com o José Wilker no papel principal. O Paraná é parecido, só que fica no Sul.

E, aqui, talvez não tantas pessoas saibam o que é um sabonete quanto lá. Não sei se o IBGE tem dados quanto a isso, portanto não posso afirmar nada com certeza.

Com algum exagero dramático de minha parte, direi que temos menos florestas por parte do território e mais frio por parte do clima, mas só em algumas regiões. Fora isso, tudo é muito parecido.

No quesito representatividade política principalmente somos tão fortes quanto o Acre. E também somos muito conhecidos por termos um governador com estranhos apetites.

Então eu lia o livro do Thompson quando deparei um trecho de uma cobertura que ele fez das eleições peruanas em 1962. Foram eleições confusas e disputadas de um lado e de outro. E, por fim, 70 votos comprovadamente fraudulentos levaram à justificativa para a tomada de poder pelo exército. O general Ricardo Pérez Godoy então fez seu primeiro pronunciamento:

… assistimos a um processo eleitoral fraudulento, no qual nem mesmo os direitos mais básicos e elementares dos cidadãos foram respeitados. As Forças Armadas assistiram com dor e ansiedade, contendo suas emoções e de olhos secos, ao sacrifício do nosso povo, do nosso país, do nosso futuro.

As Forças Armadas, com seus olhos secos, encontraram apenas 70 cédulas – repito – entre um total de 2 milhões de votos.

O imperativo militar nos força à dura obrigação de assumir as funções governamentais que normalmente estariam em mãos civis, com objetivo de estabelecer a paz, a ordem e o respeito pelas leis que regem a república.

O discurso todo fala de “grande fraude eleitoral” e, acima de tudo, acusa o Superior Tribunal Eleitoral de tentar acobertar essa conduta.

Thompson conclui esse trecho refletindo sobre o que pensaram, então, os eleitores que votaram no candidato vencedor. E mesmo aqueles que votaram no segundo colocado.

Viajemos, agora, 44 anos no tempo e cheguemos ao Acre do Sul, com uma população muito similar em número àquela do Peru da época do General Perez.

Eleições apertadas, segundo turno e o governador com estranhos apetites ganha as eleições por estreita margem. Por cerca de dez mil votos, mais ou menos o tamanho da torcida de qualquer um dos grandes times da capital desse estado.

Vejamos então o que disse o vencedor nesse trecho de matéria publicada na Gazeta do Povo, o Pravda da capital das araucárias, depois da vitória:

“A eleição foi dura, mas foi bonita”, disse Requião. Depois, lembrou que as pesquisas “sérias” do segundo turno e de boca-de-urna davam a vitória a ele, mas no entanto o resultado apertado – pouco mais de 10 mil votos de diferença – o faz pensar no funcionamento do voto eletrônico.

“Sempre fui um questionador desse sistema. Não estou afirmando que houve manipulação de urnas. Mas não descarto essa hipótese. Pesquisas científicas, sérias, me davam maior vantagem. Nunca se viu diferença tão grande entre pesquisas e resultado. Essa eleição terá que ser estudada por especialistas“, afirmou.

Claro que isso atinge diretamente a idoneidade do Tribunal Regional Eleitoral. Notaram alguma semelhança entre o discurso de Perez e Requião? Creio que a diferença entre essa afirmação e a afirmação de fraude se deve apenas a dois itens. A ele preferir usar horríveis camisas jeans e não fardas. E a ele ter ganho.

Mas tudo bem. Não creio que esse tipo de governante – capaz de tal raciocínio – seja privilégio nosso.

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Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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