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Por que o Paraná lembra um pouco o Peru

2 de fevereiro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 5 Comentários »

Estou aqui divertindo-me com a leitura do livro A Grande Caçada aos Tubarões, do Hunter S. Thompson. Ainda. E, para escrever sobre o que gostaria de escrever neste instante, preciso contextualizar as coisas para aqueles que não votam no estado do Paraná.

Para quem não sabe o que é isso ou onde é explico: é mais ou menos um Acre – imagino que todo mundo saiba o que é o Acre e onde fica já que está passando uma minissérie na Globo com o José Wilker no papel principal. O Paraná é parecido, só que fica no Sul.

E, aqui, talvez não tantas pessoas saibam o que é um sabonete quanto lá. Não sei se o IBGE tem dados quanto a isso, portanto não posso afirmar nada com certeza.

Com algum exagero dramático de minha parte, direi que temos menos florestas por parte do território e mais frio por parte do clima, mas só em algumas regiões. Fora isso, tudo é muito parecido.

No quesito representatividade política principalmente somos tão fortes quanto o Acre. E também somos muito conhecidos por termos um governador com estranhos apetites.

Então eu lia o livro do Thompson quando deparei um trecho de uma cobertura que ele fez das eleições peruanas em 1962. Foram eleições confusas e disputadas de um lado e de outro. E, por fim, 70 votos comprovadamente fraudulentos levaram à justificativa para a tomada de poder pelo exército. O general Ricardo Pérez Godoy então fez seu primeiro pronunciamento:

… assistimos a um processo eleitoral fraudulento, no qual nem mesmo os direitos mais básicos e elementares dos cidadãos foram respeitados. As Forças Armadas assistiram com dor e ansiedade, contendo suas emoções e de olhos secos, ao sacrifício do nosso povo, do nosso país, do nosso futuro.

As Forças Armadas, com seus olhos secos, encontraram apenas 70 cédulas – repito – entre um total de 2 milhões de votos.

O imperativo militar nos força à dura obrigação de assumir as funções governamentais que normalmente estariam em mãos civis, com objetivo de estabelecer a paz, a ordem e o respeito pelas leis que regem a república.

O discurso todo fala de “grande fraude eleitoral” e, acima de tudo, acusa o Superior Tribunal Eleitoral de tentar acobertar essa conduta.

Thompson conclui esse trecho refletindo sobre o que pensaram, então, os eleitores que votaram no candidato vencedor. E mesmo aqueles que votaram no segundo colocado.

Viajemos, agora, 44 anos no tempo e cheguemos ao Acre do Sul, com uma população muito similar em número àquela do Peru da época do General Perez.

Eleições apertadas, segundo turno e o governador com estranhos apetites ganha as eleições por estreita margem. Por cerca de dez mil votos, mais ou menos o tamanho da torcida de qualquer um dos grandes times da capital desse estado.

Vejamos então o que disse o vencedor nesse trecho de matéria publicada na Gazeta do Povo, o Pravda da capital das araucárias, depois da vitória:

“A eleição foi dura, mas foi bonita”, disse Requião. Depois, lembrou que as pesquisas “sérias” do segundo turno e de boca-de-urna davam a vitória a ele, mas no entanto o resultado apertado – pouco mais de 10 mil votos de diferença – o faz pensar no funcionamento do voto eletrônico.

“Sempre fui um questionador desse sistema. Não estou afirmando que houve manipulação de urnas. Mas não descarto essa hipótese. Pesquisas científicas, sérias, me davam maior vantagem. Nunca se viu diferença tão grande entre pesquisas e resultado. Essa eleição terá que ser estudada por especialistas“, afirmou.

Claro que isso atinge diretamente a idoneidade do Tribunal Regional Eleitoral. Notaram alguma semelhança entre o discurso de Perez e Requião? Creio que a diferença entre essa afirmação e a afirmação de fraude se deve apenas a dois itens. A ele preferir usar horríveis camisas jeans e não fardas. E a ele ter ganho.

Mas tudo bem. Não creio que esse tipo de governante – capaz de tal raciocínio – seja privilégio nosso.

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5 Comentários para “Por que o Paraná lembra um pouco o Peru”

  1. Djabal - 2 2 2007 às 10:36

    Isso tudo é privilégio de países pobres. Nós, a rigor, não temos justiça digna desse nome. Apenas aquela que homologa a maioria das decisões, por pura inércia.
    Quando a matéria é polêmica, há que ser consultado o Cipião de plantão para saber da sua opinião, e via de regra, a decisão do magistrado é a mesma do consultado.
    Fazemos de tudo para concordar com o governante. Não cansamos disso, creio que nem sempre para obter vantagens, mas também por insegurança.
    Esse é o nosso hábito.
    Desde D.João VI (1808) proibimos o natural da terra a montar negócio, ou imprimir livros, isso foi privilégio dos portugueses, hoje é das ‘zelites’. Na prática, digo, na prática. Enquanto tivermos pouca instrução, sempre teremos salvadores da pátria que ‘pensam’ por nós, ou ‘decidem’ por nós por não termos ainda ‘maturidade’ para tanto.
    O congresso é parte da nação, parte legítima, salvo alguma representatividade distorcida, mas ainda assim: é a nossa cara.
    Digo tudo isso por acreditar que caminhamos para uma situação de melhor representatividade política. Certo ou errado, a democracia é um regime ruim, mas não encontramos ainda nada melhor para o substituirmos, a não ser aquele dirigismo que ainda consegue ser mais letal e estúpido.
    Estamos sofrendo o parto de um nascimento. Estamos ainda muito atrasados, mas o caminho é esse. Apesar do compadrio a nação deve continuar a caminhar. Assim como o Paraná é um pouco do Peru, todos nós somos. Salvo um ou outro que é aquela exceção que confirma a regra.

    Resposta: É nesse cenário que eu pergunto se um sujeito capaz de fazer um discurso como esse tem cabimento.

  2. Marco Carvalho - 2 2 2007 às 10:36

    Truculência é a marca registrada do Requião. Ele tem estremos que são complicados, ao mesmo tempo que é um galo de briga faz coisas que na realidade dão um certo benefício ao povo como as vias alternativas aos pedágios.

    Se sair do papel é uma manobra excelente, já que mata 4 Dias com uma requiãozada só:

    - fornece ao povo direito assegurado por lei de só ter estradas pedagiadas onde houver rota alternativa.

    - Faz as safras pagarem menos pelo transporte, o que é populista mas convenhamos muito bom para nosso bolso.

    - as estradas estarão no norte pioneiro e no sul do “acre-de-baixo”, regiões onde a agricultura manda. Consequentemente onde os ruralistas estão.

    - dá o primeiro tiro na galinha dos votos de ouro da família concorrente.

    Abraços

    Resposta: Vai ser muito bom se ele conseguir aprovar, portanto. A julgar pela briga que ele comprou com os pedágios no início de sua primeira gestão e perdeu, não sei se tenho muitas esperanças quanto ao bom resultado disso. Que nós o digamos, afinal, usamos a BR 277 todo fim de semana durante uns dois anos para ir a PG e acompanhamos de perto cada uma das correções de valores para o uso da estrada. Essa birra sem resultado – até o momento – com os pedágios me deixa na dúvida sobre o quanto disso é apenas discurso. Pois  ele também se diz contrário ao uso dos transgênicos e, no entanto, a Nortox – empresa que produz defensivos agrícolas para culturas transgênicas – doou R$ 250 mil para a sua campanha. Isso só me faz pensar que a política é repleta de ambigüidades.

    Abraço, Marco!

  3. Paulo Polzonoff Jr - 2 2 2007 às 12:22

    Curioso, eu sempre gostei do Requião. Menos pelo que ele tem de populista e mais por causa da truculência. Mas é a tal coisa. Se eu fosse criança e me perguntasse o que eu quero ser quando crescer, responderia na lata: “Tirano”.

    (Nunca é demais lembrar que ironia é uma via de mão dupla. Afe).

    Quando ao Paraná: é o Acre com mais índios.

    Resposta: Eu também gostava desse lado meio boto-pra-quebrar do Requião. Mas nos últimos anos acho que esse traço da personalidade dele vem se mostrando pouco interessante, visto que vem se tornando mais “criança” em suas respostas às questões políticas.

  4. Thássius Veloso - 5 2 2007 às 1:05

    Dentro dessa discussão bairrista não tenho como comentar, uma vez que não acompanho a vida política do Paraná.

    Mas sobre as indagações propostas no texto, não vejo qualquer problema em o tal governador questionar o funcionamento do TRE, exceto pelo fato de ele ser um candidato (genuinamente eleito – espero).

    Esse papel deveria ser da sociedade, da opinião pública e da imprensa. E não de alguém que, naquele momento, exerce o poder. Mais uma vez — sim, tenho que levar para este lado — os jornalistas deixam de fazer seu papel principal: questionar e apurar.

    Mas é possível que estes jornalistas não tenham tomado tal atitude por saber que o discurso do governador é descabido e sem propósito. Não perderam o tempo deles.

  5. Celso Miguel Lachman - 12 2 2007 às 12:55

    O Requião deveria sim colocar em dúvida os Institutos de Pesquisa que davam como certa uma vitória imensamente superior a essa que vimos. Aliás, eis um bom tema para debate (os Institutos de Pesquisa) – talvez sem a interferência destes Institutos, os resultado seria outro, pois muita gente, sabemos, vota para quem está na frente na pesquisa.
    Aqui na minha região (sul do PR), o Requião perdeu e feio, e diga-se de passagem, derrota justa, pois o povo julgou seu governo da forma como ele trabalhou por nossa região.
    E quanto às pessoas que admiram o estilo “agressivo” do Requião, respeito sua opinião, mas diria a vocês que procurassem acompanhar mais “de perto” o comportamento do Requião, que aí com certeza o que vocês chamam de virtude, rapidamente mudaria de nome para “mal educação”, “grosseria” e “truculência”, entre enúmeros adjetivos deste porte. Que eu saiba, uma pessoa portadora de tais “qualidades”, não é nem nunca será alguém com equilíbrio suficiente para resolver os problemas do Estado do Paraná.
    Em tempo: Vias alternativas ao pedágio? mais uma bravata do Requião, pois quem não lembra da maior promessa quando da outra eleição, em que prometera acabar com os pedágios “custasse o que custasse”. Não conseguiu. E sabia que não conseguiria, porque quebrar um contrato não é tão fácil.

    Resposta: De fato – eu já estive entre os que admiravam as tais “qualidades” do Requião. Mas creio que isso realmente muda com a proximidade. Mal comparando é como ver o filho mal-criado dos outros. Pode até parecer bonitinho quando o filho não é seu. Mas se você tem que conviver com o peste por mais de meia hora e a menos de dez metros de distância…

    Abraços do Ale, Celso!

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