Sim, o título soa polêmico. Mas realmente existe um paradoxo aí que é preciso esclarecer. A América Hispânica conta seis prêmios Nobel e inúmeros romancistas de cunho universal, enquanto os últimos brasileiros que respondam a estas características, creio, foram Érico Vérissimo, Clarice Lispector e Jorge Amado (e nenhum sendo Nobel infelizmente).

De Língua Portuguesa, os grandes contemporâneos são sem dúvida o recém-falecido Saramago, Mia Couto (Moçambique), António Lobo Antunes e, provavelmente, Miguel Sousa Tavares pela elegância da reconstituição histórica numa ficção extremamente bem escrita (Equador). Entre eles, nenhum romancista brasileiro, ou quase. Chico Buarque alcança talvez esta âmbito universal em Budapeste, João Ubaldo Ribeiro em Sargento Getúlio.

E Edney Silvestre, prêmio Jabuti 2010, com Se Eu Fechar os Olhos Agora?

Sinto muito. Abandonei esta romance na página 85, por absoluta falta de tesão. Me entendam bem. A sua linguagem é de alto nível. Mas a história de Edney Silvestre não funciona para mim, nem como “noir”, nem como peça literária. Por que deveria ficar cativado pelo destino de dois meninos ordinários numa cidade qualquer do interior fluminense, em abril de 1961, no dia em que Yuri Gagarin sobrevoou a nossa “Terra Azul”? Por não ter conseguindo me seduzir em 85 páginas, o autor debutante me perdeu como leitor.

Em contrapartida, um romance noir brasileiro que estabelece perfeitamente o elo (desde as primeiras páginas) entre uma sórdida ocorrência policial e uma época conturbada pré-ditadura, de maneira empolgante e universal, é Agosto (1985), de Rubem Fonseca. Uma obra-prima. Quem são os herdeiros espirituais de Fonseca?

Eís, o dilema. Não há!

O Brasil consegue contribuir lá fora com grandes cineastas (Fernando Meirelles, Walter Salles…), artistas plásticos, compositores, arquitetos, designers. Mas cadê o Coetzee brasileiro, o Philip Roth brasileiro, o Jonathan Franzen brasileiro? Escritores ou escritoras que poderiam descrever o ethos brasileiro ( ou, aliás, o não-ethos diante do novoriquismo tupiniquim atingindo as esferas politicas…) através de personagens complexas e atuais. No Brasil sexta potência econômica. Com sua nova classe média. Com suas enormes ambiguidades…

Receio que antigos paradigmas literários não foram superadas ainda por aqui. Quem sabe escrever romance no Brasil hoje, quem mexe com literatura, não quer descer na rua, ir na ação, examinar a sociedade de 2012! Me toquei disso outra semana quando, numa reunião social, bati um papo com Renato Rezende, poeta reconhecido, escritor, tradutor e editor de livros, pessoa legal e brilhante.

Ok, o mundo da poesia é particular, em qualquer parte do mundo. Sua circulação está restrita em qualquer idioma, a sua publicação depende de patrocínio. Mas contei para Renato como funciona na Suécia, onde escritores debutantes colocam seus textos curtos ou longos num site especializado para trocar idéias, experiências e…críticas construtivas na fase antes de procurar editor. Certos manuscritos alcançam até 14.000 acessos (num país de 10 milhões de habitantes).

O poeta/escritor/editor/tradutor era categórico: “Isto nunca ia funcionar no Brasil…aqui você procuraria um mentor, diretamente, nos restritos circulos literários”. Eu não disse nada, mas sentia um calafrio diante de tal “mode d´emploi”! A palavra elitismo estava escrito no ar. Havia de um lado nós – “the happy few ” – que entendemos de literatura, do outro “the crowd” os leitores de best-sellers, os adeptos de Paulo Coelho…

Talvez eu seja conservador. Mas os criadores do moderno romance eram todos populares: Balzac, Flaubert, Dickens, Dostojevskij, Dumas, Victor Hugo, Stendahl, Tolstói, Zola… Nos tempos de hoje, Umberto Eco é best-seller, seu último romance é sarcástico, complexo e abre para profundas reflexões. Não me parece que no dinâmico contexto brasileiro (a leitura per capita cresce segundo as estatísticas, abertura de novas livrarias nos grandes centros, mais dinheiro sobrando para atividades de lazer, mais jovens com acesso à cultura…), grande tiragem equivale necessariamente a má qualidade.

Agora, concordo que não é tão fácil realizar tal proeza literária, atingir um público maior com textos de qualidade. É preciso uma linguagem fluida, transparente, uma estrutura contundente, que possam igualmente veicular grandes imagens ou idéias, assim que temas da atualidade. Simplificar sim, atrair certamente, mas também densificar…

Este é o caminho que os criadores literários no Brasil precisam redescobrir. Procurar de novo a universalidade, a partir da atual sociedade brasileira. A inspiração literária precisa ser buscada também no presente, nas mudanças sociais! Numa visão clara dos acontecimentos! Por que as telenovelas brasileiras são tão insípidas e medíocres hoje? Por que falta veia criadora e posicionamento diante da sociedade. Confiram em Roque Santeiro, novela de 1986. Grande novela satírica cujo argumento foi assinado por Dias Gomes, gênio lúcido.

Vou terminar com um caso estrangeiro bem pertinente. O escritor sueco Stieg Larsson fez sucesso mundial com a trilogia noir Millennium a partir de 2006. 70 milhões de exemplares vendidos até agora (no Brasil menos que em outros paises, pelo fato de que noir é um gênero menor por aqui, mas os três volumes foram agora relançados no País com a versão cinematografica de David Fincher, atualmente em cartaz). O público adora, é claro, mas a crítica também. Segundo Vargas Llosa, a receita de êxito de Stieg Larsson (jornalista e militante que partiu em guerra contra a extrema direita europeia, já falecido) está baseada num coquetel literário bem dosado, casando veracidade atual/reportagem com lenda/mitologia.

Exatamente o que Alexandre Dumas fazia há 160 anos atrás, nas páginas do Conde de Monte-Cristo…

Sobre o autor: Rikard Amberlin

Jornalista e escritor sueco radicado no Rio de Janeiro, escrevendo atualmente o romance A Qualidade da Glória (título traduzido do sueco), ambientado em grande parte num Brasil à espera da Copa do Mundo. Acesse a página de Rikard Ambelim