Gostaria de confessar algo.
Talvez você, ao passar por aqui, tenha a impressão de que o autor destas linhas é um leitor voraz, desses de dois livros por dia.
Talvez tenha a imagem de um sujeito meio verde por ter contraído algum fungo em uma biblioteca escura, em um volume raro. Sou um tanto branquelo. Mas verde de fungos não.
Confesso, então: tampouco sou um leitor voraz.
Leio, se tanto, dois livros por semana. Simultaneamente às vezes.
Tenho sempre um para a padaria e outras ocasiões pedestres – que fica no carro – e outro para a casa. Que fica, naturalmente, em casa.
Além de uma paquera ali e acolá em páginas esparsas e interessantíssimas, oferecidas pela mulher que amo, na cama, ou por algum amigo ou amiga. Fora da cama.
Quando eu era adolescente, sim. Julgava-me atrasado se, no mesmo dia, não começava um novo livro por ter terminado o anterior.
Quanta festa perdi.
Era tão tuberculoso quanto Manuel Bandeira sem ser.
Sonhava mulheres de papel e não alcançava as de carne, pois estas eram muito mais leves.
E durante muito tempo julguei que meu destino era ser alguém que falava sobre livros. Entrei na faculdade de jornalismo para isso. Para ter, um dia, o direito de escrever no jornal sobre a mais nova edição do mais novo autor do mais novo movimento literário.
Espelhava-me em críticos furiosos e mesmo em frases soltas como aquela famosa de Dorothy Parker, dizendo que certo livro não deveria ser deixado de lado, mas atirado com força na parede.
Coisas assim.
Como pode um leitor de livros tão pretensioso (e tão voraz) ser, ainda assim, tão ingênuo?
Eu era mesmo um tonto.
Como eu gostaria de poder voltar no tempo e dizer algumas coisinhas para aquele menino, que às vezes lia sem gostar ou mesmo sem entender o que estava lendo. Lia como quem come sem mastigar.
Também não quero passar uma outra impressão errada. A de que guardo mágoas ou a de que me arrependo daquela época. O fato é que, de verdade, não lamento isso agora. De outra forma, não teria me tornado o leitor que sou hoje.
Acho que foi Fernando Sabino quem disse que o menino é o pai do homem. Me corrija se eu estiver errado.
E o menino precisou estudar muito para, ao chegar à hombridade, criar a regra que norteia hoje minhas leituras. E, creio, tenho compartilhado ela com você desde que comecei a escrever por aqui.
Leio o que gosto e só leio se gostar.
É isso.
Muito simples, de fato?
Não. É, realmente, muito complexo. Pois não adianta ouvir ou ler isso. É preciso apreender.
Eu precisei ler durante uma década ou mais de uma forma errada para que eu descobrisse qual, para mim, era o melhor jeito de ler. Não que a leitura, na maior parte das vezes, não me trouxesse prazer. Claro que trazia. Mas acontece que o prazer tem uma outra regra de ouro.
Prazer não se força.
Pode vir por força, mas força não é garantia que ele venha. Mais das vezes é o contrário. Como tentar entrar numa sala pela parede. Você não vai conseguir. Vai perder tempo, ganhar hematomas e fama de maluco.
Na verdade, é uma regra que pode ser aplicada a outras áreas da vida. Mas vamos lá. Livros.
Estamos numa época em que mesmo pessoas supostamente instruídas perderam sua capacidade de distingüir entre prazer e dor. Meio neurótico isso. É saber muito para o lado de fora – nomes de obras, autores – e saber muito pouco para o lado de dentro.
E chegamos então à crítica literária. Esta que, segundo o título deste texto, não faço e para a qual não ligo.
Por quê.
Porque, ao começar a ler um livro, eu sou capaz de distingüir o que me agrada do que me desagrada.
Se me agrada, continuo com prazer, ansioso por retomá-lo a cada vez que preciso deixá-lo. Como quando deixo quem amo em algum lugar, em algum momento do dia, já antecipando o momento de reencontrá-la mais tarde, à noite.
Eu acredito que os leitores – inclusive você, a quem falo – têm essa capacidade. Por isso, não estou aqui para dizer o que você deve ou não deve ler. Ou por que um livro é bom ou um livro é ruim. Estou aqui para falar das coisas que me encantam.
Contei aqui, certa vez, a história do crítico surdo que disse que à bailarina Isadora Duncan que ela não tinha musicalidade. Não faz sentido.
Se você é escritor, e tem de fato convicção daquilo que escreveu – e espero que tenha -, não tem nada a temer. É possível que todos os críticos estejam surdos. Se você é leitor, é melhor confiar e desenvolver os próprios ouvidos.
Livros e leitura são coisas muito importantes para serem dadas à responsabilidade de quem você não conhece e que, possivelmente, seja mais vaidoso que o próprio autor – e como são vaidosas as pessoas do meio literário.
Eu acredito em outra coisa que não a crítica.
Em coisas mais simples, como um amigo que me estende um livro. Ou mais complexas, como a aprovação das décadas.
Eis por que não costumo falar aqui de livros novos.
Décadas são décadas. E o amigo só estende o livro depois de lê-lo, pensar sobre ele e aprová-lo a ponto de me oferecê-lo.
Habitualmente, sou um leitor de livros de, pelo menos, cinco anos de idade. Às vezes, muito mais. Quando eles me caem na mão já se disse tudo ou quase tudo sobre eles. Não, não tenho nada contra livros ou autores novos. Apenas, como disse, faço o que gosto.
Por isso, não me agrada a crítica literária, seja na sua versão apressada, descuidada e às vezes até chula dos jornais, seja na versão empolada, pernóstica, indecifrável e enigmática dos acadêmicos. Parei de ler essas coisas há muito. Pouco se salva e fico feliz por conhecer algumas pessoas cujos escritos sobre livros se salvam.
E o que se salva está mais para algo que eu poderia chamar de apreciação.
A leitura é um ato único. Se nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes – mudou o homem, mudou o rio -, o mesmo pode-se dizer do livro.
Nenhum livro se banha no mesmo leitor duas vezes. Cada vez que um, na última página, se fecha, é uma Alfa Centauro que se apaga.
Então, o verbo apreciar – do latim appretiare – tem esse sentido de estima e avaliação, ao qual prefiro dar mais peso à estima.
Ouso, correndo o sério risco de estar errado, dizer que o verbo apreciar também corresponderia a “dar o justo preço”. Dizer o quanto determinado objeto vale para você e por quê.
Por aqui, só falo do que gosto. E ao falar do que gosto, tenho a sincera intenção de contaminar você com isso. Fazer com que você encare a leitura – a leitura de um livro específico ou a leitura como um todo – de um modo que talvez você não encarasse sem a minha colaboração. Fico feliz por participar assim de algo importante.
Quero apontar o detalhe da paisagem que talvez você não visse pela janela do trem e tornar sua viagem mais agradável.
E, para tanto, mostro as coisas em especial que me levaram a esse sentimento de apreço. Portanto, aprecio, desse modo, para compartilhar um prazer.
Digo o preço desse prazer e tento deixar que chegue a você do jeito mais gratuito possível. Que ele seja nosso.
Eis por que não faço e não ligo para a crítica literária.










