Por que não faço e não ligo para a crítica literária: confissão, manifesto, declaração de amor
5 de setembro de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins, O prazer de escrever | 23 Comentários »Gostaria de confessar algo.
Talvez você, ao passar por aqui, tenha a impressão de que o autor destas linhas é um leitor voraz, desses de dois livros por dia.
Talvez tenha a imagem de um sujeito meio verde por ter contraído algum fungo em uma biblioteca escura, em um volume raro. Sou um tanto branquelo. Mas verde de fungos não.
Confesso, então: tampouco sou um leitor voraz.
Leio, se tanto, dois livros por semana. Simultaneamente às vezes.
Tenho sempre um para a padaria e outras ocasiões pedestres – que fica no carro – e outro para a casa. Que fica, naturalmente, em casa.
Além de uma paquera ali e acolá em páginas esparsas e interessantíssimas, oferecidas pela mulher que amo, na cama, ou por algum amigo ou amiga. Fora da cama.
Quando eu era adolescente, sim. Julgava-me atrasado se, no mesmo dia, não começava um novo livro por ter terminado o anterior.
Quanta festa perdi.
Era tão tuberculoso quanto Manuel Bandeira sem ser.
Sonhava mulheres de papel e não alcançava as de carne, pois estas eram muito mais leves.
E durante muito tempo julguei que meu destino era ser alguém que falava sobre livros. Entrei na faculdade de jornalismo para isso. Para ter, um dia, o direito de escrever no jornal sobre a mais nova edição do mais novo autor do mais novo movimento literário.
Espelhava-me em críticos furiosos e mesmo em frases soltas como aquela famosa de Dorothy Parker, dizendo que certo livro não deveria ser deixado de lado, mas atirado com força na parede.
Coisas assim.
Como pode um leitor de livros tão pretensioso (e tão voraz) ser, ainda assim, tão ingênuo?
Eu era mesmo um tonto.
Como eu gostaria de poder voltar no tempo e dizer algumas coisinhas para aquele menino, que às vezes lia sem gostar ou mesmo sem entender o que estava lendo. Lia como quem come sem mastigar.
Também não quero passar uma outra impressão errada. A de que guardo mágoas ou a de que me arrependo daquela época. O fato é que, de verdade, não lamento isso agora. De outra forma, não teria me tornado o leitor que sou hoje.
Acho que foi Fernando Sabino quem disse que o menino é o pai do homem. Me corrija se eu estiver errado.
E o menino precisou estudar muito para, ao chegar à hombridade, criar a regra que norteia hoje minhas leituras. E, creio, tenho compartilhado ela com você desde que comecei a escrever por aqui.
Leio o que gosto e só leio se gostar.
É isso.
Muito simples, de fato?
Não. É, realmente, muito complexo. Pois não adianta ouvir ou ler isso. É preciso apreender.
Eu precisei ler durante uma década ou mais de uma forma errada para que eu descobrisse qual, para mim, era o melhor jeito de ler. Não que a leitura, na maior parte das vezes, não me trouxesse prazer. Claro que trazia. Mas acontece que o prazer tem uma outra regra de ouro.
Prazer não se força.
Pode vir por força, mas força não é garantia que ele venha. Mais das vezes é o contrário. Como tentar entrar numa sala pela parede. Você não vai conseguir. Vai perder tempo, ganhar hematomas e fama de maluco.
Na verdade, é uma regra que pode ser aplicada a outras áreas da vida. Mas vamos lá. Livros.
Estamos numa época em que mesmo pessoas supostamente instruídas perderam sua capacidade de distingüir entre prazer e dor. Meio neurótico isso. É saber muito para o lado de fora – nomes de obras, autores – e saber muito pouco para o lado de dentro.
E chegamos então à crítica literária. Esta que, segundo o título deste texto, não faço e para a qual não ligo.
Por quê.
Porque, ao começar a ler um livro, eu sou capaz de distingüir o que me agrada do que me desagrada.
Se me agrada, continuo com prazer, ansioso por retomá-lo a cada vez que preciso deixá-lo. Como quando deixo quem amo em algum lugar, em algum momento do dia, já antecipando o momento de reencontrá-la mais tarde, à noite.
Eu acredito que os leitores – inclusive você, a quem falo – têm essa capacidade. Por isso, não estou aqui para dizer o que você deve ou não deve ler. Ou por que um livro é bom ou um livro é ruim. Estou aqui para falar das coisas que me encantam.
Contei aqui, certa vez, a história do crítico surdo que disse que à bailarina Isadora Duncan que ela não tinha musicalidade. Não faz sentido.
Se você é escritor, e tem de fato convicção daquilo que escreveu – e espero que tenha -, não tem nada a temer. É possível que todos os críticos estejam surdos. Se você é leitor, é melhor confiar e desenvolver os próprios ouvidos.
Livros e leitura são coisas muito importantes para serem dadas à responsabilidade de quem você não conhece e que, possivelmente, seja mais vaidoso que o próprio autor – e como são vaidosas as pessoas do meio literário.
Eu acredito em outra coisa que não a crítica.
Em coisas mais simples, como um amigo que me estende um livro. Ou mais complexas, como a aprovação das décadas.
Eis por que não costumo falar aqui de livros novos.
Décadas são décadas. E o amigo só estende o livro depois de lê-lo, pensar sobre ele e aprová-lo a ponto de me oferecê-lo.
Habitualmente, sou um leitor de livros de, pelo menos, cinco anos de idade. Às vezes, muito mais. Quando eles me caem na mão já se disse tudo ou quase tudo sobre eles. Não, não tenho nada contra livros ou autores novos. Apenas, como disse, faço o que gosto.
Por isso, não me agrada a crítica literária, seja na sua versão apressada, descuidada e às vezes até chula dos jornais, seja na versão empolada, pernóstica, indecifrável e enigmática dos acadêmicos. Parei de ler essas coisas há muito. Pouco se salva e fico feliz por conhecer algumas pessoas cujos escritos sobre livros se salvam.
E o que se salva está mais para algo que eu poderia chamar de apreciação.
A leitura é um ato único. Se nenhum homem entra no mesmo rio duas vezes – mudou o homem, mudou o rio -, o mesmo pode-se dizer do livro.
Nenhum livro se banha no mesmo leitor duas vezes. Cada vez que um, na última página, se fecha, é uma Alfa Centauro que se apaga.
Então, o verbo apreciar – do latim appretiare – tem esse sentido de estima e avaliação, ao qual prefiro dar mais peso à estima.
Ouso, correndo o sério risco de estar errado, dizer que o verbo apreciar também corresponderia a “dar o justo preço”. Dizer o quanto determinado objeto vale para você e por quê.
Por aqui, só falo do que gosto. E ao falar do que gosto, tenho a sincera intenção de contaminar você com isso. Fazer com que você encare a leitura – a leitura de um livro específico ou a leitura como um todo – de um modo que talvez você não encarasse sem a minha colaboração. Fico feliz por participar assim de algo importante.
Quero apontar o detalhe da paisagem que talvez você não visse pela janela do trem e tornar sua viagem mais agradável.
E, para tanto, mostro as coisas em especial que me levaram a esse sentimento de apreço. Portanto, aprecio, desse modo, para compartilhar um prazer.
Digo o preço desse prazer e tento deixar que chegue a você do jeito mais gratuito possível. Que ele seja nosso.
Eis por que não faço e não ligo para a crítica literária.

Alessandro, esse artigo deveria ser lido por alguns professores de literatura. :-)
Na escola e na faculdade, tive que ler livros de que não gostava (OK, na maioria das vezes, a experiência da leitura era prazerosa) e, pior, muitas vezes tive que *interpretar* livros dos quais não tinha gostado de uma forma que, para mim, era uma viagem total.
Vamos lançar uma campanha pelo fim da leitura obrigatória nas escolas e faculdades? ;-) Quando fiz a prova de Proficiency, de inglês, eu recebi uma lista com 5 títulos. Eu podia escolher dois livros para ler e, se quisesse, podia fazer uma das redações da prova sobre um livro.
Alê, aprendi uma coisa valiosa hoje. Uma coisa que me redime de tempos idos e que me alivia o peito quando olho para cada um dos meus filhos. Não… Não é sobre o menino pai do homem… Essa eu já sabia, mas acho que, pela primeira vez, posso colocá-la no contexto que devo. Serve para perdoar meu pai, e colocar nele as culpas que devem, também. O menino que é meu pai, era eu próprio quando verde, ainda. Lá aprendi muitas lições que me ensinaram o que sei hoje (o essencial, pelo menos). O que descortinei com este seu texto é algo leve e simples, mas que me envergonho de dizer. Não vou dizê-lo, pois cometia contra esta simples verdade o pecado de negligenciá-la com soberba. Envergonho-me. Você foi coração neste escrito – e que autor não o é nos que comete? Mas por que razão não é o coração que se alimenta de ler, mas o cérebro? Não sei… Posso agradecê-lo por este algo novo que aprendi mas que me envergonho de dizer? Posso, contudo, um dia dizê-lo com orgulho, num dia futuro, pois lá já o terei aprendido. Lembrarei de hoje…
Alessandro, leio o seu blog há alguns meses. Tomei conhecimento dele por uma nota no Polzonoff.com.br . Geralmente leio blogs e fico quieto. Mas este post merece louvores. Poucas vezes li algo tão bom e verdadeiro. Congratulações!
Hum, muito bom.
Quando me dei conta da excelente biblioteca do meu colégio, percebi que tinha de adotar uma estratégia. Senão ia perder a chance de ler tudo o que pudesse no segundo grau.
Adotei essa, de insistir um pouco no livro e, se ele ainda assim resistisse, seguir para o próximo.
Também tinha a regra de circular entre as estantes, nunca olhar no catálogo (o que me propiciou o desbaratamento de alguns casais em plena atividade nas estantes do fundo).
Ou seja: desprezei “O Senhor dos Anéis”, “Ulisses” e “O nome da rosa”, mas descobri Vianna Moog e Victor Giudice.
Concordo com o Juca, um post excepcional. Espero que continue distribuindo “detalhes na paisagem pela janela do trem”. Eu com certeza estarei por aqui para também ver!
oi alessandro
rapaz, que bom ler um pouco da velha e boa sinceridade sobre o que é ler, ou melhor, curtir arte.
sobre o menino ser o pai do homem, acho que quem disse isso primeiro foi o velho Machado de Assis.
e termino sobre esse ritual da leitura, e tudo mais,com uma frase do Velho Machado ao seu amigo Joaquim Nabuco:
“Demais, o prazer que traz a certeza de que me lê um amigo, dá vontade de continuar.”
Tenho um conto (esquecido pelas páginas de algum jornal), em que o personagem se perdia, literalmente, num universo de livros.
Perdido, ao ponto de deixar de existir fisicamente e ter se transformado numa personagem, ter entrado nalguma estória e por lá ficado.
Era o meu sentir a respeito e creio que continua. Ainda que faça muito tempo que eu não visite uma estória com a paixão de leitor, quando deparo com alguma peça que tire minha paixão do imobilismo, vejo ter valido a pena ser como sou: voltado para livros e Literatura.
E “trombar” por ai com pessoas que também acreditam, é paga bastante para a frustração de não ter sido bom em quase nada.
Essa postagem é do tipo que os comentaristas não precisam de um fidibeque. Melhor, violinos ao fundo.
Bastante sincero seu texto, Alessandro. E acho que muitas pessoas deviam seguir essa frase: “Leio o que gosto e só leio se gostar.”
Teve um livro famoso dum autor renomado (diga-se de passagem um Nobel de Literatura) que eu simplesmente não consegui terminar, embora tenha chegado bravamente a uns 80% do livro. O problema é aguentar depois as pessoas dizendo “Como assim você não gostou do [título do livro]?!”. Complicado.
Uma amiga me disse outro dia que tinha lido Voltaire por indicação de alguém mas, que não tinha gostado muito. Fiquei pensando: então porque leu? Eu também só leio coisas que me pegam pelo pé. Mas aí podem ser 10.000 coisas ao mesmo tempo, então a energia se dispersa e vc não consegue ler tudo o que queria, daí a frustração. A gente podia ler por osmose, ir só absorvendo tudo… um abraço.
Meus parabéns Alessandro. Um texto gostoso, claro, límpido e, principalmente, que ilustra muita coisa boa além da vaidades que nos consome, às vezes de forma absolutamente avassaladora.
O comentário de alguém a respeito de uma obra, é fruto das sensações, pensamentos e idéias que a leitura ensejou. Só pode ser um compartilhamento de uma outra coisa , outra obra, diferente do livro original. Portanto, é uma nova obra, seja de arte, seja de ilustração da vida, de uma variante filosófica que nos permita fitar o infinito ou entrar em êxtase. Ou qualquer outra maneira de prazer ou desprazer embutido na leitura.
Se a nossa leitura nos causou uma sensação incômoda, deixamos o livro de lado e não o indicamos para ninguém.
Não o largamos, por algum desvio genético continuamos até o final na leitura, como alguns desmiolados fazem. Fique calado.
Isso é crítica. Crítica hoje é venda disfarçada de livro. Vale tanto quanto um anúncio. Apenas está com outra roupagem.
De qualquer forma, desculpo-me por alogar o assunto. Que não tem nada a ser acrescentado. Você não deixou nenhuma fissura. Abraços.
Tudo que sai do coração sem atropelos intelectuais, regras ou sistemáticas metrias de críticas literárias tende a dar resultados translúcidos como este post que considero obra prima da reflexão do homem que se depara, num instante único, com a mágica sensação de liberdade e individualismo no ato de ler.
Essa vaidade no meio é simples ilusão do apogeu dos geniais escritores que, de certa forma são seguidos por leitores e críticos.
O escritor se despe de vaidades e muitas vezes ignora críticas e leitores.
Porém, esse olhar anticrítico do Ale, desmonta todas as vaidades existencialistas do leitor.
Eu já tive amargas experiências com leituras ‘obrigatórias’ e sim, descobri, como o Ale, que alguns trechos podem render mais que um pesado livro que se obriga a ser lido pela indução da… crítica.
Parabéns, caro amigo. Perfeita reflexão filosófica de um mundo literário.
Beijos. :)
Acho que essa ingenuidade sempre atinge o início de vida dos amantes por leitura, é um vício, a necessidade de ler mais em menos tempo.
Essa foi uma das grandes razões da minha miopia atualmente (a heredietariedade foi o outro). Cheguei ao ponto de ter lido o 4º Harry Potter (que se não me engano é o maior da série ou 2º maior) em menos tempo que o 1º
caro Alessando.
eu recebo livros das editoras, livros que eu escolho, para resenhar. não sou um crítico, apenas, como digo, um comentador de livros, como qualquer um aqui. penso que a crítica, ou seja, aquele tipo de texto analítico que está bem acima dos meus, é sim de fndamental importância. sempre foi, aliás.
devemos lembrar que nossos “novos escritores” começaram por desprezar a crítica, para em seguida desprezar os clássicos.
por último, vale observar que o melhor escritor contemporâneo, e um dos melhores de todos os tempos, J. M. Coetzee, é um rigoroso crítico e ensaísta de mão cheia.
grande abraço.
Seu post acabou me fazendo lembrar de uma série de postagens de uma professora, chamadas de “Leituras: os direitos do aluno leitor e não leitor.”, sobre as leituras “obrigatórias” na escola. O link é http://lulu-diariodalulu.blogspot.com/2007/03/1-o-aluno-no-precisa-gostar-do-livro.html
Espero que aprecie. Abraços.
Oi Alexandre:
Quando descobri o mundo dos livros, fiquei seriamente preocupada com meu comportamento…Se não gostava do livro não lia. Ponto final.Só que este não era o comportamento das pessoas que conhecia e fiquei um tempão com remorsos por não ter insistido nos tais livros.Até que Doris Lessing disse mais ou menos o que vc.Então posso entender o alívio das pessoas ao ler o post de hoje…
Abraço.
Viva! Belíssimo texto! Há tempos deixei de me preocupar com a crítica especializada que, como você bem frisou, é movida pela vaidade, quase sempre. Nem faço questão de ler os clássicos – se começar um e achá-lo enfadonho, não insisto, parto pra outro livro. Leitura é, acima de tudo diversão.
00h26. Depois de ler um texto como este, com frases como “Sonhava mulheres de papel e não alcançava as de carne, pois estas eram muito mais leves”, posso dormir tranquilo, sabendo que eu não o único a pensar assim.
Abraço.
gostei.
Pois bem, acompanho o blog há muito tempo (e aproveitei o BlogDay para indica-lo aos meus póucos leitores) , e não me assustei com tal texto postado.
Afinal, o que se podia esperar de um bom escritor e leitor sagaz como você?
Brilhante texto!
Parabéns.
Muito bonito o seu texto. Sem querer fazer crítica literária (e já fazendo) ele é muito convincente, pois carrega a verdade que só os bons trabalhos literários conseguem passar e, por outro lado, provoca identificação imediata no leitor.
A crítica que tem o bom senso de apenas orientar e esclarecer o leitor, sem estrelismos é necessária e louvável, você certamente haverá de concordar.