Por que ler Hunter S. Thompson pode ser uma experiência divertida

Se você ainda tinha dúvida se devia arranjar um livro do Hunter S. Thompson para dar uma olhada, separei um trecho da reportagem O Kentucky Derby é Decadente e Degenerado, presente no livro A Grande Caçada Aos Tubarões, para você dar uma olhada.

Só o título da matéria já é suficientemente bacana.

É a cobertura de uma importante corrida de cavalos que acontece todos os anos no sul dos Estados Unidos. Thompson está lá acompanhado de um inusitado ilustrador provavelmente irlandês que deve captar em imagens o espírito da coisa toda.

Não fica bem claro se o ilustrador existe ou se é uma invenção da mente doente de Thompson, assim como a lata de spray de pimenta que ele teria comprado e usado no chefe dos garçons de um restaurante.

O fato é que eles estão lá e ele conta mais ou menos sobre a cobertura. Ele quer um rosto para ilustrar sua matéria. Mas um rosto específico:

É um rosto que eu tinha visto umas mil vezes em todos os Derbys a que fora. Na minha cabeça, eu o via como a máscara da aristocracia do uísque – uma mistura pretensiosa de bebida, sonhos desfeitos e uma crise de identidade terminal. O resultado inevitável de muitos cruzamentos entre parentes numa cultura fechada e ignorante.

E aqui começa um trecho de uma ironia que consegue ser a um só tempo grosseira e fina. Finíssima. O tipo de coisa que eu adoro:

Uma das principais regras genéticas para a criação de cachorros, cavalos ou qualquer outro tipo de puro-sangue é que o acasalamento entre parentes próximos tende a ampliar os pontos fracos numa linhagem, assim como os pontos fortes. Na criação de cavalos, por exemplo, é definitivamente arriscado cruzar dois cavalos rápidos que também são muito loucos. A prole provavelmente será muito rápida, mas também muito louca. Então o truque na hora de cruzar puros-sangues é reter os traços bons e peneirar os ruins. Mas o cruzamento de humanos não é supervisionado com tanta sabedoria, particularmente numa sociedade sulista rígida, onde o cruzamento entre parentes bem próximos não é apenas estiloso e aceitável como bem mais conveniente – para os pais – do que deixar a prole livre para encontrar seu próprios pareceiros, pelas suas próprias razões e às suas próprias maneiras.

Bem, ainda não sei se eles encontraram o tal rosto. Ainda estou lendo a parada. Mas esse é o tipo de coisa que eu gostaria de ter escrito caso tivesse a oportunidade. Percebe o quanto é divertido?

Ah sim. Estou surpreso ao ver que, de cabeça raspada, Thompson é muito parecido comigo.

Postado em Escrita.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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