“Ele traiu a própria editora”, berrou para mim uma amiga um dia desses. Ela já estava com algumas taças de vinho a mais pesando na língua, mas mesmo assim foi dureza de ouvir isso.

Quando digo que vou lançar um livro de ficção chamado “A Agenda”, as pessoas ficam levemente surpresas. Sai um “puxa que legal, parabéns”. Quando esclareço que não vai sair pela Lote 42, editora que fundei, o impacto é maior.

Da cara de “ué?” às acusações de traição, há todo um mar de questões. Como um cara que megadefende a Lote 42, vai lançar por outra casa? Não confia no próprio taco? A Lote 42 está mal das pernas? Afinal, para quê lançar pela Novo Conceito?

capa_a_agenda

Quando quero responder a pergunta de maneira curta, digo que é porque mandei o original em novembro, semanas antes de fundar a Lote 42. E é verdade. A criação da editora foi realizada após uma pizza que comi com o Thiago Blumenthal, o outro pai da Lote 42, em dezembro. Não se trata, portanto, de um atalho artificial para desviar de uma suposta controvérsia.

Quando percebo que o interlocutor não ficou satisfeito e quer mais prosa, agrego que faria esta escolha mesmo que tivesse mandado o original depois.

Obviamente, amo tanto a história que escrevi quanto a editora que criei. Misturar as duas paixões pode ser complicado. Por mais que eu chamasse um editor freelance, a relação seria estranha. Provavelmente, seria alguém com algum grau de amizade comigo. Soma-se a isso a possibilidade do cara pegar mais leve ou mais pesado por eu estar assinando o cheque. Se não estivesse, eu estaria desconfiando que sim, o julgamento está sofrendo uma intervenção externa.

Pode ser falha minha como editor, mas não queria que “A Agenda” saísse desse jeito. Prefiro lançar o livro em uma relação normal de editora – autor. Só conseguiria isso em outro lugar.

Além do mais, a Novo Conceito chegou a uma nova etapa. A editora é grande, nova e até agora calcou seu catálogo em traduções. É emocionante estar fazendo parte de uma aposta nos autores nacionais. Pelo o que conheço dos livros da NC, “A Agenda” é bem diferente. Ótimo, gosto assim, vesti a camisa.

Ao menos, é assim que quero nessa primeira ficção. Talvez em outra obra que escreva eu possa editar dentro da Lote 42, quem sabe. Já terei mais experiência no papel de editor, afinal. Mas isso é um papo para outro momento. Agora o que importa é que A Agenda vai ser lançada na próxima terça-feira (26), às 18h30, na Livraria da Vila da Fradique (Rua Fradique Coutinho, 915 – Pinheiros, São Paulo, SP). Aqui está o evento no Facebook.

Sobre o autor: João Varella

Jornalista formado e pós-graduado pela PUCPR, é repórter de tecnologia na IstoÉ Dinheiro e editor no El Economista América. Já colaborou com diversos veículos, entre eles o jornal Gazeta do Povo e portal R7. Em 2012, ganhou o 2º lugar no prêmio Sebrae de Jornalismo. Junto com Cecilia Arbolave, venceu o prêmio Proyectando Valores 2006 da Câmara Argentina de Anunciantes. Escreveu os livros "Curitibocas - Diálogos Urbanos" (Coração Brasil) e "A Agenda" (Novo Conceito)