Um escritor que não goste de escrever cartas me parece, no mínimo, suspeito.

A meu favor estão os muitos livros de correspondências de escritores e filósofos famosos. E essas correspondências sempre são tão boas de ler e tão reveladoras quanto os livros sérios, que foram escritor para serem lidos por todos. Da minha experiência pessoal, posso dizer que todos os bons de escrita que conheci gostavam muito de se corresponder – antes por carta, agora por e-mail.

Eu desconfio da vocação de escritores que não escrevem cartas da mesma forma que desconfio de jornalistas que não lêem, de professores de educação física fora de forma, de mães que não gostam de crianças.

Ser escritor tem o seu glamour e escrever um livro é sempre um motivo de vaidade. Poucos podem dizer “leia o meu livro” e sacar da estante várias páginas escritas em letra de forma, papel especial, capa e – creme de la creme – ISBN, a misteriosa classificação que só os livros de editoras sérias têm. É desse glamour que muitos podem estar atrás. Só que um livro é fruto maduro de muita escrita, e nem todas têm a ver com a idéia de escrever um livro.

Quem gosta de uma atividade se envolve com ela, mesmo que isso não renda um certificado ou dinheiro. Escritores para mim escrevem – bilhetes, apontamentos, dedicatórias, e-mails, cadernos, diários, blogs, o que for. Isso lhes sai natural, é parte do seu mundo. Vejo os bons livros não como fruto de um projeto, o projeto de ser escritor – eles são apenas parte do universo de letras da vida de alguém, a parte que publicaram.

Sobre o autor: Caminhante Diurno

Caminhante tem casa, marido, cachorro, blogs (Caminhante Diurno e Caminhando por Fora), carteirinha da biblioteca. E não pode viver sem qualquer um deles.