Encontrei ainda no Reflexões Shakespearianas, que reúne ensaios da especialista Bárbara Heliodora:
O nosso Hamlet, isto é, o Hamlet de Shakespeare, foi escrito em 1601 e, obviamente, teve o maior sucesso. Digo obviamente pelo seguinte: não havia controle de direitos de representação e quem tivesse uma cópia do texto, ao menos em teoria, poderia montá-lo. Por esse motivo, as companhias não gostavam que suas peças fossem publicadas; digo “suas” porque eram literalmente companhia – o autor vendia seu texto por um preço determinado e a partir daí já não era mais dele. Quanto mais sucesso a peça fazia, menos interesse havia em publicá-la, mas os editores andavam sempre atrás dos sucessos, e sempre havia um ator faminto disposto a oferecer um texto com base na sua memória (os chamados textos pirateados); foi dessa forma que, em 1603, aparece a edição in-quarto, conhecida como Q1 ou o “Mau Quarto” de Hamlet.
Essa versão chega a ser engraçada, com a ordem de algumas cenas trocadas. Acredita-se que o ator responsável pela pirataria tenha feito algum papel menor como o de Marcelo, pois estas falas estão mais próximas do original.
Isso mostra outra peculiaridade do teatro daquela época. Por uma questão de comodidade e de segurança, os atores – os que sabiam ler, naturalmente – recebiam apenas as partes do texto que se referiam às suas falas. Assim, a peça era uma espécie de tesouro que só era encontrado quando os fragmentos eram colocados juntos pelo diretor ou pelo autor.
No “Mau Quarto”, o digníssimo monólogo de Hamlet fica uma coisa assim:
Ser ou não ser – sim, esse é o ponto
Morrer, dormir – é só isso? Sim só. Não;
Dormir, sonhar – sim, isso mesmo, lá vai;
Pois naquele sonho de morte, quando acordamos,
E levados diante de um juiz eterno,
De onde nenhum passageiro jamais voltou,
O país desconhecido, a cuja vista
Sorriem os felizes, e são danados os malditos
A não ser por isso, pela alegre esperança disso…
Eu ia poupar você do resto, mas sei que você quer continuar a se divertir:
Quem agüentaria o desprezo e as bajulações do mundo,
Desprezado pelos muito ricos, os ricos malditos pelos pobres
As viúvas sendo oprimidas, os órfãos injustiçados,
O gosto da fome, ou o reinado de um tirano
Há mil calamidades mais além dessas,
Grunhir e suar sob essa vida cansativa
Quando oderia fazer sua plena quietude
Com um punhal nu? Quem iria aturar isso,
Senão pela esperança de alguma coisa depois da morte,
Que confunde o cérebro e confunde os sentidos;
E que nos faz preferir antes os males que temos
Do que voar para outro, que não conhecemos?
Ai, isso! Oh esta consciência faz covardes de nós todos.
Senhora, em suas orações sejam lembrados todos os meus pecados.
O sujeito, além de ter escrito algumas coisas que não tem o menor sentido, subverte – se não inverte – as motivações e os significados do monólogo original. Esse anônimo ator, basicamente, era um analfabeto funcional da época.
Esse monólogo deturpado fez-me lembrar alguns poemas que recebo por email e encontro por aí como sendo de Drummond ou Quintana.
Ou Shakespeare.











