pílulas

Por trás do clima bonitinho de literatura de autoajuda, esse negócio de otimismo e positividade na luta contra o câncer é uma puta de uma covardia. O desgraçado tá lá, com dores inomináveis, e ainda tem de ficar todo sorrisos, se não “deixou-se abater”, “desistiu da luta”. Ou seja, acaba ficando como culpado pelo próprio câncer! Ah, vão à merda com esse negócio de superestimar a felicidade. Pelo direito de ser mal humorado e pessimista, especialmente se se tem câncer.

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Engraçado, não faz muito, “terminar por telefone” era símbolo máximo de insensibilidade; hoje em dia, ter o luxo de ouvir uma voz lhe dando um pé, em vez de apenas ler caracteres o dispensando, já é prova de distinção respeitosa.

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Atenção! Oportunidade! Se você é competente, proativo, gosta de trabalhar em grupo, tem espírito de liderança, é dinâmico, encara de frente os desafios da vida, não leva os problemas de casa para o trabalho, tem muita atitude, vivência e bagagem cultural, vá para o diabo que o carregue.

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As pessoas me parabenizam por ter parado de fumar, elogiam minha “força de vontade”. Mal sabem que parei justamente por me faltar a tal força de vontade: esse negócio de ser viciado exige constância, perseverança, compromisso, regularidade de horários – todas essas coisas para as quais não levo jeito nenhum.

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Fui uma criança tão deslocada que nem o amigo imaginário queria papo comigo. Consegui arranjar outro, mas depois de duas semanas ele começou a praticar bullying para cima de mim.

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O cabeleireiro pergunta “como você quer que eu corte?”. É inacreditável. Qual resposta ele espera ouvir? Se eu soubesse como ele deve cortar meu cabelo, eu mesmo o faria, não precisaria responder “faça cortes ligeiros com a tesoura em 45º em relação ao couro cabeludo, a uma profundidade de…” ou “hoje quero o modelo B252m”. O que é preciso para mudar esse paradigma? Algum cabeleireiro chegar com a perna quebrada no hospital e ouvir “como você quer que eu opere”?

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É comovente ver o zelo de estudantes de jornalismo defendendo a obrigatoriedade do diploma para o exercício da profissão – uma discussão de rara irrelevância. Acham que estão contribuindo para melhores condições de trabalho para a categoria, que ingenuidade fofa. Qual o medo do pessoal? Um cirurgião, numa sexta à noite, jogar o bisturi na parede e dizer “chega, já que não é para ter horário de trabalho e estar constantemente sob pressão, vou ser repórter de jornal diário, pelo menos os salários são melhores”?

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A tolerância, o respeito à pluralidade e a convivência harmônica com o que nos é diverso devem sempre perseverar – até algum imbecil começar a falar mal do João Gilberto.

Imagem: Epsos.de

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.