Como ser pernóstico com Hamlet

A primeira maneira de ser pernóstico é usar a palavra pernóstico em um título. Até há algum tempo eu achava que pernóstico era um tipo de inseto com muitas pernas.

Segundo o dicionário, pernóstico quer dizer:

  1. petulante, pretensioso, presumido, pedante.
  2. repontão, espevitado.

Eu e Júlia vamos assistir neste domingo à montagem da peça Hamlet, de Shakespeare, com o Capitão Nascimento (aka Wagner Moura) para ver se em algum momento da peça ele delicadamente ordena à caveira de Yoric, o Fanfarrão, para que peça para sair. Ou para ver se algum fanfarrão da platéia nos faz passar vergonha alheia dizendo isso, a fim de inspirar o ator.

Resolvemos então reler a história do príncipe dinamarquês, a título de aperitivo e preparo para o espetáculo do fim de semana.

Gostaria de ter aqui a tradução de Millôr Fernandes. Infelizmente, os ninjas a levaram, e só tenho agora um volume da Ediouro que reúne todas as tragédias shakespearianas. E no que diz respeito a edições de tragédias a Ediouro tem fama de ser um tanto metalinguística.

Imagino que o responsável pela tradução de todas as peças seja um grande conhecedor da obra de Shakespeare, mas com todo respeito, no texto introdutório à Hamlet, ele nos dá uma aula de pernosticismo, pernosticidade, pernosteio, pernostidão ou seja lá o que for:

Eis a obra prima de Shakespeare. Hamleto é algo de genial que nos bafeja e nos obsidia. Hamleto é a vida, no que ela tem de apaixonante, enigmático e medonho. Como teria sido possível a uma cultura tão limitada como a de Shakespeare abarcar tão recônditas sutilezas metafísicas, tão tortuosos labirintos da alma humana? (…) A peça, se não fosse a profunda respiração filosófica de Hamleto e o lirismo inefável de Ofélia, não passaria de uma vasta carnificina sem maior interesse. (…) Ofélia é a mais tocante figura feminina de todas as literaturas: é algo de vago, esvoaçante e tênue. É como um adejar de asas sobre um coração inquieto. A sua loucura é algo de tão lancinantemente poético que lhe impessoaliza a figura. E a morte sagra-lhe a pureza.

Acho que lerei outra tradução, pois não quero Hamlet a me obsidiar. Quanto mais a me bafejar. Naquela época, as pessoas deviam ter um hálito muito desagradável.

Postado em Teatro.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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