Como ser pernóstico com Hamlet
13 de julho de 2009 | Publicado na Categoria Teatro | 7 Comentários »A primeira maneira de ser pernóstico é usar a palavra pernóstico em um título. Até há algum tempo eu achava que pernóstico era um tipo de inseto com muitas pernas.
Segundo o dicionário, pernóstico quer dizer:
- petulante, pretensioso, presumido, pedante.
- repontão, espevitado.
Eu e Júlia vamos assistir neste domingo à montagem da peça Hamlet, de Shakespeare, com o Capitão Nascimento (aka Wagner Moura) para ver se em algum momento da peça ele delicadamente ordena à caveira de Yoric, o Fanfarrão, para que peça para sair. Ou para ver se algum fanfarrão da platéia nos faz passar vergonha alheia dizendo isso, a fim de inspirar o ator.
Resolvemos então reler a história do príncipe dinamarquês, a título de aperitivo e preparo para o espetáculo do fim de semana.
Gostaria de ter aqui a tradução de Millôr Fernandes. Infelizmente, os ninjas a levaram, e só tenho agora um volume da Ediouro que reúne todas as tragédias shakespearianas. E no que diz respeito a edições de tragédias a Ediouro tem fama de ser um tanto metalinguística.
Imagino que o responsável pela tradução de todas as peças seja um grande conhecedor da obra de Shakespeare, mas com todo respeito, no texto introdutório à Hamlet, ele nos dá uma aula de pernosticismo, pernosticidade, pernosteio, pernostidão ou seja lá o que for:
Eis a obra prima de Shakespeare. Hamleto é algo de genial que nos bafeja e nos obsidia. Hamleto é a vida, no que ela tem de apaixonante, enigmático e medonho. Como teria sido possível a uma cultura tão limitada como a de Shakespeare abarcar tão recônditas sutilezas metafísicas, tão tortuosos labirintos da alma humana? (…) A peça, se não fosse a profunda respiração filosófica de Hamleto e o lirismo inefável de Ofélia, não passaria de uma vasta carnificina sem maior interesse. (…) Ofélia é a mais tocante figura feminina de todas as literaturas: é algo de vago, esvoaçante e tênue. É como um adejar de asas sobre um coração inquieto. A sua loucura é algo de tão lancinantemente poético que lhe impessoaliza a figura. E a morte sagra-lhe a pureza.
Acho que lerei outra tradução, pois não quero Hamlet a me obsidiar. Quanto mais a me bafejar. Naquela época, as pessoas deviam ter um hálito muito desagradável.

Esse é um daqueles textos que a gente lê e para pra pensar se o sujeito está realmente interessado em falar da obra ou apenas demonstrar seu vasto vocabulário.
Estranho também é esse reducionismo pra introduzir a obra. Dizer que é apenas carnificina, não fosse os personagens é o mesmo que dizer que Matrix sem aqueles questionamentos sobre realidade e outros mais seria apenas um filme de porrada. Mas em ambos os casos, não são. Não dá pra separar.
Hamleto? Eu hein, que tradução estranha e desnecessária.
Tanta pompa na introdução parece com o diretor igualmente pernóstico de Som e fúria, que por sua vez pra mim é paródia de um personagem real, que não disfarçaram nem o nome.
(Pensei que eu era a única que tinha Hamleto em casa. Pelo menos a minha edição é da década de 50)
Sabe que esse tempos me propus a ler uns contos de Borges e a introdução era tão pernóstica que não apenas não consegui terminá-la como também desisti do Borges? Meu irmão disse – é, eu também tentei ler Borges… *medo*
kkk, hamleto te obsidiando e bafejando de pertinho é f***.
recentemente li, para o clube da leitura do Meia Palavra, a versão traduzida especialmente para o livro do Harold Bloom, Hamlet: poema ilimitado, e a tradutora Ana Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça (ufa!) fez um trabalho bom e despretencioso na medida certa. sem hamletos.
1 abraço
É um fenômeno que acontece com a literatura de Shakespeare. Um respeito-pela-alta-literatura, um não-toque-nisso que não cabe, não cabia antes, não cabe ainda mais agora quando vivemos a era das apropriações, reproduções, traduções, memes. Shakespeare serviu no seu tempo como entertainer, criticava a elite e a massa e divertia os dois, tudo ao mesmo tempo. Mas por vias difíceis de calcular foi mantido durante muito tempo como relíquia, biscoito fino, seletivo na escolha de leitores e fruidores. Shakespeare não é nada disso! Shakespeare é para ser citado, recitado, refeito, relocalizado. Esses novos acontecimentos de Shakespeare me alegram, porque meu objeto de pesquisa do mestrado é a obra dele, mas ainda há esses dinossauros que trabalham para salvaguardar o seu feudo decadente, enquanto há um universo pulsando lá fora.
É, realmente a tradução de Millôr Fernandes é maravilhosa. Mas os prefácios, via de regra, sempre ficam a obsidiar e bafejar abobrinhas nos outros.
ahaha genial! Aliás, pra quem falou do Som e Fúria, o Fernando Meirelles falou em entrevista que ligou pro Gerald Thomas pra perguntar se podiam zoar com ele no seriado. heheeh Genial. Viva Hamleto!!!!!!!!!!!!!!
PS: Sem contar que a tradução em questão não fala das pedradas e flechadas (versão em inglês).
O mais genial da introdução é o fato do cara falar na cara dura que o próprio Shakespeare era um “burrão”, e ainda achar uma audácia ele ter conseguido ser profundo sem intelecto. Isso é o que eu chamo de marketing “viral”, o resto é conversa….