Sabe quando se concorda com alguém sobre determinado ponto, mas os argumentos usados por essa pessoa – e a forma de exprimir a opinião – são tão diferentes dos seus que você se vê obrigado a repensar suas convicções?

Pois é. Um amigo encaminhou um artigo para minha apreciação, recomendando-o fortemente. Acho que ele esperava recepção mais entusiástica de minha parte, mas não me senti confortável com o que li. Basicamente, o autor do texto assinalava os perigos do centralismo e das tendências totalitárias do governo federal do Partido dos Trabalhadores. Eu também vejo esses riscos, e mais: como fui criado em família de militantes petistas, à indignação por muitas das mazelas deste governo se soma um forte sentimento de melancolia. Mas há formas e formas de criticar – e o jeito escolhido de fazer a crítica pode ser muito revelador.

Quem me conheceu como adolescente rebelde no colégio, ativo na militância estudantil, deve estranhar quão pouco escrevo sobre política em minhas crônicas. Um misto de desânimo e sentimento de que há gente muito mais habilitada para comentar a área. Mas acho que a resposta dada por mim a meu amigo (aqui com ligeiríssimos cortes) pode ter interesse mais amplo, e diz em pouco espaço muito do que penso sobre a polarização partidária no Brasil.

“Quanto ao conteúdo, concordo com o autor desse texto na maioria dos pontos. Longe de mim, ‘na atual conjuntura’, levantar um dedo para defender o PT. Incomoda-me, no entanto, o tom raivoso do autor; como se o PT houvesse corrompido um paraíso terrestre e inaugurado a prática de corrupção no Brasil, como se o partido fosse o único a privilegiar um projeto de poder em detrimento de um projeto de governo. Acho que também não é por aí.

Esse padrão de discurso, que é uma mescla de PTfobia e humor mordaz temperada com alguns termos empolados, aproxima-se perigosamente de dar razão a quem não a tem – ou seja, a quem minimiza tudo de ruim que aconteceu neste governo dizendo que o PT é “perseguido pelas elites”. Quando lembramos que essa PTfobia já era muito difundida antes de o partido assumir o governo federal, minha impressão se reforça: o tom era exatamente igual, mas os argumentos e os medos muito distintos. Fica parecendo que, para esse tipo de articulista, é mais importante provar que o PT é um horror do que propor soluções para a melhora do país. Análise política não deve se aproximar de argumentos de torcida de futebol.

Em português rasteiro: houve o mensalão, sim senhor, e as práticas totalitárias do partido são de causar náusea, principalmente a quem já simpatizou com ele, como eu e você. Mas acho que, em nossas (justas) críticas ao PT, devemos fugir como o diabo da cruz de um tom minimamente próximo ao “ai, que nojo desses petistas, éramos felizes e não sabíamos, um analfabeto cachaceiro mandando no país” etc. Isso favorece caricaturizações e dificulta trazer à realidade quem está apaixonado.

Pois eu acho que só mesmo a paixão justifica alguém defendendo o PT hoje em dia. Claro, digo que só a paixão justifica me referindo àqueles que não ganham nada com o governo petista – mas estes são muitos, ainda, e podem ser gente muito boa. Eu acredito nisso. Os simpatizantes do PT não são todos “petralhas”, sabe?

E para responder a esse transe emocional (até bem compreensível, haja vista o fato de o PT ter sido o depositário de muitas esperanças de toda uma geração, e é difícil desapegar-se disso), acho que a razão é uma arma muito mais eficaz do que o ódio. Falo de argumentos racionais expostos de maneira serena, pois o sarcasmo só serve como pregação aos convertidos. Quem já não simpatiza com o PT adora, curte, milhões de likes no facebook e trilhões de compartilhamentos. Quem está sendo chamado de burro (ou de conivente com corrupção), no entanto, não irá gostar muito.

Nas raras vezes em que ainda me dou ao trabalho de fazer alguma forma de militância política, tenho como meta compartilhar com quem está à minha volta algum ponto em que eu considere estar mais esclarecido do que a média da audiência. O objetivo não é ganhar aplausos pelo meu pretenso brilhantismo – esse tipo de necessidade fútil eu tento preencher com esta viadagem de ficar fazendo contos e crônicas.”

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.