Acredito que para ninguém é novidade o como é difícil para as pessoas envolvidas com qualquer tipo de arte fazer seu trabalho acontecer, ser reconhecido e, ainda, conseguir dele uma condição de sustento próprio – nem falo de sustento familiar.

Mesmo que não declarada há, socialmente, uma pré-definição de insucesso financeiro aos artistas. Em muitos casos, o artista já é tido como uma pessoa sem vontade de trabalhar, que é alheio à realidade e vive “no mundo da lua”. Além deste pré-conceito, o artista tem de contar com diversos outros fatores, que não o próprio talento, para conseguir, de alguma forma, o reconhecimento do seu trabalho.

A grande maioria dos artistas permanece no anonimato, quando muito apenas entre familiares e amigos, sendo ignorados e até caçoados pelos demais, vivendo uma vida de dúvidas e obstáculos desnecessários, mesmo em casos de incríveis talentos. Mas a minúscula, a micro, a nano minoria que consegue o reconhecimento, consegue se enaltecer tanto a ponto de se tornar ainda mais arrogante e tirana que aqueles que, quando muito, consomem a arte. É claro que estou generalizando, mas desta minoria é assim a maioria.

O artista, por definição, é uma pessoa com a sensibilidade mais vulnerável que as demais e, por isso, está mais susceptível às variações do mundo. Mas é o ego, quando estimulado, que mais os orienta, não sei se é por esta sensibilidade ou se é por exercerem constantemente o poder divino da criação, segundo as próprias vontades e quereres.

Mas o que me intriga é que esta maioria da minoria, quando consegue seu lugar ao sol, acaba por gerar rei nas próprias barrigas e esquecer por tudo o que se passou, se colocando em uma posição superior na cadeia alimentar. Isso acontece principalmente quando conseguem formar um grupo, seja lá do quê, e colocam-se em um mundo fechado, onde passam a produzir, não harmonicamente, mas ariscos feitos cobras em um ninho prontas para se atacarem a qualquer possibilidade de inflamação dos egos. Um mundo aonde tudo que vem de fora deve ser queimado em praça pública, sem quaisquer considerações ou justificativas.

Dia destes, vi uma revista sobre arte muito interessante e com uma boa proposta, mas o seu conteúdo não era nada mais nada menos que uma maçante bajulação entre seus idealizadores. Conheci nela um monte de artistas, mas nada de seus trabalhos, a não ser o quão especiais eles são.

Concordo que cada um faz o que bem entender da vida, mas queria apenas tentar entender porque, justamente indivíduos que têm uma grande sensibilidade aflorada, ou seja, sentimentos mesmos, são justamente aqueles que mais se colocam em um altar sobre os demais e lhes pisam a cabeça na primeira oportunidade que têm, justamente àqueles que estão trilhando o caminho que um dia estes primeiros trilharam, e passam a ser justamente aqueles que um dia pisaram em suas próprias cabeças.

É verdade que este tipo de coisa acontece nos diversos âmbitos da vida, mas acho pouco provável que aconteça com tanta hostilidade como neste, que deveria ser justamente o mais “sensível”. Mas não quero ser demagogo sugerindo que todos os artistas que conseguiram seu reconhecimento promovam aqueles que estão tentando a vida, mas que ao menos os considerem, que ao menos lhes deem uma palavra de orientação para que evitem tombos que estes primeiros já sofreram e que, em caso de um bom talento, que deem a eles um pequeno empurrão.

Coisas da vida? Não creio! Mas talvez falta de consciência e excesso de um ego primitivo.

P.S.: Ainda estou engatinhando com meus trabalhos, mas, por exemplo, se não fossem as palavras de orientação que o Alessandro Martins (sem bajulação!), minoria da minoria, me deu para a criação do meu blog, provavelmente hoje meus trabalhos estariam, se muito, no fundo do disco rígido do meu computador, ao invés de eu estarem alimentando meu blog, dando conteúdo para a publicação do meu segundo livro e me permitindo participar aqui do Livros e Afins.

Sobre o autor: Rafael Castellar das Neves

Nascido em Santa Gertrudes, interior de São Paulo, formado em Engenharia de Computação e um entusiasta pela literatura, buscando nela formas de expressão, por meio de crônicas, poesias, contos, ensaios e romances.