Ainda me impressiono com a tecnologia no sentido de que ela, hoje, pode fazer você redescobrir coisas perdidas em si mesmo.
Esta semana ainda publiquei aqui um documentário sobre Carlos Drummond de Andrade, feito pelo escritor Fernando Sabino, encontrado no YouTube.
De repente, me vejo garimpando mais imagens desse poeta que, na adolescência, me fez tanta companhia. E encontrei um outro documentário exibido na Globo. E, dessa maneira, vejo-me redescobrindo através de uma rede social – o YouTube – um outro cara: eu muito mais moço, uns 15 ou 20 anos atrás.
Já de início, ouvimos Tom Jobim a declamar o Poema da Necessidade, com aquele seu jeito de repetir, gesticular e elevar a voz nas partes de que mais gosta: “… é preciso ter mãos pálidas e anunciar o fim do mundo”. Só isso já vale os vinte e tantos minutos do vídeo.
Outra coisa reveladora: no famoso poema em que há a exclamação “Eta vida besta!”, descobrimos que esta é realmente uma expressão de tédio. Talvez hoje, a expressão “vida besta” tenha assumido um significado bonificante: provavelmente porque nós, da “cidade grande”, temos uma certa nostalgia da vida sossegada da roça. Apesar de o significado das coisas ser dado pelo leitor, é sempre bom saber o significado original dado pelo autor.
Você também verá que o poema Procura da Poesia, traz de fato diversos métodos do escritor, como por exemplo deixar o poema recém-escrito descansar por alguns meses na gaveta. E traz também a mágoa que o poeta tem – e da qual tenta se consolar em Procura da Poesia - dos poemas que não puderam ser anotados e que, por isso, voaram (ele usa esse termo) e foram esquecidos. Veja:
Penetra surdamente no reino das palavras.
Lá estão os poemas que esperam ser escritos.
Estão paralisados, mas não há desespero,
há calma e frescura na superfície intata.
Ei-los sós e mudos, em estado de dicionário.Convive com teus poemas, antes de escrevê-los.
Tem paciência, se obscuros. Calma, se te provocam.
Espera que cada um se realize e consume
com seu poder de palavra
e seu poder de silêncio.
Não forces o poema a desprender-se do limbo.
Não colhas no chão o poema que se perdeu.
Não adules o poema. Aceita-o
como ele aceitará sua forma definitiva e concentrada no espaço.
Confesso que nunca deixo de me arrepiar durante a leitura dos dois primeiros versos do trecho que escolhi.
Além disso, é bonito ver que o poeta transforma até mesmo o seu método de trabalho em poesia. E vice-versa.










