Na noite do 84º prêmio da academia os favoritos se provaram como tais quando a estatueta brilhante pousou nas mãos de (quase) todos aqueles que esperávamos que vencesse. Quem fez bolão em casa e apostou em Hugo e O Artista deve ter faturado bons trocados, pois eles ganharam a maior parte dos prêmios da noite.

O primeiro, Hugo, tem uma história excelente, um fantástico diretor e uma preciosidade inestimável no que diz respeito a imagem. Usando a tecnologia 3D ao seu favor, mas sem abusar e/ou alegorizar a ferramenta (leia-se Avatar), o filme transpira delicadeza e por que não, uma originalidade je ne sais quoi que é bem a cara de Scorsese. Apesar de boa história e bom roteiro, o filme não parecia “maduro” o suficiente para abocanhar os prêmios maiores, sendo que não precisa pedir desculpas a nenhum de seus concorrentes. Mesmo que não tenha levado Melhor Filme ou Direção, Hugo abocanhou 5 prêmio técnicos, lembrando o que aconteceu com A Origem que também era um excelente filme.

O segundo, O Artista, é um daqueles filmes que presta uma ode ao antigo cinema. No caso deste, em especial, conta a história de uma ator de cinema mudo que entre em parafuso com a chegada do cinema com Som. A história é simpática, o visual é lindo (sou uma eterna apaixonada por filmes em P&B), a direção deu um show, mas realmente o que marca o filme são duas personagens incríveis: O ator e o Cachorro.  Indicado a 10 categorias, O Artista levou 5 estatuetas, 3 das quais consideradas prêmios grandes (Ator, Diretor e Melhor Filme).

Enquanto isso, Viola Davis que era a favorita para levar a estatueta de Melhor Atriz acabou perdendo para a veterana Meryl Streep que, já em sua 17ª indicação não estava com pretenção nenhuma de levar o prêmio para casa. A Atriz ficou tão surpresa que fez um discurso emocionado (e engraçadinho), tanto sobre ter sido indicada tantas vezes, quanto sobre ter vencido pela terceira vez. Vale ressaltar que Meryl ganhou a estatueta pelo filme A Dama de Ferro, que só é realmente um bom filme por causa dela.

Apesar do inegável brilho de Jéssica Chastain, sua colega de elenco Octavia Spencer iluminou o palco do prêmio, emocionada com o Oscar de Melhor Atriz Coadjuvante. Realmente em Histórias Cruzadas seu elenco que faz o filme valer a pena. A história não tem grandes picos, não tem um roteiro brilhante e nem é realmente marcante, porém suas personagens são tão intensas que você definitivamente vai se lembrar delas. Dando uma ideia realmente pessoal, acredito que grande parte das indicações do filme tenham sido feitas pela questão racial norte-americana que ainda é muito latente.

O discurso que ninguém vai esquecer é o de Christopher Plummer que ao pegar a estatueta disse: “Você é apenas dois anos mais velha que eu!”.

Enquanto isto, correndo por fora dos prêmios mais visados estava Milennium: os homens que não amavam as mulheres, que ganhou o prêmio de Melhor Montagem. Apesar e ter concorrido em algumas categorias técnicas e na categoria de Melhor Atriz, o filme parecia ser Blockbuster demais para o prêmio. Da mesma forma que o Milennium era blockbuster demais (como aconteceu com Harry Potter, Missão Madrinha de Casamento e O Homem que mudou o Jogo), a Árvore de Vida parecia não se encaixar naquele meio, por ser “cult” em demasia. O filme tinha entre seus componentes Brad Pitt e Jessica Chastain (que estavam concorrendo a prêmios, no entanto nenhum pela Árvore) e tinha Sean Penn também, que foi ganhador do Oscar por Milk. Mas fora seus atores conhecidos e premiados, a proposta do filme era ousada e meio confusa para o telespectador mediano, o que pode (ou não) levá-lo a não ser tão cabível em uma premiação como o Oscar.

Apesar dos vencedores deste ano terem sotaques variados, incluindo o A Separação (favorito e vencedor de Filme Estrangeiro), de novo não deu para o Brasil faturar a estatueta. “Real in Rio” de Sérgio Mendes e Carlinhos Brown perdeu para o seu único concorrente o “Man or Muppet” do filme Os Muppets. E falando em Muppets, este ano a Disney não saiu em disparada nesta premiação como aconteceu nos últimos anos, concorreu 13 vezes, mas só levou o de Melhor Canção Original. A empresa ainda detem o maior número de Oscars desde a sua estréia em 1928, já acumulando 62 indicações, faturando 27 premiações (número atualizado).

Pela primeira vez também a Disney não concorreu na categoria de melhor animação. Acabou “desbancada” por filmes da Dreamworks e estrangeiros. Rango foi o vencedor da categoria, com a sua animação para adultos. Cada vez mais (mesmo depois de tantos anos de existência) a animação vai ganhando espaço como filmes adultos. Cada vez mais as pessoas estão se permitindo ir ao cinema para ver um filme em desenho animado. Acho que Walt Disney ficaria orgulhoso, mesmo que a sua empresa não estivesse concorrendo.

Ao final das contas, ganhou quem esperávamos que ganhasse. Não que isto tire o mérito da cerimônia. Este tipo de reconhecimento enobrece o trabalho daqueles que transformam a sétima arte em, por assim dizer, arte.

Sobre o autor: Ana Carolina (oliviayale)

Jornalista com diploma. Autora da saga "A Irmandade das Olivias" e aprendiz de pesquisadora em Pós-Modernidade e Contos de Fada, cinéfila de carteirinha, apaixonada pela Disney e viciada em blogs.