Os três mosqueteiros: d'Artagnan de um jeito que eu não imaginava

Confesso que eu tinha uma imagem diferente do personagem d’Artagnan, de Os Três Mosqueteiros, livro de Alexandre Dumas.

Confesso também que eu vinha procurando, na verdade, O Conde de Monte Cristo, do mesmo autor, para ler. Mas eta livrinho difícil de ser encontrado. Agora é que eu vi uma edição no Submarino, mas ao que parece lançaram apenas o primeiro volume ainda.

Porém, já de início agradou-me a descrição do personagem principal – o tal do quarto mosqueteiro.

Um jovem… – tracemos seu retrato com uma só pincelada: – imaginem um Dom Quixote com dezoito anos, Dom Quixote desmontado, sem loriga e sem coxotes, Dom Quixote vestindo um gibão de lã cuja cor azul se transformara num tom indefinível de malva e de azul celeste. Rosto longo e moreno; a maçã das faces saliente, indício de astúcia; os músculos maxilares imensamente desenvolvidos, sinal infalível pelo qual se reconhece o gascão, mesmo sem boina, e nosso jovem usava uma boina ornada com uma espécie de pluma (…)

E segue assim por mais algumas linhas.

A referência ao personagem de Cervantes, o Cavaleiro da Triste Figura, retorna alguns parágrafos adiante quando o autor fala do engraçadíssimo cavalo montado pelo herói e sensação de comicidade provocada pela montaria.

E essa sensação havia sido tanto mais penosa para o jovem d’Artagnan (pois assim se chamava o Dom Quixote dessa outra Rocinante) quanto ele não escondia o aspecto ridículo a que o sujeitava, por melhor cavaleiro que fosse, uma tal motaria; assim, suspirara profundamente ao aceitar o presente que o Sr. Dartagnan, pai, lhe fizera dela.

Mas não pára por aí.

Com um tal vade-mécum, d’Artagnan encontrou-se, tanto no moral como no físico, uma cópia exata do herói de Cervantes, ao qual o comparamos tão acertadamente quando nossos deveres de historiador nos obrigaram a traçar o seu retrato. Dom Quixote tomava os moinhos de vento por gigantes e os carneiros por exércitos; d’Artagnan tomava cada sorriso por um insulto e cada olhar por uma provocação.

Os filmes e desenhos animados que vi baseados na obra emprestaram-me uma retrato ou pouco diferente de d’Artagnan, mais estouvado e menos estourado. Quem sabe esse temperamento, um tanto paranóico até, não passe de uma espécie de defesa frente ao novo mundo que ora se abre para ele.

O fato é que fico feliz por ver que à época Dom Quixote era tão popular ainda a ponto de ser citada numa obra por si só popular. E também por ver que Dumas, pai, não teme dizer de que fontes bebe.

Postado em Escrita.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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