Os podres valores que o vestibular ensina
19/11/2008A minha amiga Isadora presta vestibular como treineira na Universidade Federal do Paraná: como ainda não concluiu o ensino médio, faz o vestibular só para treinar, sem o risco de roubar, ainda que temporariamente, a vaga de alguém.
Na hora da prova, percebeu que só tinha caneta azul. E, para preencher o gabarito, era exigida tinta preta. Antes do início do exame, pediu às pessoas em torno uma, emprestada. Embora muitas delas tivessem canetas extras, apenas um se manifestou.
- Você é treineira? – perguntou o rapaz.
- Sou.
- Então tome. Se você fosse concorrente, eu não emprestaria.
Imagino que todos em torno dela já estejam prontos para o mercado, sem a necessidade de que qualquer curso universitário os prepare para tal, como agora costumam prometer em letras grandes em neon: PREPARAMOS VOCÊ PARA O MERCADO.
Leia-se: ESTUDANDO AQUI VOCÊ SERÁ UM BOM EMPREGADO. Assim, ao negar a sua caneta preta, é por essa posição que você está lutando e, de quebra, vendendo barato seus valores mais nobres.
E não esqueça que, para ter a vaga de trabalho que antes você tinha como graduado, será necessária a pós-graduação. A vaga para qual era suficiente o mestrado pede agora o doutorado. E assim por diante. O nome disso: inflação acadêmica. Um ciclo cruel e inútil que, em algumas décadas – se não anos – implodirá.
Mas, se você entendeu que a vida é muito competitiva e é preciso que, de jeito nenhum, você empreste sua caneta preta, não se preocupe: você já está pronto para pisar nos seus adversários. Não esqueça de pegar seu diploma na saída da sala.
É por essas e outras que considero o sistema de ensino atual uma piada.
A competitividade é tão estúpida que a vaga que iria para um bom médico pode ser reservada para um estudante medíocre ou desinteressado na Medicina proprimente dita (ou seja lá qual for o curso) porque um dos envolvidos não tinha uma caneta preta ou porque não sabia extrair a raiz de um número imaginário.
Sou partidário de Rubem Alves, que diz que o vestibular deveria ser substituído por um sorteio.
A primeira coisa do vestibular que me morde não é decidir quem entra ou não na universidade, mas a sombra sinistra que ele lança sobre tudo o que vem antes. As escolas são orientadas para o vestibular, e os pais logo de saída querem as escolas fortes para os filhos passarem no vestibular. A primeira conseqüência de ter o sorteio é que as escolas seriam livres para ensinar. Elas não precisariam preparar os alunos para o vestibular. Então, as pessoas poderiam ouvir música, ler e fazer o que quisessem. Seria a libertação das escolas para realmente ensinar.
Ele tocou em um ponto fundamental: o vestibular não é nocivo porque torna difícil a entrada na universidade de uma classe desfavorecida.
Ao contrário, hoje em dia – considerando que a universidade tem preparado, na maioria das vezes, não o pensamento crítico, mas a massa empregada e dependente -, sorte de quem declina do convite à vida acadêmica.
Mas é nocivo sim porque o vestibular, como instituição, joga a sua rede de inutilidade em todos os anos anteriores do estudante. E, como pudemos ver através da história de minha amiga Isadora, sobre sua capacidade de ver a pessoa ao seu lado como semelhante. E não como adversário.
Percebe como, a partir daí, a escola deixa de ensinar coisas realmente importantes?
Por falar nisso, você me emprestaria sua caneta preta?
Esqueci a minha.





23 comentários
Lamentável. Trabalho numa escola que além de cursos técnicos oferece também o médio e pude perceber que o nosso ensino médio nada mais é do que um “pré-vestibular de 3 anos” e nada mais. Até alguns anos atrás ainda havia aulas de “Ética e Cidadania” mas por causa da pressão dos pais, que querem os filhos “bem preparados para o vestibular” as aulas foram substituídas. É uma pena…
cruel mesmo…
ao menos, como psicologa, nao posso reclamar: terei sempre clientes para atender… ao longo da carreira.
Opinião válida. Mas sou totalmente contrária a ela. Alguns valores que creditamos à escola, são na verdade de responsabilidade do convívio familiar. Acho que algumas generalizações são muito simplistas… como aluna de ensino público do pré ao último ano de faculdade, mesmo com toda a diferença entre o ensino público e o privado, ainda acho o vestibular a melhor fórmula de seleção – ainda mais quando vejo o público (ou clientes) que chegam no ensino superior particular em algumas instituições (não dá para generalizar).
Se o sistema por método faz opções absurdas sobre o que avalia, há a opção de melhorar o método, ter vestibulares condizentes por carreira etc.
Agora dizer que um sorteio seria mais justo do que valorizar por método… duro de engolir.
Quanto a sua amiga treineira, melhor sorte quando for para valer – inclusive lendo com antecedência o material básico na ficha de inscrição.
Concordo que o Vestibular é cruel, e que as escolas focam demais o ensino para o vestibular.
Mas hoje não existe outra forma de afunilar os alunos que saem do ensino médio e vão pro superior. Como fazer a seleção?
Querendo ou não, vestibular é uma razoável forma de selecionar os mais aptos. Existe outra melhor? Eu desconheço.
“Ao contrário, hoje em dia – considerando que a universidade tem preparado, na maioria das vezes, não o pensamento crítico, mas a massa empregada e dependente -, sorte de quem declina do convite à vida acadêmica.”
Achei esse parágrafo muito crítico e sem argumento.
Falando assim, parece que não vale mais a pena ir para a faculdade, que lá não se aprende.
A impressão que tive, me perdoe se tiver errada, é que você tem uma visão das universidades particulares todas robotizadas pra formar os seus alunos.
Abraço!
Por isso que essa merda de Brasil não vai pra frente. Se tudo começa na educação, a culpa não é da falta dela, e sim do próprio sistema de ensino. Vestibular é a pior merda que já inventaram. Deveriam usar as notas das provas. Mas tbm… provas não provam nada, também. Precisaria de um sistema inteligente, o que envolveria toda a reformulação do sistema vigente, o que daria muito trabalho pros nossos deputados e senadores. É. Deixa pra lá.
Que horrível… :-(
Belo texto, Ale.
Obrigado, Ulisses.
Thais,
como disse o Rubem Alves, o problema é justamente a sombra que o vestibular joga sobre o ensino anterior…
Abraços!
Felipe,
por isso sou a favor da troca do vestibular pelo sorteio. É tão justo quanto, também serve para afunilar e, assim, seria permitido às pessoas verem outras alternativas de aprendizado e formação que não a universidade. Por outro lado, escaparíamos da sombra que o vestibular joga sobre os anos de aprendizado anteriores a ele. Quanto à universidade, acho que você tem razão: ela realmente deve estar formando a massa crítica brasileira.
Abraços do Alessandro.
Prix,
não estou dizendo que o sorteio é mais justo. É tão justo quanto. A diferença é que, sem o vestibular nos atuais moldes, a sombra desse tipo de avaliação não seria jogada sobre os anos de ensino anteriores.
Abraços!
Thaty,
sem falar a experiência que você teve. Pois, para chegar a ser psicóloga, passou pelo vestibular…
Beijos!
Henderson,
ética? cidadania? quem precisa dessas coisas? acho que nem existe hoje em dia alguém que consiga ensiná-las… enfim.
Oremos.
Abraços do Alessandro.
Trocar vestibular por um sorteio seria injusto. Pessoas dedicadas, responsáveis e estudiosas seriam privadas de continuar na formação acadêmica.
Um cara aleatório que não tá nem aí pra nada, não estuda, só vai pra farra, poderia entrar.
Não vejo como sorteio pode ser tão justo quanto.
Se o ensino é todo voltado para o vestibular, é o vestibular que tem que ser trocado?
“…e, assim, seria permitido às pessoas verem outras alternativas de aprendizado e formação que não a universidade…”
O problema é que você iria privar alguém que quer e merece de fazer um curso superior. Querendo ou não, a universidade ainda é a melhor forma de “ficar mais inteligente” depois do colégio. E se a pessoa quiser seguir carreira de professor? Se ela não passar no sorteio já era? Se ela quiser ser doutor em história, ela vai ter que esperar anos e anos até ser sorteada?
Sinceramente, não consigo enxergar onde tá a justiça no meio disso.
Essa história de sorteio, parece mais querer tapar um problema com outro problema.
Espero que não leve a mal meu comentário, eu que gosto de discutir mesmo =x hehehe
E como vim de boa escola particular, passei no vestibular e estou numa faculdade federal, minha opinião é meio tendenciosa pra esse lado.
Abraço!
Aloha!
É, nunca gostei desse método burro de avaliação. Nem de treineiro…
Aloha!
Bom, todo mundo tem direito a ter sua opinião. Mas eu não concordo com o que foi dito no post.
Digo isso, pois tomo como base a educação que tive no colégio militar.
Lá, nós não recebemos educação direta para passar no vestibular, e sim para seguir a carreira militar, o que consequentemente, nos dá além da educação para passar no vestibular, lições de disciplina, respeito ao próximo e a hierarquia, entre outras coisas. E mesmo assim, ainda se formam alunos indiciplinados e burros.
O que eu estou querendo dizer com isso? A educação é uma questão muito delicada, depende de muitas variáveis e com certeza realizando um sorteio não iria solucionar o problema, nem sequer melhorá-lo.
Seria uma boa fazer, além de uma prova de conhecimentos (como o vestibular), uma entrevista com um psicólogo, para ver se o candidato tem habilidades além das cognitivas? Assim saberíamos quem seria uma bom médico e perdeu a caneta preta? Até que seria, mas não é uma coisa praticável, as pessoas são diferentes, tanto os julgadores quanto os julgados. Logo, para a situação que nos encontramos, o vestibular é uma forma razoável de se selecionar os alunos. Se você opta por um conhecimento formal, logo está sujeito a essas “regras”, como os concursos.
Hoje em dia a prova do vestibular não é a única forma de se ingressar numa instituição de ensino superior, existem exames seriados, ENEM, entre outros, e todos com o mesmo objetivo.
Criticar o sistema é muito fácil, o difícil é cada um fazer a sua parte para melhorá-lo.
E não é só de vestibular que trata todo esse problema. O próprio ensino de toda a matéria é um assunto que não tem fim.
Esse outro post[1] também tem uma visão muito interessante sobre todo o aprendizado do ensino médio.
[1] http://wfarr.org/posts/15-i-have-a-bad-attitude-damn-right-i-do
Vinicius,
o vestibular é só o sintoma. Na verdade ele faz parte de algo maior. Você tem razão.
Abraços do Alessandro.
Guilherme,
não coloco o sorteio como solução propriamente dita.
Apenas digo que o sorteio é uma solução tão ruim quanto o vestibular.
Outra coisa que poderia ser questionada: o ensino superior é para todo o mundo? Todo o mundo precisa de ensino superior? Muitas das pessoas que fazem o vestibular não poderiam ser mais felizes e realizadas ainda que não cursassem uma faculdade? E, considerando a atual qualidade dos atuais cursos ditos superiores, é válido tanto sacrifício (da pessoa e da qualidade de ensino anterior ao vestibular)?
Isso e muito mais.
Entendo o seu ponto de vista e o respeito. Principalmente porque você tocou em um ponto importante: você teve de aprender as matérias necessárias ao vestibular e, com elas, aprendeu coisas como disciplina, hierarquia e respeito ao próximo, como você citou. Mas se tivesse que escolher entre elas e os valores que aprendeu, você ficaria com as matérias ou os valores?
Eu ficaria com os valores – para você podem ser uns e para mim outros, não importa -, pois os valores tornam o indivíduo capaz de se aprofundar em qualquer área de conhecimento por si só, com independência, liberdade e, certamente, mais interesse.
Desculpe não dedicar tanto tempo ao seu comentário, conversando sobre cada ponto, como ele merece, mas estou com muitos comentários atrasados para responder.
Seja sempre bem-vindo.
Abraços do Alessandro Martins.
Queria deixar só um último comentário Alessandro.
Acho que certas pessoas tem uma visão equivocada da razão do ensino médio.
Da forma que você fala, faz parecer que ensino médio tem APENAS o intuito de ensinar o que vai ser cobrado no Vestibular.
O intuito do ensino em qualquer fase, é deixar o aluno “mais inteligente” agregar conhecimentos. Por isso entre uma escola que ensine o conteúdo ou valores, eu prefiro os 2.
Se a pessoa pode ser feliz sem vestibular, isso é opção dela, ela que decide. Agora mudar todo o sistema por isso é mt parcialidade.
Eu que sou uma pessoa que sempre quis cursar faculdade e ir até o mestrado, seria OBRIGADO a “ver outras formas” de seguir minha vida?
Novamente, seus argumentos querem cobrir um problema com outro. Não é pq varias universidades tem um ensino ruim que temos que desencorajar as pessoas de seguir para faculdade, muito menos acabar com vestibular.
Isso é tapar sol com peneira.
Abraço!
Felipe,
muito bem. Não estou tentando convencer ninguém de nada e nem acho que você deva desistir de sua faculdade e nem que devamos encerrar uma porta para poder abrir outras. Creio no poder das alternativas e da liberdade. Assim, seja do jeito que você preferir.
Abraços!
bem,gostaria de flara a essa thahy ali em cima,como uma psicologa pensa desse jeito??acredito que com tal profissão deveria pensar no bem estar das pessoas,e nao no seu proprio em primeiro lugar,me adimira uma psicologa pensar em dinheiro e nao no bem estar de seus pacientes
Julia,
compreendo sua indignação, mas creio que ela estava apenas brincando e tem a mesma posição que você quanto a todos esses assuntos.
Abraços do Alessandro.
Talvez vocês nunca tenham ouvido falar da Unimontes, mas para minha região ela é vital. A Unimontes é a Universidade Estadual de Montes Claros e talvez seja a universidade que tem a maior relação candidato/vaga do país.Para vocês terem uma idéia a relação do curso de medicina é de 193 por vaga, São quase 200 pessoas disputando uma única vaga.Para completar o total desespero de quem quer entrar nessa universidade são disponíveis somente 7, eu disse SETE vagas para o curso de medicina pelo sistema universal.No caso do curso de medicina o vestibular é constituído de 56 questões fechadas de química, biologia, português, literatura brasileira, filosofia e sociologia e uma redação.Vocês acham sinceramente que esse vestibular avalia alguma coisa além da capacidade de decorar do aluno e a capacidade chutar a questão correta? Creio que não.
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