(Atualização: O leitor Márcio Antônio Chedid Rossi observa que em diversos lugares seria melhor trocar a palavra “justiça” pela expressão “poder judiciário. Feito esse aviso, deixo que os leitores façam a permuta de acordo como julgarem melhor)

Durante esta semana os meus amigos Paulo e Paula apresentaram-me a história de um casal – na verdade, uma família inteira – que teve uma de suas filhas tirada do lar.

Pela justiça.

Nunca sei se uso letra maiúscula ou minúscula. Acho que nesse caso é minúscula mesmo.

Para saber mais:

Estou preparando uma palestra e, por isso, estava assistindo às fabulosas palestras do TED em busca de inspiração para minha pobreza retórica.

Coincidentemente, deparei então a palestra de Barry Schwartz, que fala sobre algo que ele chama de Sabedoria Prática, expressão que pode muito bem ser traduzida simplesmente como Ética.

A Ética abrange, entre outras coisas, aquilo que fazemos porque julgamos ser o melhor. Que fazemos não porque há uma lei ou um ser mitológico que criou o mundo nos olhando e julgando: apenas porque julgamos correto.

Em uma semana em que tantas pessoas compraram computadores a R$ 9,90 e, ao saberem que não terão a mercadoria entregue, ainda se acham na razão, esse conceito é bastante pertinente.

A seguir, o vídeo da palestra e, depois, transcrevo o trecho que mais me interessa para o caso da menina arrancada de sua família.

Eis o trecho, que você ouve lá pelo meio:

É uma história sobre limonada. Um pai e seu filho de sete anos estavam assistindo um jogo dos Detroit Tigers no estádio. O filho pediu uma limonada ao pai e o pai foi ao quiosque comprá-la.

No quiosque eles só tinham a “Limonada Forte do Mike”. Que tem 5% de álcool. O pai, sendo um professor universitário, não tinha a menor idéia de que a “Limonada Forte do Mike” continha álcool. Portanto ele a comprou e trouxe ao filho.

O garoto estava tomando-a quando um guarda o viu. E chamou a polícia. Que chamou uma ambulância, que correu até o estádio. E carregou o garoto para o hospital. Na sala de emergência constatou-se que o garoto não tinha álcool no sangue.

Ufs, fez o pai. Que bom! E eles estavam prontos para liberar o garoto. Mas não tão rápido. O Serviço de Proteção ao Bem-Estar Infantil do Condado de Waine disse “não”. E a criança foi enviada a uma família que acolhe crianças com problemas por três dias. Neste ponto, será que a criança poderia ir para casa?

Bom, um juiz disse que sim, mas somente se o pai deixasse a casa e fosse para um hotel. Após duas semanas, fico contente de lhes contar, a família foi reunida. Mas os assistentes sociais e o pessoal da ambulância e o juiz, todos disseram a mesma coisa:

- Nós detestamos fazer estas coisas, mas precisamos seguir as regras

Eu vejo dois problemas nessa afirmação. Pessoas fazendo coisas que detestam e pessoas seguindo regras apenas porque precisam seguir regras. Mas tem mais. E é o trecho que quero destacar:

Como é que coisas deste tipo acontecem? O Scott Simon, que contou esta história, disse: “Regras podem ser idiotas, mas elas te poupam o trabalho de pensar“.

E, para ser correto, as regras são com frequência impostas porque pessoas foram pouco cuidadosas antes, e deixaram crianças voltarem a um lar onde eram mal-tratadas. Justo.

Quando as coisas vão mal, como frequentemente acontece, nós buscamos dois instrumentos para consertá-las.

Um dos instrumentos são regras. Regras melhores, mais regras. O segundo instrumento são incentivos. Incentivos melhores e em maior número. O que temos afinal? (…)

O que acontece quando nós nos voltamos mais para as regras é que regras e incentivos podem melhorar as coisas a curto prazo, mas acabam criando uma espiral descendente, que torna as coisas piores a longo prazo.

A habilidade ética acaba sendo desgastada pela confiança excessiva em regras, que nos privam da oportunidade de improvisar e aprender com nossas improvisações. E aí, a vontade moral é minada por um apelo incessante a incentivos que destroem a nossa vontade de fazer as coisas corretamente.

E sem intenção que isto ocorra, ao apelar para regras e incentivos, nós estamos nos engajando numa guerra contra a sabedoria.

Você percebe como, desse jeito, as pessoas deixam de tomar atitudes corretas simplesmente porque essas atitudes são corretas? Elas, então, só fazem as coisas corretas porque terão uma punição se não o fizerem ou um prêmio se fizerem.

Ralph Waldo Emerson dizia: “A única recompensa da virtude é a própria virtude.”

Excesso de regras e sua rigidez, bem como excesso de incentivos, nos priva da oportunidade de sermos virtuosos espontaneamente.

Percebe como a longo prazo isso é horrível? Com o tempo, não só ficamos desmotivados como também perdemos o tipo de inteligência necessário para que saibamos quando é possível e desejável agir fora das regras.

Para ser bom, é preciso saber pensar.

Procedimentos éticos florescem  a partir do indivíduo. Podemos falar de procedimentos que estão na expectativa de um grupo específico ou de uma época: mas isso é algo chamado moral. Como são muitos os indivíduos e uma a coletividade, foram criados textos, para que se conjugasse as diferentes éticas individuais: mas isso é algo chamado lei.

Nos diz Fernando Savater:

Toda lei escrita não é mais do que uma abreviatura, uma simplificação – freqüentemente imperfeita – do que seu semelhante pode esperar concretamente de você. Não do Estado ou de seus juízes. A vida é complexa e sutil demais, as pessoas são diferentes demais, freqüentemente íntimas demais, para que tudo caiba nos livros de jurisprudência. Assim como ninguém pode ser livre por você, ninguém poderá ser justo por você, se você não se der conta de que deve sê-lo para viver bem.

Por isso, a lei de certo modo é estreita, paradoxalmente, ao tentar abarcar tudo.

Embora necessária, pois eu e você somos de uma espécie um tanto bruta e incapaz de conjugar sozinha a minha e a sua ética com a ética de nossos pares, fazendo algo mais parecido com uma canção e menos parecido com uma gritaria.

Por exemplo, uma gritaria em um mercado onde alguém, por engano ou descuido, colocou seus produtos caros à venda por R$ 9,90 e porque muitas pessoas, por algum motivo, acham justo tirar partido desse erro.

Acho boa a imagem, pois não importa o quanto a lei, eventualmente, venha a proteger esse tipo de atitude ela jamais será moral. Será imoral apesar de legal.

Está na hora de os homens e mulheres estreitos da justiça, sobretudo os das varas de família, com seu suposto discernimento (visto que tem terceiro grau, não é?) não macularem o trabalho já feito e por fazer daqueles homens e mulheres, também da justiça, que estão mais preparados para a largueza e para a coragem da Ética.

Creio, por isso, que a volta de Sarah para sua casa não é uma questão da Lei.

É uma questão da Ética.

Posts relacionados