Os escritores não precisam mais reclamar das editoras; talvez nem precisem delas…

Os escritores até há alguns anos estavam presos ao livro. Não havia outra forma de chegar ao público leitor a não ser através deles, os livros.

Apesar de esse objeto ser querido e duradouro como formato – vindo desde a antigüidade, antes mesmo da imprensa -, traz de arrasto com ele algumas figuras que hoje são, aparentemente, bastante incômodas aos escritores: as editoras, as gráficas e as livrarias.

Cheguei, através de uma citação do blog Exato Acidente, de Toni Monti, ao texto de Ademir Assunção, sobre o mercado dos livros no Brasil, no site Cronópios.

Eis um trecho:

E escritores e poetas são tratados cada vez mais como trabalhadores altamente desqualificados. São cada vez menos respeitados. Na indústria do livro, todos ganham (do gráfico ao editor), menos o escritor, menos o poeta. Essa é que a verdade. Pergunte a um escritor e a um poeta quais são seus direitos. Nenhum.

Acredito que está na hora de os escritores e poetas deixarem de mimimi.

O primeiro passo é se livrar do fetiche que todos têm pelo objeto livro. O livro é ótimo como formato, todos nós o adoramos, mas ele, infelizmente, torna o artista – que deveria ter algum grau de liberdade – dependente das figuras dos editores, das gráficas e das livrarias.

Eu não sou exatamente um escritor – embora tenha um blog com meus escritos mais literários – e tenho certeza de que sou mais lido do que muitos poetas e autores com um ou dois livros publicados, muitas vezes à força das detestáveis leis de incentivo.

E detalhe: sou remunerado pelo que faço.

Ao deixar a fixação pelo objeto livro, os escritores obtém diversas vantagens:

  • se livram da dependência das editoras, livrarias e gráficas
  • não precisam se curvar a ninguém e podem escrever sobre o que querem. Se tiver um patrocinador que possivelmente não aprova o seu trabalho – normalmente temas como violência e sexo -, basta desenvolver um outro site ou blog paralelo.
  • chegam diretamente ao leitor, sem intermediários
  • o leitor que chega até o escritor procura exatamente o que ele escreveu: o poder de diversificação e segmentação da internet é insuperável
  • leva seus escritos a qualquer parte do planeta de forma barata

E muito mais:

Os meios para fazer isso estão disponíveis a todos nós gratuitamente:

O problema, a partir da independência de publicação, é a remuneração. O artista – que às vezes é conhecido pela dificuldade em lidar com assuntos práticos – terá que aprender cada vez mais a trabalhar sozinho com essa questão. Para começo de história, creio que não é mais o livro em si, o texto, que passará a ser vendido no futuro, mas coisas ligadas a ele, como espaço publicitário. De certo modo já é assim. É o meu caso, por exemplo.

Alguns dirão que o seu trabalho não serve para a internet. Eu direi que, se o artista precisa se expressar, vai usar dos meios necessários para isso, adequando-se para que consiga passar a mensagem que deseja passar. Artistas precisam, por definição, ser criativos, maleáveis, esguios.

Gosto muito do filme Os Contos Proibidos do Marquês de Sade. Não sei quanto daquilo corresponde à realidade. Mas, preso em um hospício, privado de papel e tinta, o escritor soluciona o problema: escreve com fezes e sangue nos lençóis e nas paredes de seu quarto.

Está na hora de os escritores – os de verdade – pararem de reclamar e partirem para a ação. Se estão sem papel e tinta, olhem em volta e encontrem a solução.

Postado em Mercado.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário