Os artigos sobre plágio, livros caros e fotocópia viraram debate sobre Ética

Os artigos sobre plágio, livros caros e fotocópia se transformaram em um debate interessante sobre Ética. Estou orgulhoso por ter os leitores que tenho, participando de forma ativa e inteligente daquilo que aqui publico.

Se você perdeu o que vem se dizendo recomendo:

Não deixe de ler os comentários.

Do mais recente artigo, destaco o da leitora Joana Canêdo frente à atitude do professor de Filosofia que dá a opção a seus alunos de usarem edições cuja tradução é plagiada e a resposta desse professor. Peço que leia as duas caso queira compreender a fundo o caso.

Primeiro o comentário de Joana:

Acredito que professores de filosofia não deveriam limitar suas lições ao conteúdo puro de seus cursos, mas ampliar a ideia de filosofia para as questões éticas, morais e cidadãs – alguns dos fundamentos do pensamento filosófico.

O que me deixa triste neste comentário da Borboleta é pensar na sociedade em que vivemos. Uma sociedade em que professores – essas pessoas importantíssimas para a formação de um povo, essas pessoas cuja missão é guiar indivíduos, cidadãos, para adquirirem mais cultura, mais conhecimento, mais informação – instigam seus alunos a exercerem práticas não apenas antiéticas mas também intelectualmente contraproducentes.

O problema empírico aqui a meu ver é que a cultura universal e brasileira está em risco de se perder no labirinto do esquecimento e das falsificações, que estudantes estão aprendendo que um certo plagiador chamado Pietro Nassetti, e não Maria Helena da Rocha Pereira (uma grande acadêmica portuguesa, que merece todo respeito pelo brilhante trabalho), traduziu A República de Platão; que portanto tradutores (esses profissionais responsáveis pela intermediação entre culturas) estão tendo seus trabalhos desvalorizados, desrespeitados, desconsiderados; que filósofos estão sendo formados com valores antiéticos; que empresas inescrupulosas estão se aproveitando disso tudo para encherem os bolsos; que, ainda que o argumento de que “essa tradução específica não foi deturpada e continua boa” fosse válido, o fato de comprar esse e mais aquele livro “bom” estimula, dá recursos para que a editora criminosa edite mais tantos e tantos plágios, ruins, com erros, uma bola de neve sem fim abalando-se contra a formação intelectual de estudantes e leitores.

Não existem livros baratos à disposição dos alunos? (Uma navegada pela Estante Virtual oferece algumas boas opções, grupos de leitura, empréstimos em biblioteca também…) Vamos lutar para que existam! Vamos ter sim uma opinião a respeito da revisão da Lei dos Direitos Autorais! Vamos participar do movimento Copiar Livro É Direito! (http://editoraderiva.multiply.com/journal/item/4/4). Vamos escrever petições contra esses falsificadores! Vamos escrever para a Maria Helena da Rocha Pereira e para a editora Calouste para pedir a autorização para reimprimir legalmente e de forma mais barata o texto! E não vamos ficar sentados, esperando, aceitando as coisas como elas são, compactuando com o crime, comprando dezenas de livros espúrios – sob o pretexto de “remediar entraves monetários” -, e acabar assim apenas fomentando a desaculturação das pessoas e o enriquecimento ilícito de péssimas editoras às custas do leitor brasileiro.

E, a seguir, o professor, que se identifica como Borboleta:

Mais uma vez, compreendo os argumentos apresentados e reconheço sua legitimidade.

Todavia, gostaria de salientar apenas uma nota quanto à argumentação da senhora Joana; quando a mesma diz:

“que estudantes estão aprendendo que um certo plagiador chamado Pietro Nassetti, e não Maria Helena da Rocha Pereira (uma grande acadêmica portuguesa, que merece todo respeito pelo brilhante trabalho), traduziu A República de Platão; que portanto tradutores (esses profissionais responsáveis pela intermediação entre culturas) estão tendo seus trabalhos desvalorizados, desrespeitados, desconsiderados;”

Nesse caso, se a autora refere-se às minhas aulas e, por conseguinte, à minha pessoa, tenho que apontar a FALÁCIA de sua posição.
Não vou retomar a discussão, nem a característica de constação prática e não argumentativa da posição, etc; apenas saliento que, particularmente, deixo os alunos bem cientes do caráter da tradução da Martin Claret, da autoria verdadeira da tradução e, inclusive, indico, na bibliografia básica, a leitura de comentários da professora Maria Helena da Rocha.

Assim sendo, deixo meu alunos bem cientes, inclusive, do caráter de plágio da edição. Quanto à opção de adquirir este ou aquele, prefiro nao interferir, até pelo fato de que, parto do pressuposto de que um aluno de ensino superior possui autonomia suficiente para tomar suas próprias decisões.

Quanto a mim, utilizo a tradução da Calouste, mas sei que nem todos “podem” fazer essa opção, por isso, sinceramente, não me cabe colocar entraves às decisões dos meus alunos.

Eu próprio tive uma experiência na minha adolescência. Naquela época eu estudava francês e havia passado para o nível intermediário, de maneira que me era necessário adquirir um novo livro para acompanhar as aulas. Entretanto, eu, que era um estudante duro, estava em época de vacas magras e não tinha a mínima condição de comprar o dito livro. Por isso, logo pensei, xerox. Porém, a escola havia feito um convênio com a editora francesa, funcionava assim: a editora cederia alguns benefícios aos professores desde que eles não permitissem o uso de xerox em sala de aula. Resultado, não consegui comprar o tal do livro, não pude usar o xerox e, depois de algumas aulas, decidi por abandonar o curso… o qual somente retornei alguns anos depois. O interessante é que quando retornei, já com o livro em mãos, vi alguns colegas com xerox em sala, dai fiquei sabendo que as professoras haviam desfeito o convênio, visto que, o impedimento ao uso do xerox havia comprometido o ensino aos alunos.

Mais uma vez, trata-se de um exemplo particular, empírico, e não de uma argumentação que possa ser universalizada. Todavia, a mim, parece suficiente para que, em minhas aulas, eu não venha a fazer o mesmo com meus alunos. Creio que minha função é conscientizá-los, deixá-los a par da situação, mas, nunca tomar a decisão por eles ou induzí-los a tal ou qual posição.

Se você fosse um professor de Filosofia (e talvez seja), o que faria?

Postado em Mercado.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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