Os 10 mandamentos da Terra dos Papagaios
09/02/2010Se não me engano, o primeiro livro que Júlia me emprestou desde que nos conhecemos foi Terra Papagalli, de José Roberto Torero e Marcus Aurelius Pimenta.
O livro é divertidíssimo e, ao mesmo tempo, profundo e esclarecedor daqueles primeiros momentos da invenção do Brasil.
Retrata bem aquelas primeiras causas que motivaram as atuais consequências através da vida cheia de lacunas do personagem histórico de Cosme Fernandes. Lacunas suficientes para caber a ficção de Torero e Pimenta.
Narrado em primeira pessoa, Fernandes conta a um conde suas aventuras e arrola os mandamentos para bem viver no Brasil, então Terra Papagalli ou Terra dos Papagaios.
Serve pra o país daquela época ou desta ou, a meu ver, para qualquer grupamento humano mais ou menos organizado ou mais ou menos desorganizado.
- É preciso saber dar presentes com generosidade e sem parcimônia, porque os gentios que lá vivem encantam-se com qualquer coisa, trocando sua amizade por um guizo e sua alma por umas contas.
- Quando aparecer alguma dificuldade, mesmo que seja de simples solução, é preciso fazer alarde, espetáculo e pompa, pois nesta terra mais vale o colorido do vidro que a virtude do remédio.
- As gentes da Terra dos Papagaios são muito crentes e de fácil convencimento. Por isso, têm em alta conta os feiticeiros, os falsos profetas e vai a coisa a tanto que não há patranheiro que lá não enriqueça e prospere. E assim é, senhor, que por serem tão crédulos aqueles gentios, pode-se-lhes mentir sem parcimônia nem medo de castigo.
- É aquela terra onde tudo está à venda e não há nada que não se possa comprar, seja água ou madeira, cocos ou macacos. Mas o que mais lá se vende são homens, que trocam-se por qualquer mercadoria e são comprados com as mais diversas moedas.
- Desde o primeiro, são os funcionários daquela terra um tanto madraços e preguiçosos, e, se na frente de seus superiores parecem retos, quando esses lhes dão as costas, revelam-se muito astutos e só nos atendem se lhes damos algo em troca. Portanto, senhor conde, se fordes para lá não se esqueça de ser generoso com eles, pois lá as portas não são abertas com chaves de ferro, mas com moedas de prata.
- Naquela terra de barganhas fazem muito sucesso e não há quem resista a um pequeno regalo. Por isso, é preciso dar sempre um afago aos que podem comprar, pois entre dois mercadores, naquela terra não se escolhe o mais honesto, mas o que oferece mais mimos.
- Naquele pedaço de mundo, senhor conde, não se deve confiar em ninguém, pois se no sábado nos juram eterna fidelidade, no domingo nos enfiam uma espada pela garganta. A verdade é que lá tudo se rege pela conveniência, e sendo preciso, troca-se de bandeira como as mulheres trocam de pano em dia de regra.
- Na terra que se chama dos Papagaios, cada um cuida de si e Deus que cuide de todos, pois pouco se faz por um irmão, nada por um primo e menos coisa nenhuma por um amigo, de modo que cada um só quer saber do seu nariz e, se alguém faz algo por outrem, é a troco de paga ou medo.
- Naquelas paragens, quando se alevantam alguns, o melhor modo de quietá-los é dar-lhes emprego ou título, porque os daquela terra muito prezam serem chamados de senhores e não há um que troque honradez por honraria.
- E o resumo de meu entendimento é que naquela terra de fomes tantas e lei tão pouca, quem não come é comido.





3 comentários
Um dos livros que li com maior prazer. Escrevi para o autor na época, dizendo que gostava mais do Terra do que do Chalaça. Ele me disse que achava que só nós dois pensávamos assim. Uma honra, em suma.
Que prazer essa possibilidade de dialogar com o autor e, ainda por cima, compartilhar os mesmos pensamentos, Caminhante.
Abraços do Ale.
esse livro é mt chato -.- fui obrigada a ler pra escola!
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