Esta é uma pergunta que, às vezes, me vem quando não estou pensando em nada.

O que é frequente.

Afinal, o que fazer com um membro amputado?

E imaginei se seria possível, afinal, fazer o sepultamento. Afinal, trata-se da parte de um corpo que, um dia, seguirá o mesmo fim.

Seja a terra, seja as cinzas, no caso de uma cremação.

Até cheguei a pensar em escrever uma crônica ou um conto sobre o tema, mas o autor Marcos de Vasconcellos, em seu Na Cova de Um Cão, adiantou-se.

O livro traz apenas três contos e o último trata justamente desse tema. Cito um trecho:

Para que espécie de Paraíso, Purgatório ou Inferno despacham a parte da alma que cabe aos membros amputados? A mão ladra irá repousar no mesmo silêncio e paz que a que concede e provê? A perna imóvel, improdutiva, gozará o mesmo da que marchou, plantou, colheu e combateu? E quando Zuquim fosse ao encontro da parte de si mesmo que partiu antes dele? Como se daria o milagre da reencarnação? Como estaria sua perna? Mais moça, mais magra, mais pálida, poupada pelo Sol manso do Além?

Minhas dúvidas, similares a essas, continuam. Acho que o primeiro passo, seria perguntar a algum dos médicos que ora nos leem.

Sei que a primeira cirurgia de meu avô – o enfermeiro, não o sapateiro – foi uma amputação. Desmaiou por efeito dos gases que usavam como anestésico e permeavam a sala, mas também pela brutalidade do procedimento.

O outro avô, o que foi sapateiro, a exemplo de seu pai, chegou a trabalhar como coveiro. Talvez tivesse uma resposta também.

Enfim, nada impede que eu escreva um texto sobre o tema. Mas, de certa forma, tenho amputado o texto que escreveria se não soubesse do conto de Marcos de Vasconcellos.

Talvez mais certo fosse dizer que morreu na casca, como os ovos chocos que não vingam.

Mas… onde enterrar um ovo que não vingou?

Não responda.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!