campainha de hotel

Deus salve os rios, as matas, as montanhas, os fiscais da receita federal, o samba de breque e o ovo pochê – mas sobretudo salve Deus as recepcionistas.

Deus salve as recepcionistas e suas meias desfiadas, as recepcionistas de rímel aplicado só na raiz dos cílios, as recepcionistas com sua rapidez invejável para mudar de tela quando alguém se aproxima. Louvemos a postura cervical desmazelada quando vêm chegando as seis horas da tarde, a risada explosiva ante a indiscrição da colega (reprimida com lábios mordidos e um soquinho na mesa), a entonação de tédio indisfarçado ao telefone quando alguma alma pobre lhe repete a mesma pergunta pela milionésima vez. Por favor, meu deusinho, salve as recepcionistas e as irmãs das recepcionistas.

Porque não há em toda a flora mundial e multiplanetária espécie tão bela quanto a mais ordinária das recepcionistas. Sim, mesmo aquela que nunca amou, mesmo aquela que não ergue os olhos para dizer “bom dia”, mesmo a recepcionista que neste momento espalha o segredo confiado pela melhor amiga traz consigo um charme intransponível, uma chama iridescente nas entranhas, um apelo com não-sei-quê suficiente para tornar tediosas quaisquer pétalas, corolas e sépalas denotativas.

Neste sábado, uma recepcionista cederá à insistência de sua companhia e experimentará gim-tônica pela primeira vez, odiando a bebida (isso é tão bonito!); amanhã, uma recepcionista se deitará, por caridade, com um ex-namorado contador (isso é belo, é emocionante); na segunda-feira, outra recepcionista matará pela terceira vez sua tia para não comparecer ao trabalho – e só de pensar nisso me dá uma vontade desgraçada de chorar.

Se é verdade que basta um deputado ter uma ideia para o Brasil piorar um pouquinho, não é necessário nada além do gesto mais banal (ou da simples presença imóvel) de uma recepcionista para que a poesia indizível reverbere no ambiente. Pesquisadores britânicos já afirmaram que nunca houve uma guerra cujas trincheiras contassem com recepcionistas, e mesmo o espírito mais soberbo se queda humílimo e aquiesce quando uma recepcionista lhe pede o número do RG.

Com isso tudo posto, desnecessário afirmar que amo as recepcionistas – mas sou cético quanto à utilidade de qualquer “hostess”.

photo credit: Merlijn Hoek via photopin cc

Sobre o autor: André Simões

André Simões, 29, jornalista, cronista, mestre em Estudos Literários pela UEL e "cliente VIP número 1 do Santoíche", conforme atestado em condecoração solene promovida pelo proprietário da lanchonete. Em 2010, publiquei meu primeiro livro de crônicas, "A Arte de Tomar um Café" (AtritoArt Editorial/Promic). Interessados em adquirir esta pérola da literatura brasileira podem entrar em contato pelo e-mail adfsimoes@gmail.com. Esquema Radiohead de transação comercial: pague o quanto quiser mais as despesas de postagem.