O velho e o baú das cartas de amor

Escutei esta história em uma peça nesta sexta-feira e descobri que ela faz parte do Livro dos Abraços, de Eduardo Galeano.

Considerando que é um livro que encontrei a esmo na internet – que busquei depois de ouvir uma história que ouvi na TV Cultura, contada por Carlos Daitschman -, este é o tipo de coincidência me faz pensar que, afinal, não existem coincidências.

Nos antigamentes, dom Verídico semeou casas e gentes em volta do botequim El Resorte, para que o botequim não se sentisse sozinho.

Este causo aconteceu, dizem por aí, no povoado por ele nascido. E dizem por aí que ali havia um tesouro, escondido na casa de um velhinho todo mequetrefi.

Uma vez por mês, o velhinho, que estava nas últimas, se levantava da cama e ia receber a pensão. Aproveitando a ausência, alguns ladrões, vindos de Montevidéu, invadiram a casa.

Os ladrões buscaram e buscaram o tesouro em cada canto. A única coisa que encontraram foi um baú de madeira, coberto de trapos, num canto do porão.

O tremendo cadeado que o defendia resistiu, invicto, ao ataque das gazuas. E assim, levaram o baú. Quando finalmente conseguiram abri-lo, já longe dali, descobriram que o baú estava cheio de cartas. Eram as cartas de amor que o velhinho tinha recebido ao longo de sua longa vida.

Os ladrões iam queimar as cartas. Discutiram. Finalmente, decidiram devolvê-las. Uma por uma. Uma por semana.

Desde então, ao meio-dia de cada segunda-feira, o velhinho se sentava no alto da colina. E lá esperava que aparecesse o carteiro no caminho.

Mal via o cavalo, gordo de alforjes, entre as árvores, o velhinho desandava a correr. O carteiro, que já sabia, trazia sua carta nas mãos.

E até São Pedro escutava as batidas daquele coração enlouquecido de alegria por receber palavras de mulher.

Postado em Hedonismos.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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