O talento traz felicidade?

O Pedro Mar, que conheci no Porto, em Portugal, fez uma pergunta a seus amigos do Facebook, dentre os quais me incluo.

De que serve o talento se não for para trazer felicidade?

E, como estou em contato constante com o mundo da arte, ainda que como mero apreciador, desde a adolescência  essa é uma pergunta que sempre me faço.

Desde que ouvi, talvez até de antes, os inocentes – mas nem tanto – versos de Vinicius de Moraes em A Um Passarinho:

Para que vieste
Na minha janela
Meter o nariz?
Se foi por um verso
Não sou mais poeta
Ando tão feliz!

Quer dizer que para ser poeta – substitua a palavra poeta por qualquer tipo de artista que preferir -, é preciso ser infeliz?

Tentei elaborar uma resposta ao amigo Pedro Mar – cujo nome sozinho já é uma poesia -, mas confesso que ainda não estou contente.

Ei-la:

De que serve o talento se ele não se voltar à felicidade?

Suponho que para legar à humanidade gente como Edgar Alan Poe, Van Gogh, Nietzsche e Billie Hollyday para ficar apenas em quatro exemplos de gênios que não poderiam ser considerados exatamente felizes e que nos trouxeram obras que não são “felizes” no sentido vulgar do termo.

No entanto, se o talento desses não serviu à própria felicidade – se observarmos suas biografias -, serviu à felicidade alheia certamente, a de seus apreciadores.

Talvez o que chamamos de talento, nessas e em outras pessoas, seja tão somente a capacidade de, ainda que momentaneamente, no instante longo ou curto da criação, superar as dificuldades da existência, sejam quais forem, indo além, expressando-as e compartilhando tal capacidade com os outros seres, de maneira que nos percebamos como parte de algo maior. Menos solitários, mais solidários e unidos.

Alguém mais esperto que eu disse certa vez que ostra contente não dá pérola. Ela precisa ter aquele incomodozinho do grão de areia que penetra a sua concha e sobre a qual lançará camadas e camadas de delicados e brilhantes sedimentos a fim de criar a joia.

Não digo que a pessoa precise ser infeliz, mas deve ao menos manter a capacidade de olhar o mundo com um saudável estranhamento, como a criança que observa a novidade com encanto e susto, a fim de que possa escolher transformá-lo em algo melhor ou aceitá-lo, contagiando seus iguais com o germe dessa vontade.

Para alguns de nós o incômodo é maior, vide os exemplos acima.

Para outros, é igualmente grande, mas eles conseguem não demonstrá-lo e, ainda assim, não prejudicar o caráter transformador e contagiante de suas obras.

Mas se olharmos assim, o talento serve sim para estar a serviço da felicidade, de alguma maneira, porém às vezes de maneira indireta e nem sempre para quem o possui.

Mas creio que o poeta Carlos Drummond de Andrade tem mais autoridade que eu sobre o tema.

Postado em Artes e design.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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