Muito interessante o livrinho de Bergson sobre o riso.
Ainda nas primeiras páginas quando apresenta o tema de maneira um tanto despretensiosa já banha a leitura com uma série de sacadas.
Por exemplo, eu nunca tinha parado para pensar sobre as circunstâncias que inspiram que o título de um drama ou de uma comédia seja este e não aquele.
Sem dúvida há vícios nos quais a alma se instala profundamente com tudo o que traz em si de pujança fecundante, carregando-os, vivificados, num círculo móvel de transfigurações. Esses são os vícios trágicos. Mas o vício que nos tornará cômicos é, ao contrário, aquele que nos é trazido de fora como uma moldura pronta na qual nos inseriremos. Ele nos impõe sua rigidez, em vez de tomar-nos a maleabilidade. Não o complicamos: é ele, ao contrário, que nos simplifica. Aí precisamente parece estar a diferença entre a comédia e o drama. Um drama, mesmo quanto retrata paixões ou vícios que têm nome, incorpora-os tão bem na personagem que esses nomes são esquecidos, que suas características gerais se apagam, e que já não pensamos neles, mas sim na pessoa que os absorve; por isso é que o título de um drama quase não pode deixar de ser um nome próprio. Ao contrário, muitas comédias têm o nome de um substantivo comum: O Avarento, O Jogador etc.
Por isso, não faria sentido O Avarento, de Moliére, levar o nome de seu pergonagem principal, Harpagon.
Nem Otelo, de Shakespeare, poderia se chamar O Ciumento.
É que o vício cômico pode unir-se às pessoas tão intimamente quanto se queira, mas nunca deixará de conservar existência independente e simples; continua sendo personagem central, invisível e presente, do qual as personagens de carne e osso ficam suspensas em cena.








