Se você quiser entender um pouco melhor sobre a questão do humor no Brasil, o documentário “O Riso dos Outros” é altamente recomendável. A internet, ao permitir que quase qualquer um possa fazer os seus vídeos e textos que rapidamente podem ser espalhados, contribuiu muito para o surgimento de muitas discussões sobre o que é humor e sobre quais seriam os seus limites. Entrevistando diversos comediantes e humoristas, como Rafinha Bastos, Danilo Gentili, Fábio Rabin e Fernando Caruso, cartunistas, como Laerte e André Dahmer, e outras pessoas, como Jean Wyllys e Lola Aronovich, em cerca de 50 minutos esse documentário busca explorar questões em torno do humor, principalmente do gênero stand-up, e sobre os seus limites entre o cômico e o ofensivo.

Conforme André Dahmer, “o ataque às minorias é uma regra do humor” e essa regra foi histórica e intensamente utilizada pelo humor brasileiro. E as piadas sobre determinados estereótipos e preconceitos sobre negros, homossexuais, mulheres, negros, anões, nordestinos, pobres e outros grupos sempre “funcionaram” – e isso muito antes da internet, entre os comediantes que ganharam fama através da tv ou do rádio. E o “funcionar” dessas piadas significa que através da ação da piada, quem a conta busca a risada como reação de quem a ouve. E nesse jogo de ação e reação que as piadas e consequentemente os preconceitos acabam sendo perpetuados; ao associar um negro a um macaco, por exemplo, em todos os seus shows, um comediante acaba contribuindo para a perpetuação dessa idéia – e, por outro lado, ele continua a contar essa piada em todos os shows por ver na platéia a reação por ele esperada, as risadas. Se eu começar a te contar uma piada com “havia um brasileiro e um português”, você logo saberá o português é “burro” e que a piada envolverá essa “burrice” dele, sem que eu precise te explicar isso, e, da mesma maneira, se eu começar a contar um piada com “um negro estava” ou “havia um nordestino” ou “um gay”, você logo terá determinada expectativa sobre o rumo da piada ou sobre alguma característica de inferioridade ou ridicularização de quem eu citar na piada. E, dessa maneira, são reforçados conceitos racistas, sexistas, classistas, etc. Danilo Gentili diz que “toda piada tem um alvo” e o ponto interessante é questionar os motivos para que os alvos sejam geralmente essas minorias. Assim, conforme o Laerte afirma, o humor, ao partir desses preconceitos e estereótipos, reforça determinadas visões tradicionais e conservadoras. O próprio Danilo Gentili é um exemplo disso e poucos humoristas não têm o seu trabalho nessa direção. 

 

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A “piada” citada por Jean Wyllys no filme, que diz que “branco correndo é atleta, preto correndo é ladrão” é tudo, menos nova. Outra piada antiga e que tenho certeza quase todos nós conhecíamos antes do Rafinha Bastos contá-la, e por isso causar grande repercussão, é a que diz que uma mulher feia que tivesse sido estuprada deveria agradecer ao estuprador. Por mais infeliz que seja a piada ou outras no mesmo nível ou com temas desse tipo, é evidente que ela não incentiva o estupro, que o Rafinha Bastos não é a favor do estupro e que dificilmente algum homem tenha decidido, após ouvir a piada, estuprar alguma mulher pensando “para ela isso é uma oportunidade, não um crime”. Mas isso não o isenta. E esse ponto é importante para a questão dos limites que teria o humor justamente por levantar também a frase “é só uma piada”. Quais os efeitos que pode causar algo que “é só uma piada”? Até que ponto deve ir o humorista? Qual é a função social do humor ao perpetuar preconceitos machistas, racistas e homofóbicos, quando se sabe que, no Brasil, quase 6 mil mulheres são assassinadas por ano por motivos de conflito de gênero, negros representam 70% das vítimas de assassinatos e que temos quase um assassinato homofóbico por diaConfira o documentário na íntegra:

Sobre o autor: Raul Maciel

Estudo Ciências Econômicas e não descobri qual é o meu grande talento (sim, ainda espero ter algum). Cheiro livros, jogo futebol e gosto do ponto e vírgula; ainda que não saiba utilizá-lo. Andando sozinho me policio para não pisar nas linhas da calçada enquanto penso em alguma coisa sobre coisa nenhuma.