fast food storm troopers

O mundo está ficando obeso porque, nas últimas décadas, as calorias foram ficando mais e mais baratas enquanto as qualidades nutricionais dos alimentos foram ficando mais e mais caras.

Antigamente, produzir calorias era muito difícil e caro. Hoje, o que temos são diversas variedades xarope de milho de alta frutose – entre outras coisas prejudiciais -, o que é muito barato, viciante e vantajoso do ponto de vista comercial e industrial.

A tese de um dos livros que estou lendo, A Dieta da Informação, é de que a informação que consumimos, do ponto de vista do que absorvemos intelectualmente, é tão nociva quanto o alimento que comemos, quando não estamos muito preocupados com qualidade.

De repente, os produtores de conteúdo descobriram que é muito barato produzir conteúdo, usando métodos em tempo real para descobrir o que você – sim, você – quer ler, utilizando inclusive técnicas para aparecer primeiro nos resultados das buscas e outros truques que, dependendo das intenções, podem ser considerados sujos ou algo um pouco além disso na escala de sujidade.

Quando ele usa o termo “fazenda de conteúdo” – coisas que o Google tenta, ainda que sem sucesso banir de seus resultados -, você lembrará de diversos blogs que não citarei aqui nem linkarei para não lhes dar ainda mais prestígio.

Recentemente, soube que um desses, fatura R$ 700 mil por mês. E eu aqui, lutando para fazer um rendimento razoável deste blog que – não só segundo eu mesmo, que sou supeito, mas também segundo outras pessoas em que confio – tem certa qualidade.

O autor, Clay A. Johnson, reproduz o relato de um dos empregados da AOL, Oliver Miller, de como é sua rotina de trabalho, um sujeito que ganha US$ 15 por conteúdo escrito. Acompanhe e imagine a qualidade do que é produzido:

Meu tempo de retorno “ideal” para produzir uma coluna iniciou em 35 minutos, depois foi gradualmente reduzido para meia hora e, finalmente, para 25 minutos. Vinte e cinco minutos para pesquisar e escrever sobre um programa que eu nunca tinha visto – e esse período de 25 minutos incluía tempo para formatar o artigo no sistema de bloggin da AOL e escolher e editar uma foto para o artigo. Erros eram o resultado inevitável. Mas erros não importavam; ou pelo menos, não importavam para meus chefes.

Eu tinha ataques de pânico; todos tínhamos. Meus colegas escritores caíam no sono e depois acordavam suando frio. Eu trabalhava no turno da noite – das 23h às 7h ou 8h ou mais -, mas até os escravos da AO que escreviam durante o dia relatariam a mesma experiência universal. Finalmente caindo no sono depois do trabalho, eles acordavam com um sobressalto – certos de que haviam esquecido algo -, certos de que não haviam produzido o número estipulado de artigos a cada 30 minutos Uma noite, acordei de um sono profundo, pulei em meu computador e comecei instantaneamente a digitar um artigo sobre David Letterman. Continuei por dez minutos, até que percebi que tudo não passara de um sonho. Não havia  nenhum artigo para escrever, eu estava simplesmente digitando as mesmas frases sem sentido que sempre utilizávamos: ‘Lady Gaga sem calças no programa de David Letterman’, ou algo do tipo.

Houve também a semana em que dormi apenas cerca de seis horas ao longo de cinco dias – uma semana em que acabei tão exausto que comecei a sofrer de alucinações auditivas, constantemente ouvindo o toque distante de um telefone que não existia, ou uma porta imaginária batendo ao fundo. (fonte)

Dizem que salsichas e notícias é melhor não saber como são feitas.

Quando você ler uma como esta, saberá em que tipo de ambiente e com que tipo de motivação ela foi produzida.

photo credit: Stéfan cc

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!