O que faz o aprendizado morar na gente?

Aquilo que se aprende de fato, mais do que memorizado e lembrado, está incorporado, como se fizesse parte da carne.

Algumas das primeiras palavras que li foram ao lado de meu pai na legenda dos filmes estrangeiros a que ele me levava.

Aprendi porque desejava entender. O aprendizado está ligado ao desejo e à afetividade. E as primeiras palavras que aprendi a ler, embora não lembre quais sejam, é certo que não as esqueci.

O Sincero, do blog Oheremita, abriu um debate que considero importante com um artigo sobre métodos que ele considera úteis para melhorar o ensino.

E ele começa seu texto tocando em um ponto interessante e que, como você pode ter notado acima, me é caro:

Todos nós temos lembranças dos filmes que já assistimos, mesmo aqueles dos quais não apreciávamos o tema, entretanto não conseguimos lembrar das aulas que tivemos na escola, mesmo quando o tema era de nosso agrado. Imagine se a escola tornasse o ato de estudar tão agradável quanto o de assistir a um filme.

Eu concordo apenas em parte com a afirmativa.

Já assisti a – sem exagero – centenas de filmes. Lembro detalhadamente de uns vinte, podendo repetir algumas falas e dizer talvez o momento em que entra a trilha sonora.

Lembro vagamente de uns 100.

Saberia detalhes de algumas cenas de uns outros 100.

Do que se trata, uns 200 – porque são parecidos entre uns e outros.

E, na medida em que se avança, as lembranças vão ficando menos e menos vívidas.

Por outro lado, eu sempre gostei de matemática e sempre fui bom nessa matéria. Hoje, há quinze anos desde que apliquei minha última fórmula, durante um vestibular, pouco resta do que eu sabia sobre isso.

Os tais 50 filmes ficaram porque vieram ao encontro do que eu fui em algum momento da minha vida – e sou – e a matemática se foi porque deixei de ser algo que ela preenchia e não preenche mais, deixou não só de me ser útil, mas acima de tudo de me emocionar, de me divertir, de me emocionar. De ter significado afetivo.

Assim, se você está vivo e tem qualidade de vida sem algum dos conhecimentos que esqueceu do seu período escolar, esteja certo, você não precisa deles neste instante e, quase com certeza, foi uma perda de tempo ter de aprendê-los. Passar no vestibular nunca foi ou será uma boa razão.

O Sincero propõe – baseado nas suas observações cinematográficas – que a tecnologia fosse usada para aprimorar o ensino, uma vez que, no cinema, ela, a serviço dos sentidos, coloca o público dentro da ação.

Porém, acredito que nenhuma tecnologia do mundo será suficiente para me colocar dentro da ação se eu não tiver o desejo – mais uma vez essa palavra – de estar dentro da ação. Sem isso, sequer dentro da vida real alguém se coloca, alienando-se.

No ensino, quem desempenha esse papel de despertar o desejo ou, ainda melhor, entender o desejo dos alunos é o professor.

Dê uma sala holográfica a um mau professor e você terá mau ensino. Dê um quadro negro e um giz a um bom professor e você terá bom ensino.

As escolas não são chatas porque são desinteressantes em si, nos seus aparatos, mas porque poucas vezes têm conteúdo realmente interessante.

É preciso ter o que colocar dentro da sala de hologramas e é preciso alguém que saiba como colocar.

Recomendo a leitura da entrevista de Rubem Alves à Revista Época, Aprender Para Quê?.

Veja também:

  • A escola gerando traumas, no Bardo – assista ao vídeo: a parte em que o menino fala sobre ter aprendido a ler e, depois, ter aprendido a andar de bicicleta para poder ler coisas mais distantes diz tudo sobre ensino, desejo e afetividade.
  • Em resposta ao Oheremita, no Kurt Kraut
Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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