(este texto está sendo republicado; portanto, não repare na falta de atualidade de alguns fatos citados, apenas faça a gentileza de substituí-los mentalmente para os fatos irrelevantes debatidos incansavelmente durante esta semana; dá na mesma)

Jamil Snege é um escritor que aqueles não suficientemente ambientados ao meio literário ou ao meio político talvez desconheçam.

Autor de Como Eu Se Fiz por Si Mesmo e Viver é Prejudicial à Saúde, morreu em 2003 e possivelmente seja mais conhecido por seu talento no marketing político, embora seus maiores méritos fossem os literários.

Ele foi um dos principais responsáveis de famosas campanhas políticas no estado, mas os livros de Snege mostram que, muitas vezes, o talento individual supera em muito a sombra do talento exibido institucionalmente.

Ontem encontrei alguns trechos de uma entrevista dada por ele em um improvável texto – provável porque vi o papelucho onde o trecho estava escrito – redigido para uma missa em sua memória. A homilia, preparada pelo padre Paulo Botas, citava o seguinte, dito originalmente por Snege em entrevista publicada no número zero da literária Et Cetera:

Eu tenho uma dificuldade intrínseca de existir no mundo (…) dada a fragmentação com que vivemos nossas vidas. Somos todos pequenos atores de pequenas aventuras absolutamente irrelevantes. Já não existem grandes revoluções, grandes aventureiros, grandes estadistas. Nossa vida se inscreve hoje nesse gigantesco bric-à-brac do cotidiano. A grande autobiografia, hoje, seria aquela que desse conta da crescente mediocrização a que estamos sujeitos, seja através do embotamento do espírito crítico, da razão ou dos próprios sentimentos.

Imediatamente pensei em uma autobiografia como a de Bruna Surfistinha, mas ela é só o exemplo mais marcante dentre tantas autobiografias irrelevantes que se reproduzem por aí como amebas.

Também lembrei de arremedos de estadistas como Hugo Chávez, a emular o reizinho encarnado por Jô Soares na década de 80 (na época em que Jô Soares fazia algo que sabia fazer), a tentar censurar a imprensa de países vizinhos como o Brasil. Porém, Chávez também é daquele tipo que vem renascendo em profusão abaixo e um pouco acima da Linha do Equador, com discursos que parecem o eco de uma comédia sem graça cujas falas trazem a palavra povo em demasia e com a entonação errada. A entonação de um bobo que quer ser soberano. O tipo de modulação que, pior, ainda consegue enganar número suficiente de pessoas. Os ouvidos do mundo parecem mesmo embotados.

E, infelizmente, recordei também a já esquecida e intensa movimentação que houve em torno do caso Cicarelli, quando falava-se em boicotes tão irrelevantes como o que seria feito à MTV – que emprega a modelo que supostamente “censurou” o YouTube -, quando há coisas mais importantes a serem boicotadas e que talvez há mais tempo precisem de um boicote desse nível. Mas passam batidas.

As palavras também me lembraram que o mundo está repleto de aventureiros de livro dos recordes, competindo para ver quem cospe mais longe. A questão é que o cuspe não nos leva a lugar nenhum.

É isso o que Snege está dizendo.

Mas, na citação seguinte, vê-se que ele, mesmo ele – aparentemente um pessimista -, tem esperança:

Expor as próprias vísceras requer antes de tudo uma grande dose de coragem. Fazê-lo com uma certa ironia, com certo humor, sem, contudo, elidir do ser humano sua dimensão sagrada, exige uma imensa dose de amor pela humanidade.

Aqui e ali, deve haver uma autobiografia assim. Um parágrafo que seja. Uma linha.

Uma palavra que sintetize uma pessoa, todas as outras suas contemporâneas, todas as que a precederam e todas as demais que a sucederão.

Esta palavra é aguardada.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!