O que diria Stephen King sobre blogs?

Estou lendo a primeira edição de uma finíssima revista literária produzida aqui em Curitiba, a Arte e Letra: Estórias, da editora Arte e Letra.

O volume – com econômico e requintado projeto e qualidade gráfica – traz como primeiro texto uma curta crônica de Stephen King em que ele realata sua experiência como editor da Best American Short Stories 2007.

Ainda que empolgado com a incumbência de escolher os melhores contos daquele ano nos Estados Unidos – empolgação que eu só conseguiria transmitir se reproduzisse integralmente a crônica -, ele nota uma certa crise na narrativa curta.

Eis o que ele diz (e devo lembrar que trata-se de um dos maiores vendedores de livros de todos os tempos quem diz):

O que acontece com um escritor ou escritora quando ele ou ela percebe que o seu público encolhe quase diariamente? Bem, se o escritor vale o pão que come, ele ou ela continua escrevendo apesar de tudo, porque foi isso que Deus ou a genética decretou, ou por pura teimosia, ou talvez porque é uma diversão e tanto escrever histórias. Talvez seja uma combinação disso tudo. E isso é bom.

Este trecho é só uma introdução para o ponto a que quero chegar:

O que não é tão bom assim é que escritores – até mesmo os que alegam fazer pouco caso da reputação intocável de Shakespeare – escrevem para qualquer que seja o público restante. E, na grande maioria dos casos esse público consiste de outros escritores e de aspirantes a escritor, que lêem revistas literárias (incluindo a New Yorker, obviamente, o santo graal do jovem escritor de ficção) não para se divertirem, mas para terem uma idéia do que está vendendo. E esse tipo de leitura não é leitura de verdade, do tipo que você simplesmente não consegue esperar para saber o que acontece a seguir (pense em Juventude, de Joseph Conrad, ou Big Loira, de Dorothy Parker). É um tipo de leitura que mais parece uma sondagem. Existe algo de repugnante nisso.

É sobre contos, mas poderia ser sobre posts. É sobre escritores – em sua antiga acepção -, mas poderia ser sobre blogueiros (a nova acepção?). Troque as palavras certas pelas outras palavras certas (possivelmente, o termo hype entra em algum lugar aí) e você entenderá onde quero chegar.

Estamos aqui falando da diferença entre “o valer o pão que se come” – e é muito nobre valer o pão que se come – e o “algo de repugnante nisso”.

Recomendo também a leitura da nova série de Os Malvados que, embora enverede por outros temas relativos a blogs, também é de interesse:

Os blogs ainda são crianças. Alguns dizem que eles já morreram. Eu acho que a questão é saber se eles passarão da adolescência e, mais, se chegarão a ser adultos decentes.

Postado em Escrita.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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