O que Borges acharia do mundo sem bibliotecas?

Trecho do livro “A biblioteca de Babel” (original em Espanhol em itálico)

 “ Também sabemos de outra superstição daquele tempo: a do homem do livro. Em algum anaquel daquele hexágono (raciocinaram os homens) é possível que exista um livro que seja a cifra e o compendio perfeito de todos os outros: algum bibliotecário ha percorrido ele e virou alguma coisa como um deus. Na linguagem desta zona persistem vestígios do culto a esse funcionário remoto. Muitos peregrinaram em busca dele. Durante um século se cansaram buscando os mais diversos rumos. Como localizar o venerado hexágono secreto que o hospedava? Alguém propôs um método regressivo: para localizar o livro A, consultar previamente o livro B que indique o lugar de A; para localizar o livro B, consultar previamente um livro C, e assim até o infinito. Em aventuras destas tenho prodigado e consumido meus anos. Acho que em algum anaquel do universo há um livro total; rogo aos deuses ignorados que um homem – somente um, nem que seja , faz milhares de anos! – o tenha examinado e lido. Se a honra e a sabedoria não são pra mim, que sejam para outros. Que o céu exista, nem que meu lugar seja o inferno. Que eu seja afrontado e morto, mais que em um instante, num ser, tua enorme biblioteca se justifique.”

“También sabemos de otra superstición de aquel tiempo: la del Hombre del Libro. En algún anaquel de algún hexágono (razonaron los hombres) debe existir un libro que sea la cifra y el compendio perfecto de todos los demás: algún bibliotecario lo ha recorrido y es análogo a un dios. En el lenguaje de esta zona persisten aún vestigios del culto de ese funcionario remoto. Muchos peregrinaron en busca de Él. Durante un siglo fatigaron en vano los más diversos rumbos. ¿Cómo localizar el veneradohexágono secreto que lo hospedaba? Alguien propuso un método regresivo: Para localizar el libro A, consultar previamente un libro B que indique el sitio de A; para localizar el libro B, consultar previamente un libro C, y así hasta lo infinito… En aventuras de ésas, he prodigado y consumido mis años. No me parece inverosímil que en algún anaquel del universo haya un libro total; ruego a los dioses ignorados que un hombre – ¡uno solo, aunque sea, hace miles de años! – lo haya examinado y leído.   Si el honor y la sabiduría y la felicidad no son para mí, que sean para otros. Que el cielo exista, aunque mi lugar sea el infierno. Que yo sea ultrajado y aniquilado, pero que en un instante, en un ser, Tu enorme Biblioteca se justifique.”

Pra Borges, toda e qualquer informação do universo está nos livros, pois na biblioteca de Babel, aquela biblioteca ideal que ele descreve neste conto, todas as letras podem ser combinadas, para darem um número enorme de palavras, todas as palavras podem serem combinadas, para dar um numero maior ainda de frases. E cada uma destas palavras e frases justifica a edição de um livro, temos assim, uma biblioteca universal, onde todas as combinações estão escritas, o universo inteiro está nas suas páginas. Então alguém que procure uma informação sobre qualquer assunto deve conhecer o caminho para isto, sensação semelhante a que eu tive ao entrar pela primeira vez numa biblioteca para responder um trabalho escolar. Cadê o Bibliotecário que tem todas as respostas, que conhece os caminhos? Cadê o livro que tem o segredo do universo?

Voltaire, Diderot e outros organizaram a Encyclopédie, que era limitada pelo forma de organizar o conhecimento, e pela limitação no espaço, era impossível colocar no papel numa obra só todo o conhecimento, assim como não havia espaço para declarar a fonte. O leitor devia aceitar o que o editor colocou na obra e a leitura se extinguia no próprio ato, no máximo podíamos enfrentar a leitura de alguma obra comentada, mais o deserto estava na nossa caminhada, (cadê o Homem do livro?).

Já nesta época, as bibliotecas enfrentavam problemas para guardar seus livros, dado o enorme volume produzido e a ampliação do campo de conhecimento das ciências, como saber onde esta cada resposta? Foi criada uma ciência : a biblioteconomia, que pretendia por meio de código e número classificar cada livro, ficando estes na dependência de conseguir a informação certa tal qual Borges a descreve: busco num livro A para achar o B.

Borges foi bibliotecário, gastou sua vida nestes afazeres, e sonhava com achar o homem do livro, ou o livro total. Na realidade ele sonhava a biblioteca funcionando tal qual nosso cérebro, com ligações sinápticas para cada novo pensamento, que geravam hiperlinks, levando ao salto quântico que dava a resposta para cada sacada.

Hiperlinks? para ai, em 1944 Borges falava de hiperlinks? Não, ele não os nomeava, mais os desejava com toda a alma, e era capaz de produzi-los! Sábio como era, conhecia suas limitações e sonhava então com saber que alguma outra pessoa pode uma vez na historia percorrer todos estes caminhos, o que teria justificado a existência da biblioteca.

Já morto Borges, numa sala da Universidade de Stanford, na década de 90, dois estudantes se encontraram com inquietudes que aparentemente não eram compatíveis: um deles preocupado a coletar dados por meios computacionais (ou seja, mais uma vez: fazer um catálogo de toda a informação) , o outro preocupado com a relevância dos trabalhos académicos, pensando que quantas mais indicações tivesse uma obra, mais importante ela é (ou seja: achar o homem do livro, o bibliotecário que se iguala a Deus).

O resto todos nós conhecemos, é nosso dia a dia.

Nossos filhos pesquisam de forma diferente a nossa, eles enfrentam todas as bibliotecas do mundo, mais não manuseiam nem conseguem admirar edições primorosas ou rústicas. Mal conseguem buscar no índice de um livro, que dirá numa biblioteca, mais eles tem a ajuda do homem do livro!. Falta para eles a consciência crítica, não tem como checar a qualidade das informações.

A biblioteca de Babel imaginada por Borges existe, sim, mais estou preocupado.

No centenário do natalício de Borges, o Google o homenageou com um Doodle muito criativo, o link para o vídeo é:

Não precisam explicar que ele foi o visionário…..

Reflexões:

Philip Roth em entrevista a revista ÉPOCA.

Quem vai conseguir ler um livro inteiro meu naquele tablet ? É mais um totem do culto à tecnologia.

Resposta: Acredito que Jorge Luis Borges, adoraria saber que o homem do livro existe hoje, que a biblioteca de Babel que imaginou foi superada pela realidade, mais nuca teria permitido que alguém lesse para ele numa tela de plástico, depois de saber o resultado entregue pelo homem do livro, teria colocado seu casaco, cachecol e bastão e da mão de Maria Kodama teria ido numa livraria em busca do livro total, e tendo-o achado sentido que a biblioteca triunfou.

 

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Sobre o autor

Alejandro Rubio

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