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O que aconteceu com meu amigo Paulo

12 de maio de 2007 | Publicado na Categoria Livros e afins | 18 Comentários »

Paulo, meu amigo,

pergunta-me o que aconteceu com você.

É uma pergunta difícil. É complexo medir qualquer febre se a palma da mão de quem o faz é também, de certo modo, febril.

Porém, se pergunta para mim, julga-me subitamente com o dom do oráculo, aquele que responde às perguntas e orienta destinos. Mas sou um mero sujeito, homem, nascido em Laranjeiras do Sul, onde conheci o barro vermelho que até os dois anos de idade fez parte da cor da minha pele e até hoje faz parte da cor da minha alma.

Em definitivo, não sou digno nem capaz de responder completamente sua questão. Das poucas coisas que me enobrecem, uma é a mulher que amo e a outra a sua amizade. Se isso basta, tentarei aceitar e cumprir o pedido.

Sei que em certos dias e em certas horas, entre o sol se pôr e as cobertas se desdobrarem, um homem, qualquer homem, pode se sentir cansado. Definitiva, absoluta e modestamente cansado.

Não consigo imaginar um guerreiro que, depois da batalha, não solte um suspiro de alívio por ela ter terminado. Não por ele permanecer vivo e inteiro. Mesmo ferido, na morte, suspiraria. Suspira simplesmente pelo fim transitório de uma luta. Apenas isso.

Não é de duvidar que ele deseje nesse instante que não haja mais batalhas. Sabedor, no entanto, de que elas são inevitáveis. Afinal, um guerreiro se faz com guerras. Se desfaz também.

Sempre que lembro de você, meu amigo, desde que sua atitude em relação aos livros e tudo mudou, penso no poema Os Ombros Suportam o Mundo, de Drummond. É uma poesia que fala de resignação. E existem dois tipos de resignação.

A fraca e a forte. Nesse poema leio sobre a resignação forte.

A fraca é a dos que desistiram. A forte a dos que aceitam. Os que desistiram se deixam esmagar. Os que aceitam abraçam a vida e a carregam sobre as costas se preciso. Diz Drummond no poema: “teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.”

Não existe nada mais pesado que a mão da criança que fomos e que indaga sobre aquilo que ela não poderá mais ser, pois de infinitos caminhos só se pode escolher um.

Diga a ela que um dia, se evoluirmos, chegaremos a ter a consistência das árvores, não pelo verde que se vê do alto nas florestas, mas pela madeira, pelo xiloma, pela celulose resistente, maleável e flutuante, por sua durabilidade e pela voz silenciosa que elas enclausuram na tensão das fibras.

Fibras são para poucos, mas acho que já temos algumas.

Porém, começo a falar do que poderemos ser. E você perguntou o que aconteceu com você. Falo de futuro e o objetivo é entender algum evento passado. Desvio-me portanto. Não tenho o dom da objetividade, como vê.

As pessoas têm medo, você disse. E o medo, de fato, quando elas se deixam dirigir exclusivamente por ele – por não conhecerem emoções mais nobres -, é algo destrutivo.

Parece piegas dizer que o amor, por outro lado, constrói. Mas é a mais pura verdade. Nunca ouvi falar de um casal que recém encontrou-se separando suas coisas. Eles não têm opção, no início, senão uni-las, por poucas que sejam, como tijolos. E, só então, por infelicidade e por conta do medo – um dos muitos aspectos do medo – tornarão a separá-las.

Há, porém, quem descubra a diferença entre construir e destruir. Então opta por construir. E se resigna em continuar construindo, não se importando com quão destrutivos os outros possam vir a ser.

As flechas vêm e deixa-se que passem. Até pela carne. Não adianta tentar bloqueá-las, pois outras virão. Continua-se a construir embora algumas coisas já tenham sido destruídas. No final, vê-se o que sobrou.

E acredite: sempre sobra muita coisa. Haja flecha para destruir completamente aquele que está resignado a viver sem restrições.

Ignorância e medo, um alimenta o outro. Por todos os lados estão esses dois elementos a se procriar. Mas não vejo medo em você e ao meu redor e em aqueles que de mim se acercam desonheço o medo. Vejo cabeças erguidas, vejo capacidade, vejo coragem. Simples assim.

Olho novamente para aquele guerreiro de que falei no início. Ele suspira de cansaço e alívio por mais uma batalha ter terminado. Cuida de um ou outro ferimento que tenha sofrido e aceita seu destino, que é seu destino não por lhe ter sido imposto por algum deus, mas simplesmente porque, se quisesse, poderia tê-lo rejeitado. Não é a espada que o faz um guerreiro, mas sua vontade. Pode ser assim, portanto, aquilo que bem entender.

Porém, novamente me desvio.

Acho que desconheço o que aconteceu com você, meu amigo Paulo, mas espero que abrace e carregue a vida sempre com a alegria sutil que lhe considero característica.

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18 Comentários para “O que aconteceu com meu amigo Paulo”

  1. Paulo - 13 5 2007 às 11:05

    Caro, li ontem a sua resposta. Preciso dizer que me emocionei? É bom saber que tenho um irmão como vcoê.

    Você deu à minha condição atual um nome apropriado: resignação forte. Acho que é isso mesmo. E a vida segue.

    Vou ler e reler e quem sabe decorar este poema do Drummond.

    Acho que, o que quer que tenha acontecido comigo, foi o melhor.

    Abs imenso,

    Paulo.

  2. Alessandro Martins - 13 5 2007 às 11:51

    A honra é minha. Abraços, Paulo!

  3. Mário - 13 5 2007 às 15:31

    Alê, perdoa a cruel franqueza, mas este é o texto mais lindo e verdadeiro que já li aqui no seu blog. Não que os outros não sejam excelente, mas este post transborda emoção e penetra a alma. Me sinto mais iluminado depois de ter lido este texto sublime. Parabéns, meu amigo!

  4. Lucas Castro - 13 5 2007 às 16:12

    Belo texto. Adorei mesmo!

    Gosto quando fala de um guerreiro, porque conheço muitos e, na maior parte do tempo, sinto-me como um. A honra da espada e a vontade inquebrável – muitas vezes ambos quebram: a espada e a vontade. A honra tende a manter-se pura e limpa – algumas vezes, porém, também se quebra.

    O que resta então?

    quando eu crescer, quero escrever bem como o Alessandro ;P

    abração

  5. _Maga - 13 5 2007 às 18:02

    Antes de tudo, Drummond.

    Este poema encontri há uns 4 anos em uma época muito difícil para mim e minhas amigas. Pois bem, estudei-o com a intensitade que ele pede, e com a intensidade que a minha vida pedia naquele instante. Um tempo depois, em um momento de desabafo, declamei-o para algumas amigas. Já conhecia o efeito que um poema bem declamado poderia provocar. Mas não esperava que ele fosse capaz de tocar tão fundo. Um choro dolorido, inconsolável, foi o que vi… o que senti.

    Só uma história, porque acredito que a citação deste poema não pode passar em branco.

    A pergunta do Paulo… esse cansaço talvez seja um efeito da falta de resultado… acredito que todos nós, brasileiros, sentimos isso. Nos indignamos, esbravejamos, buscamos alternativas… somos brasileiros, afinal, temos raça, dizem. Mas não há raça que agüente uma situação surreal (como tu mesmo descreveste com maestria) como essa. Chega um momento em que não vociferamos mais, pois sintimos (eu sinto, pelo menos) que vociferar só atinge a uma pessoa: quem vocifera. Lógico que isto não é uma verdade definitiva, mas é o que sentimos quando o mundo fica inalcançavel e as coisas parecem acontecer totalmente alheias a nossa vontade e, principalmente, independentes do que fazemos. Com isso, primeiro nos tornamos ainda mais ferozes! Como assim o que eu faço não surte efeito? E nos empenhamos mais e mais, até que… até que cansamos. De uma hora para outra, deixa de fazer sentido. Nos sentimos vazios, demos o nosso melhor e em troca nada. Em psicologia a gente chama isso de extinção. Mas eu estou falando de mim, Paulo.

    Sinto isso:
    Se um dia o slogan era: “Brasileiro, profissão: esperança”, hoje ficaria: “Brasileiro, profissão: indiferença”.

    Vamos encontrando outras alternativas… vamos mudando a forma de agir com o mundo. Certa vez li que aos 20 queremos mudar o mundo. Aos 30 o pais. Aos 50 a cidade. Aos 60 se conseguirmos mudar nós mesmos já ficamos satisfeitos. Talvez seria mais racional, começar mudando nossas próprias ações e ir aumentando a amplitude com o tempo.

    É o que tenho tentado hoje.

    Um abraço para cada interlocutor… rs

  6. Cristina L. - 14 5 2007 às 10:23

    Lindo texto. Sobre o amigo, diria ainda de sua alegria envergonhada, além de sutil. Bjs

  7. Silvia S. - 14 5 2007 às 17:09

    “Ignorância e medo, um alimenta o outro. Por todos os lados estão esses dois elementos a se procriar.”

    Esse trecho me tocou, porque se aplica a tudo na vida. Ignorância e medo só nos levam pelos caminhos errados. Enquanto houver vontade de saber e coragem para enfrentar os desafios e se recusar a ser apenas mais uma pessoa que caminha com o rebanho, há esperança, há futuro.

    Lindo texto, Alessandro.

  8. Alessandro Martins - 16 5 2007 às 9:12

    Obrigado, Mário. Tocado por suas gentis palavras.

  9. Alessandro Martins - 16 5 2007 às 9:13

    A imagem do guerreiro também me agrada, Lucas… no fundo, é coisa de menino que, quando crescer, quer ser herói…

  10. Alessandro Martins - 16 5 2007 às 9:15

    Maga, sempre acrescentando algo com seus comentários… acho isso super-gentil… Beijos, do Ale.

  11. Alessandro Martins - 16 5 2007 às 9:15

    Você também mostra que o conhece bem, Tina… beijos, do Ale.

  12. Alessandro Martins - 16 5 2007 às 9:17

    Ignorância e medo, um alimenta o outro mesmo, Silvia… aprendi de um desses lugares-comum-verdadeiros dos pais que diz que só se teme aquilo que não se conhece… Beijos do Ale

  13. Cris Penaforte - 23 5 2007 às 13:54

    Oi Alessandro,

    Boa Tarde!

    Cheguei aqui através do destaque que nosso amigo Mário fez sobre esse seu texto lá no blog dele…E só tenho mesmo que concordar, está belíssimo…Amo Drumond e tudo que ele nos deixou, mas Os Ombros suportam o Mundo, é na minha opinião, o maior de tudo que ele escreveu…completou teu lindo texto e o abrilhantou ainda mais…Parabéns!

    Um abraço,
    Cris

  14. Alessandro Martins - 24 5 2007 às 8:40

    Drummond, de fato, Cris, tem diversos poemas inesquecíveis. Para mim, na verdade, é muito difícil escolher… também passei em seu site. Parabéns pelo seu texto. Beijos do Ale.

  15. Ciça - 24 5 2007 às 11:05

    mano do céu, agora me deu medo. tu me viste vindo aqui mesmo eu nao deixando comentario??? ai que medo!!! hahahahha

    tinha vindo por indicacao do mário mas como teu texto era grande deixei pra ler depois, mas vc chegou na frente :)

  16. Alessandro Martins - 24 5 2007 às 11:30

    Opa. Alessandro vê tudo. Alessandro sabe tudo.

    Brincadeira… você é cadastrada no BlogBlogs, certo? Então… foi assim.

    Beijos!

  17. Marina - 25 5 2007 às 14:51

    pq mesmo depois d eum tempo ausente, sempre sei que qndo volto encontrarei ótimos textos para ler e repensar a vida.
    Parabéns, ALê, como sempre vc “toca” a gente mesmo de tão longe…

    “Não adianta tentar bloqueá-las, pois outras virão. ” e que estejamos prontas para elas…

  18. Alessandro Martins - 26 5 2007 às 10:36

    Marina, você é sempre bem-vinda… espero sempre ter um bom texto na manga para agradá-la. Beijos!

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