Paulo, meu amigo,
pergunta-me o que aconteceu com você.
É uma pergunta difícil. É complexo medir qualquer febre se a palma da mão de quem o faz é também, de certo modo, febril.
Porém, se pergunta para mim, julga-me subitamente com o dom do oráculo, aquele que responde às perguntas e orienta destinos. Mas sou um mero sujeito, homem, nascido em Laranjeiras do Sul, onde conheci o barro vermelho que até os dois anos de idade fez parte da cor da minha pele e até hoje faz parte da cor da minha alma.
Em definitivo, não sou digno nem capaz de responder completamente sua questão. Das poucas coisas que me enobrecem, uma é a mulher que amo e a outra a sua amizade. Se isso basta, tentarei aceitar e cumprir o pedido.
Sei que em certos dias e em certas horas, entre o sol se pôr e as cobertas se desdobrarem, um homem, qualquer homem, pode se sentir cansado. Definitiva, absoluta e modestamente cansado.
Não consigo imaginar um guerreiro que, depois da batalha, não solte um suspiro de alívio por ela ter terminado. Não por ele permanecer vivo e inteiro. Mesmo ferido, na morte, suspiraria. Suspira simplesmente pelo fim transitório de uma luta. Apenas isso.
Não é de duvidar que ele deseje nesse instante que não haja mais batalhas. Sabedor, no entanto, de que elas são inevitáveis. Afinal, um guerreiro se faz com guerras. Se desfaz também.
Sempre que lembro de você, meu amigo, desde que sua atitude em relação aos livros e tudo mudou, penso no poema Os Ombros Suportam o Mundo, de Drummond. É uma poesia que fala de resignação. E existem dois tipos de resignação.
A fraca e a forte. Nesse poema leio sobre a resignação forte.
A fraca é a dos que desistiram. A forte a dos que aceitam. Os que desistiram se deixam esmagar. Os que aceitam abraçam a vida e a carregam sobre as costas se preciso. Diz Drummond no poema: “teus ombros suportam o mundo e ele não pesa mais que a mão de uma criança.”
Não existe nada mais pesado que a mão da criança que fomos e que indaga sobre aquilo que ela não poderá mais ser, pois de infinitos caminhos só se pode escolher um.
Diga a ela que um dia, se evoluirmos, chegaremos a ter a consistência das árvores, não pelo verde que se vê do alto nas florestas, mas pela madeira, pelo xiloma, pela celulose resistente, maleável e flutuante, por sua durabilidade e pela voz silenciosa que elas enclausuram na tensão das fibras.
Fibras são para poucos, mas acho que já temos algumas.
Porém, começo a falar do que poderemos ser. E você perguntou o que aconteceu com você. Falo de futuro e o objetivo é entender algum evento passado. Desvio-me portanto. Não tenho o dom da objetividade, como vê.
As pessoas têm medo, você disse. E o medo, de fato, quando elas se deixam dirigir exclusivamente por ele – por não conhecerem emoções mais nobres -, é algo destrutivo.
Parece piegas dizer que o amor, por outro lado, constrói. Mas é a mais pura verdade. Nunca ouvi falar de um casal que recém encontrou-se separando suas coisas. Eles não têm opção, no início, senão uni-las, por poucas que sejam, como tijolos. E, só então, por infelicidade e por conta do medo – um dos muitos aspectos do medo – tornarão a separá-las.
Há, porém, quem descubra a diferença entre construir e destruir. Então opta por construir. E se resigna em continuar construindo, não se importando com quão destrutivos os outros possam vir a ser.
As flechas vêm e deixa-se que passem. Até pela carne. Não adianta tentar bloqueá-las, pois outras virão. Continua-se a construir embora algumas coisas já tenham sido destruídas. No final, vê-se o que sobrou.
E acredite: sempre sobra muita coisa. Haja flecha para destruir completamente aquele que está resignado a viver sem restrições.
Ignorância e medo, um alimenta o outro. Por todos os lados estão esses dois elementos a se procriar. Mas não vejo medo em você e ao meu redor e em aqueles que de mim se acercam desonheço o medo. Vejo cabeças erguidas, vejo capacidade, vejo coragem. Simples assim.
Olho novamente para aquele guerreiro de que falei no início. Ele suspira de cansaço e alívio por mais uma batalha ter terminado. Cuida de um ou outro ferimento que tenha sofrido e aceita seu destino, que é seu destino não por lhe ter sido imposto por algum deus, mas simplesmente porque, se quisesse, poderia tê-lo rejeitado. Não é a espada que o faz um guerreiro, mas sua vontade. Pode ser assim, portanto, aquilo que bem entender.
Porém, novamente me desvio.
Acho que desconheço o que aconteceu com você, meu amigo Paulo, mas espero que abrace e carregue a vida sempre com a alegria sutil que lhe considero característica.










