50 tons de cinza imagem

De 50 Tons de Cinza, podemos falar de manipulação, da falta de clareza de consentimento (ainda que haja na história até um contrato escrito e discutido para tal), de problemas psicológicos dos personagens, se há abuso ou não, se as práticas sexuais do filme são coisa de gente saudável ou não (claro que podem ser, assim como práticas ditas “normais” podem não ser).

Porém creio que a grande questão não são os problemas dos personagens. Ninguém espera que um personagem de uma história realmente interessante (e não estou dizendo que esse livro é necessariamente interessante) seja moral e psicologicamente perfeito. Tudo o que eu quero em um livro é gente com problemas, MUITOS problemas.

O que seria de Crime e Castigo se Raskolnikov fosse um sujeito perfeitamente equilibrado?

Se eu começasse a ler um livro e percebesse que os personagens não têm defeitos, desistiria nas primeiras páginas.

Ninguém crucifica Dostoiévski porque ele escreveu um livro que coloca como protagonista um sujeito que mata uma velha a, sei lá, machadadas.

A questão de 50 Tons de Cinza é que os defeitos dos personagens não são postos à prova. Não passam por uma mudança de paradigma ou mesmo são questionados na própria narrativa, como é o caso de Crime e Castigo, em um nível que vai muito além dos simplistas certo e errado, preto ou branco. Ou cinza.

Por um lado, o leitor ingênuo passa a acreditar que todo o praticante de BDSM tem problemas psicológicos e precisa ser curado pelo “amor”. Na década de 70, depois de Tubarão, de Steven Spielberg, todos achavam que os tubarões brancos deviam ser exterminados, pois eram criatura más e sanguinolentas. Não é bem assim.

Ninguém pensa que todos os militares são psicóticos ao assistir a Apocalypse Now, pois existem outros filmes de guerra em que os militares são retratados de forma mais normativa (mesmo que o normativo não seja necessariamente o mais saudável). E, embora existam outros filmes sobre o tema BDSM, poucos se tornaram tão populares quanto esse 50 Tons de Cinza.

Por outro lado, algumas pessoas podem ver as questões do senhor Grey como algo normal ou ao menos aceitável. Ou podem acreditar que a maneira como Ana é levada a consentir aceitável.

Em contraposição a 50 Tons de Cinza, temos o filme A Secretária. Ainda que não haja um consentimento explícito, necessário a uma relação de dominação e submissão saudável, observa-se uma mudança de paradigma dos problemas dos personagens, ela em especial.

Ela é uma jovem que comete ferimentos auto inflingidos. Uma patologia. Ela faz cortes no corpo, usando lâminas, para aliviar a ansiedade ou algo assim.

No entanto, no decorrer da história, ela descobre esse advogado para quem trabalha como secretária e eles desenvolvem um relacionamento em que ele a pune e ela aceita e, inclusive, busca as punições. Esse relacionamento, o modo como ele se desenrola – e isso você só vai perceber se assistir ao filme – é emocionalmente enriquecedor para os dois, no entanto. Em vez de uma patologia, passamos a ter desenvolvimento e crescimento.

Externamente, o efeito do ato – punição física, auto inflingida ou inflingida por outro – é praticamente o mesmo, mas o resultado desse efeito é outro.

Coisa que não acontece em 50 Tons de Cinza.

photo credit: Screaming woman tied to a tree via photopin (license)

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!