No livro A Arte de Amar, de Erich Fromm, o autor fala a certa altura sobre a necessidade de ser capaz de perceber a si mesmo. Da mesma maneira como sabemos que algo está errado com o corpo, ao sentir-se algum desconforto ou mesmo dor, devemos saber se há algo de errado com outros aspectos de nossa existência que não tão somente o físico.
Porém, para saber isso, precisamos do convívio de pessoas cujos aspectos menos físicos da vida sirvam de parâmetro para nós. Pois, se todos tem uma ideia mais ou menos clara do que é o bem-estar físico, para coisas mais sutis precisamos de exemplos comportamentais.
Então nos diz o autor:
A mesma sensibilidade para com os próprios processos mentais é muito mais difícil, porque muitos nunca conheceram uma pessoa que funcionasse otimamente. Tomam como a norma o funcionamento psíquico de seus pais e parentes, ou do grupo social em que nasceram, e, enquanto não diferem deles, sentem-se normais e sem interesse em observar qualquer coisa. Muitas pessoas há, por exemplo, que nunca viram uma pessoa amorosa, ou uma pessoa de integridade, coragem ou concentração. É de todo evidente que, a fim de ser sensível a si mesmo, tem-se de possuir uma imagem de funcionamento humano completo, saudável — e como se adquire tal experiência, quando não foi ela tida na própria infância, ou mais tarde na vida? Por certo, não há resposta simples para esta pergunta; mas ela indica um dos mais críticos fatores de nosso sistema educacional.
Enquanto ensinamos conhecimentos, estamos perdendo aquele ensinamento que é o mais importante para o desenvolvimento humano: o ensinamento que só pode ser dado pela simples presença de uma pessoa amadurecida e amorosa. Em épocas anteriores de nossa própria cultura, ou na China e na Índia, o homem mais altamente apreciado era a pessoa de eminentes qualidades (…) o professor não era só, nem sequer primariamente, uma fonte de informação, mas sua função era transmitir certas atitudes humanas.
Na sociedade (…) os homens sugeridos à admiração e à emulação podem ser tudo, menos portadores de qualidades (…). Sua principal qualificação para essa função está, muitas vezes, em terem conseguido tornar-se notícia.
Contudo, a situação não parece ser inteiramente desesperada. Se se considera (…) as muitas possibilidades de familiarizar a juventude com personalidades vivas e históricas que mostram o que os seres humanos podem realizar como seres humanos e não como entretenedores (no amplo sentido da palavra), se se pensa nas grandes obras de literatura e arte de todas as épocas, parece haver uma oportunidade de criar uma visão de bom funcionamento humano e, portanto, a sensibilidade ao mau funcionamento.
Caso não consigamos manter viva uma visão de vida amadurecida, então, na verdade, confrontar-nos-á a probabilidade de ver ruir toda a nossa tradição cultural. Esta tradição não se baseia primordialmente na transmissão de certos tipos de conhecimento, mas na de certas espécies de traços humanos. Se as gerações vindouras não mais virem esses traços, desmoronar-se-á uma cultura velha de cinco mil anos, mesmo que seus conhecimentos se transmitam e ainda mais se desenvolvam.
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