O padre precisa do demônio? As seguradoras precisam dos ladrões de carro?

Eu pensava justamente se as seguradoras de carro gostariam de que os ladrões de carro sumissem de repente.

Afinal, boa parte dos motivos pelos quais as pessoas fazem seguros de seus carros é por conta desses profissionais informais.

Existe uma relação de codependência – em que se misturam ataque, defesa, interesses e coisas que nem imaginamos – entre a indústria do seguro, bandidos, oficinas e polícia.

E forma uma engrenagem tão engrenhada que desfazê-la seria tarefa apenas para um Alexandre, o Grande, diante do Nó Górgio.

Um verdadeiro xadrez. Um sutil equilíbrio a que os proprietários de veículos só podem assistir.

E, sim, ter um seguro.

Então eu pensava sobre todas essas coisas quando abri sem intenção o livro Temporais, de Gibran Khalil Gibran, e deparei esta frase em que um demônio fala a um padre:

Há vinte e cinco anos, percorres estas aldeias para prevenir os homens contra minhas armadilhas, e eles compram tuas preleções com seu dinheiro e os frutos dos seus campos. Que outra coisa comprariam de ti amanhã, se soubessem que seu inimigo, o demônio morreu e que estão livres de seus malefícios?

Nâo sabes, em tua ciência, que quando a causa desaparece, as conseqüências desaparecem também? Como aceitas, pois, que eu morra e que tu percas, assim tua posição e o ganha-pão da tua família?

De fato, pode-se dizer que o padre não vende o medo do diabo, mas o amor de Deus. Ou que a seguradora vende a segurança e não o temor à perda de uma propriedade.

Tudo é uma questão de inverter o ângulo pelo qual se vê as coisas.

Mas – como se sabe – inverter o ângulo pelo qual se vê as coisas é um talento dos padres, dos demônios, das seguradoras e das grandes corporações em geral.

E lembre-se: don’t be evil.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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