Navegando na imensa rede cheguei esta tirinha de Randall Munroe e… bem, veja com seus próprios olhos.

(O último quadro é interativo clique o cursor sobre ele e arraste)

Fiquei vários minutos navegando por este quadro e não cheguei a seu fim (tem desenhos no subterrâneo e nos céus, além do que pode ser visto na superfície). É impressionante.

Contudo o que mais gostei foi da mensagem. Os quadrinhos principais, em tradução livre:

“Pelas histórias eu esperava que o mundo fosse triste. E ele era.
E esperava que ele fosse maravilhoso. E ele era.
Eu só não esperava que ele fosse tão grande.”

Uma das coisas que mais gostei da mensagem é: ela possibilita múltiplas interpretações.

Principalmente em poesia, este é um recurso muito valorizado. Poder ler um verso e, a cada leitura, achar uma nova textura para ele, uma nova interpretação, um novo encaixe, um novo contexto .

Até certo ponto chega a ser uma ironia, afinal, aprendemos que escrever bem é escrever de forma clara, precisa. Quanto menos ambiguidade, melhor é um texto. Inclusive em literatura, sobretudo em literatura e, ao mesmo tempo, menos nela.

Voltando a tirinha, acabei encontrando ao menos duas interpretações para esta:

1. Os livros ou outras formas de narrar histórias contam-nos como é o mundo, mas não podemos esquecer que ele é maior que cada história e que, por mais que a gente leia, nunca conseguiremos apreender a sua imensidão. Por vezes é crucial fechar o livro e ver o mundo. Ou como escreveu Almyr Klink no livro Mar Sem Fim:

“Hoje entendendo bem meu pai. Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar do calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto. Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser; que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. Não há como não admirar um homem — Costeau, ao comentar o sucesso do seu primeiro grande filme: “Não adianta, não serve para nada, é preciso ir ver”. Il faut aller voir. Pura verdade, o mundo na TV é lindo, mas serve para pouca coisa. É preciso ir tocá-lo.” Trecho do livro Mar Sem Fim do velejador Amyr Klink.

2. Esperamos algo das histórias que ouvimos e nelas encontramos muito daquilo que já estávamos procurando. E encontramos também outras coisas. Por meio das narrativas descobrimos que o mundo é grande a despeito daquilo que esperamos dele. Provavelmente todas as nossas expectativas cabem nele.

Fiquei pensando em outras coisas mas acho que estas duas resumem as linhas de raciocínio pelas quais divaguei.

Os livros e outras formas de artes nos mostram o mundo e nos fazem vê-lo de forma diferente, entretanto ele também pode ser apenas um reflexo daquilo que esperamos. Todos temos aquele amigo fanático por algo que sempre dão um jeito de os fatos aparecerem sob a sua ótica. Existe um ditado que diz que para quem tem um martelo tudo é prego. Para que não fiquemos com uma visão limitada  é importante variar as leituras e, sobretudo, variar a vida.

Então viva, ouça histórias, se interesse pelos outros, trabalhe, construa, ajude, cheire, prove… Abra a janela e deixe a luz do sol entrar. Ganhe novas experiências e com elas novas expectativas e perspectivas e torne as suas leituras mais interessantes. Torne a sua vida mais interessante.

Os livros servem para tornar a nossa experiência de mundo muito mais rica e completa, contudo ele não é a única experiência de mundo possível.

Use os livros como uma fonte para conhecer melhor o mundo e não apenas mais uma forma de se afastar dele. Abra-se para esse grande mundo cheio de possibilidades.

A vida é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.

"Respire fundo, abra seus olhos e feche o livro". Esse é o recado dos gêmeos quadrinistas Fabio Moon e Gabriel Bá na HQ Daytripper. Não é um desincentivo a leitura, é um incentivo a vida.

“Respire fundo, abra seus olhos e feche o livro”.
Esse é o recado dos gêmeos quadrinistas Fabio Moon e Gabriel Bá na HQ Daytripper.
Não é um desincentivo a leitura: é um incentivo a vida. Bons livros nos motivam a ler mais e nos incentivam a viver melhor.

Sobre o autor: Marcela Ortolan

Andarilha convicta, leitora apaixonada, behaviorista radical. Acredita que o mundo é grande demais para que apenas uma arte tenha o seu monopólio.