O mundo precisa de mais escritores sem estilo
8 de janeiro de 2007 | Publicado na Categoria O prazer de escrever | 10 Comentários »O mundo precisa de mais escritores sem estilo. Ou de, pelo menos, escritores que não estejam tão preocupados com ele. Isto é, se estilo houver, que venha naturalmente e que não seja colocado antes da necessidade de comunicar algo a um leitor.
Ainda há pouco, pela manhã, tive uma lição sobre isso no prefácio do livro Desperta e Lê, de Fernando Savater.
(…) quem padece essa vontade estilo, que antigamente me parecia tão essencial, escreve na dependência não do que quer dizer – pode muito bem não querer dizer nada -, mas apenas dos efeitos idiossincrásicos que sua forma de dizer produzirá no leitor.
O livro Ética Para Meu Filho, de Savater, é o que atualmente eu e Júlia lemos no carro. Ela o lê para mim enquanto dirijo. É desses livros que não se deve substimar apenas porque foi escrito para um adolescente de 15 anos. Ética é um assunto complexo e discorrer sobre ele, para alguém nessa idade, sem esconder a complexidade do tema e sem substimar o leitor, é algo digno de nota. Possivelmente, se ele não seguisse o conselho que dá no prefácio de Desperta e Lê, onde reúne diversos escritos seus publicados na imprensa, não conseguiria dar conta dessa difícil tarefa. Sobre os escravos do estilo, ele continua:
O principal não é que o destinatário do texto compreenda o que foi dito e o avalie, mas que ele esteja muito consciente de que foi o fulano quem o disse.
Creio que uma preocupação excessiva em deixar uma marca, muitas vezes, redunda em não deixar nenhuma. Incluo nesse balaio, aqueles preocupados excessivamente em causar um efeito no leitor, sem permitir que esse efeito seja natural da mensagem por ele transmitida.
Quando abandonei a vontade de estilo, me propus algo mais difícil ainda: escrever como todo o mundo. Ou seja, como todo o mundo se todo o mundo soubesse dizer por escrito o que pensa, com perfeita naturalidade, conforme seu desejo em cada momento (…).
Ele segue dizendo que isso, justamente por ser mais difícil, também lhe foi negado. Discordo, mas tudo bem. E conclui a idéia:
Finalmente a preguiça decidiu por mim, e agora na maioria das vezes escrevo como sai, procurando apenas evitar os deslizes sintáticos e semânticos mais notórios e não repetir três vezes a mesma palavra em uma linha. Isso também dá um certo trabalho, é justo dizer.
Considero que foi um bom começo de manhã este com Fernando Savater.
Eu recomendo veementemente a entrevista que acima já linquei.
Serviço: compare preços de livros de Fernando Savater.

Me interessei pelo livro e busquei na internet. O link para comprar o livro é este.
(espero que seus comentários permitam links hehe)
Muito boa a entrevista! Recomendo também vale a pena começar a ler, pelo menos. Aposto como vai terminar.
Resposta: Pelo visto, os links são permitidos. :-D
Eu considero o estilo como um timbre de voz, uma marca inevitável. Sendo assim, o melhor é fugir o máximo dele, variar. Senão, você faz um falsete de si mesmo.
Resposta: Corre-se o risco de se criar uma caricatura, em um mau sentido, uma casca cômica ou chata sobre o que seria essencial…
As pessoas tem manias de rotular, por medo do desconhecido. Imagina você chegar pra alguem dizendo que banda x é do estilo “qualkernome-que-ela-desconheça”, fácil, fácil a pessoa torne o nariz.
Os estilos existem para se poder enquadrar algo em uma categoria, mas ultimamente ele tem servido para saber como falar mal de algo do jeito que todos falam.
Resposta: Eu lembro que uma coisa que me chamava a atenção no Millôr Fernandes quando eu era criança e via aqueles desenhos feios dele das Veja da década de 70 que pertenciam a meu pai é que o subtitulo era: “Finalmente um escritor sem estilo”. Chamava mais atenção do que os desenhos feios dele que eu adorava pintar por cima com tinta guache. Ninguém duvida que o Millôr seja um cara inteligente, não é? Finalmente um.
Por mais que se queira permanecer neutro, nu de estilo, acho que isso não é totalmente possível. Somos seres com personalidade diferentes, e, como tal, temos modos de escrever bastante diferentes. Imagine se Clarice Lispesctor escreve-se como qualquer de nós, sem os imbróglios que lhe são característicos.
Mas, definitivamente, o que mais me incomoda são os escritores não de estilos próprios, mas que simulam formas de escrita utilizadas por outros. É artificial demais.
Resposta: Certamente. Savater se refere ao estilo como fim e eu também. Estilo todos temos de modo natural para qualquer aspecto da vida. Seja na hora de escrever, seja na hora de se vestir.
Abraços!
Por falar em estilo, existe um livro que foge totalmente ao tradicional. A obras é um quebra cabeça, quem não tem o hábito de insistir, para ver como termina – desiste logo nas primeiras páginas.
Título da obra: Zero
Autor: Igácio de Loyola Brandão.
Só por curiosidade, vale a pena dá uma olhadinha. Não os culparei se não conseguirem terminar a leitura. Mas em questão de estilo… desconheço outro mais excêntrico.
Um abraço, Lenira.
Retifico o nome do autor:
Obra: Zero
Autor: Ignácio de Loyola Brandão.
Lenira
Chego com atraso para comentar, mas gostaria de indicar um grande texto de Borges sobre o assunto estilo, só que analisado sob o ponto de vista do leitor. Não encontrei em português na net. Segue link para o texto em espanhol: http://www.literatura.us/borges/dellector.html
Adoro Borges, Normando. Vou marcar o seu link e lê-lo com atenção! Abraços!
A Wikipédia diz:
“Fernando Savater( São Sebastião, 21 de Junho de 1947 – escritor e filósofo espanhol)”.
E eu tenho cá para mim: será que a wikipédia está certa? Será que Savater em vez de escritor, não é jornalista?