O livro que eu quero ler

Virada de ano, férias para muitos, listinha de promessas a serem cumpridas nos próximos 365 dias e, dentre elas, a de que aquele livro vai ser lido. “De 2013 não passa”. Não sou adepta do tal menu de juramentos, mas uma coisa eu decidi: “Cem anos de solidão” vai sair da estante.

Há muito já queria lê-lo, vinha adiando a compra (não sei por que motivo além do financeiro) e, desde meados do ano passado, negociei-o num grupo virtual de trocas e vendas de livros. Por cinco, cinco meses ele está a me olhar da prateleira todos os dias: calado e encerrado em si. Mas essa obra-prima de García Marquez é daquelas que sinto pena de ler e terminar. É, tenho dessas coisas.

Como se o livro, uma vez virada a última página, se desfizesse. Ainda que guardado na memória ou lido novamente e em ciclos ininterruptos, se desfizesse. Poucos foram os que li uma segunda vez: “O amor nos tempos do cólera” – do mesmo autor – entre eles; mas a sensação que tive na primeira experiência, não fora saboreada de novo. Sentimentos há, mas outros. Aquele, da descoberta, não se repete, vai embora com a primeira leitura. E isso é um pesar.

Manter um livro na fila de espera perpetua a chama da expectativa, mantém-no vivo e faz do ato da leitura o clímax de uma história entre agente e paciente (seja lá quem for qual) , que se dilui quando é fechada a contracapa. Sim, há inúmeras outras histórias esperando para serem vividas de olhos grudados no papel, mas aquela findou e só ocorre, a partir de então, na lembrança. Talvez isso não seja ruim, mas algo se esvai. Essa perda é o que entristece.

livro que eu quero ler

Não quero, com isso, dizer que os livros não devam ser lidos para se manter a expectativa da leitura. Aliás, não se trata de dever; é só a tentativa de explicar – de alguma forma – para mim mesma o que acontece com essas gravidezes de páginas escritas. Devorar um bom livro é prazeroso, ler com avidez palavras que nos tocam profundamente é esplêndido. Degustá-las lentamente, também. Mas a expectativa alimenta a imaginação e potencializa o deleite, não consigo negar.
O querer cria a eterna promessa e a eterna promessa aumenta o querer, num jogo cíclico em que, obviamente, precisa-se – um dia – pôr um ponto final, senão é como quem está no presente vivendo o futuro que nunca chega. A decisão não é das mais serenas. Às vezes, tomada de súbito, ou digerida por dias, meses, anos, até que se concretize.

A minha está amadurecida e a qualquer momento pode materializar-se. Os outros livros da fila (sim, há outros), não faço ideia de quando serão lidos, mas sei que já me esperam em algum lugar, encerrados em si.



Graduada e Licenciada em Letras pela UFPE, Deanna Ribeiro é de Olinda-PE, professora por formação e revisora de textos de maneira autônoma. Lê por opção. É autora do livro “As mulheres que não cabem em mim (ao meu redor)”, publicado em novembro de 2012 pela editora Multifoco (RJ); edita o blog Caixa Chinesa; participa como autora convidada da Comunidade Literária Benfazeja; colabora com o projeto de um portal voltado para escritores na internet (O Escritor); tem textos publicados nas revistas virtuais Babel e Varal do Brasil.; participa da antologia “TOC140 – poesias do twitter” (2011)


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