(publicado originalmente em 15 de janeiro de 2007)

Viajar é excelente diversão, mas não é a felicidade garantida ou seu dinheiro de volta.

Um amigo certa vez perguntou, em uma de suas muitas viagens, a um outro turista compulsivo qual foi o melhor lugar que conhecera durante os seus muitos deslocamentos. O outro, que já conhecera o mundo inteiro, respondeu:

– Aqui – colocando o indicador na fronte. Sua cabeça era o melhor lugar que ele conhecia.

Eu e Júlia continuamos a ler o livro A História Sem Fim, de Michael Ende. Agora deparamos Graograman, a Morte Multicor. É um majestoso leão, senhor do colorido deserto de Goab. Ele se desloca rapidamente por sobre as dunas de variados matizes, emprestando delas as cores para sua magnífica pelagem. Ninguém chega perto dele sem se tornar cinzas.

Bastian está perdido nesse deserto e deseja sair. Finalmente, encontra Graograman que, ao ver que Bastian não se incinera na sua presença, reconhece nele alguém a quem servir:

– Senhor, disse ele, sou o seu servo e aguardo suas ordens!

– Gostaria de sair deste deserto, explicou Bastian. Você pode me levar para fora daqui?

Graograman abanou a juba.

– Isso é impossível, senhor.

– Por quê?

– Porque eu trago o deserto comigo.

E tal é. O deserto faz parte do corpo do gigantesco leão e, por mais que ele se desloque, não importa a velocidade, sempre o levará consigo. De tal maneira que, ainda que a paisagem tenha mudado de um dia para o outro como é costume nos desertos, ele sabe exatamente as posições geográficas de seu reino. Assim como, mesmo de olhos fechados, sabemos onde estão nossos braços, pernas, enfim.

Há diversas formas de aprender coisas nos livros. Uma delas é com os mitos, com a própria narrativa, tal o exemplo de Graograman. Outra é a exposição pura e simples.

Por exemplo: imediatamente quando li essa passagem, lembrei que, há muito tempo, havia lido em Ensaios, livro de Ralph Waldo Emerson, algo que dizia respeito a isso.

Viajar é o paraíso dos tolos. Devemos às nossas primeiras jornadas a descoberta de que o lugar não significa nada. Em casa, imagino sonhadoramente que em Nápoles ou em Roma poderei intoxicar-me de beleza e livrar-me da tristeza. Faço as malas, abraço os amigos, tomo um vapor e, finalmente, acordo em Nápoles e lá, diante de mim, está o facto insubornável, o triste eu, implacável, idêntico, de que fugi. Visito o Vaticano e os palácios. Finjo estar intoxicado com as visitas e as sugestões, mas não é verdade. O meu gigante acompanha-me por onde vou.

Não digo que de nada adiante viajar. Uma viagem, até mesmo para a região metropolitana de sua cidade, sempre terá muito a acrescentar. Viajar sempre é bom. Mas não viaje em busca de uma felicidade.

Ela, a felicidade, já deve estar na bagagem.

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!