O homem do cemitério

Uma das experiências mais perturbadoras da minha encerrada carreira de repórter foi vivida no Sétimo Distrito Policial de Curitiba, a uma quadra da casa onde cresci, na Vila Hauer.

O engraçado é que, na época, talvez eu estivesse um tanto anestesiado pelo excesso de entrevistas insossas a que me submeti durante as efemérides anuais, tais como o dia mais frio do ano, o tráfego nas estradas durante os feriados ou o aumento da venda dos ovos de Páscoa na… Páscoa.

E, assim, não percebi o quanto aquilo era realmente estranho e digno de maior atenção. Toda aquela história talvez merecesse uma ou duas páginas de jornal para ser contada. Infelizmente, agora, a memória é insuficiente para um relato digno.

No entanto, a leitura de O Silêncio dos Inocentes, de Thomas Harris, talvez tenha sido, de algum modo, a responsável pela lembrança e por seu avivamento. Sabe-se lá que recônditos mentais um personagem fascinante como Hannibal Lecter é capaz de despertar.

Não tenho absoluta certeza, mas acho que foi no final de 2006. O fotógrafo, o motorista e eu fomos chamados para o Sétimo Distrito para cobrir a prisão de um homem que violava túmulos. Não para roubá-los, mas para praticar sexo com os cadáveres.

O responsável pelo local dizia que era comum ver o rapaz rondando o local. Ele esperava a chegada de um novo defundo e a falta de vigilância do cemitério e executava seus planos. Ainda que tentassem expulsá-lo, era difícil fazer isso a todo o tempo: o cemitério é um espaço público e aberto e ele nunca havia sido flagrado pela polícia.

O policial trouxe o cara para conversar com a gente. Um sujeito calmo e, a julgar pela falta de maiores cuidados dos carcereiros, um tanto inofensivo. Sequer estava algemado. Maltrapilho, sujo e com dificuldades de fala – possivelmente tinha algum problema mental -, disse que acreditava poder ressuscitar os mortos.

- Eu sopro no ouvido deles e eles levantam e falam comigo – disse.

Segundo relatou, não foi a primeira vez que que havia feito isso.

Carregava uma mochila de criança, uma mochila rosa com a gravura de um personagem infantil impressa. Os policiais não se preocuparam em retirá-la do rapaz. Ele mostrou o conteúdo, mas agora não consigo lembrar do que se tratava. Miudezas.

Não estou bem lembrado, mas ele teria afirmado que vivia com a mãe ou coisa assim, mas que preferia estar na rua. Mas, você sabe, a memória costuma ser mais fértil que a imaginação.

Imagino que foi mandado a uma instituição psiquátrica. Talvez esteja por aí.

Acreditava que, quanto mais fresco fosse o cadáver, mais facilmente poderia trazê-lo à vida, conversar com ele e… enfim.

Fico pensando, caso esteja em liberdade ou sem os devidos cuidados, se não resolveu ele mesmo fabricar seus próprios mortos para, em seguida, colocar à prova seus poderes ao ressuscitá-los.

Afinal, no cemitério, isso já estava ficando difícil.

Postado em Livros e Afins.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

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