(artigo de autoria do articulista convidado Fernando Klug)
Há mais ou menos 20 anos a gente ouvia sobre “as pernas de Sylvia Bandeira”. Agora, está aí a atriz emprestando as pernas – e a competente interpretação – à diva alemã de O Anjo Azul . Marlene Dietrich – As Pernas do Século, agrada muito, porque consegue trazer algo do glamour da sua homenageada. Mais que isso: consegue nos fazer a ligação de uma época com alguns dos maiores nomes da música e do cinema. E, de quebra, chega a emocionar. Quase duas horas de espetáculo com elenco competente no cantar e interpretar. Se o texto de Aimar Labaki não se distancia um centímetro daquele modelo quadradinho, batido e, por vezes não consegue disfarçar que reuniu dados e frases e os transformou em diálogos” é competente em nos envolver aos poucos, em nos seduzir do mesmo modo que a Marlene de 90 anos seduz o garoto que veio ao seu apartamento. Até que esquecemos da fraco diálogo inicial, no qual o personagem do rapaz soa apenas como um “perguntador”, necessário para que La Dietrich não ficasse falando sozinha.
A montagem é tão quadrada quanto o texto, com a exceção das projeções (básicas) em telão e dos músicos em cena. Também não ousa, não cria relacionamentos mais ricos entre esses elementos. As cenas da segunda guerra, projetadas, limitam-se a ficar de fundo, por exemplo, sem que os atores-cantores com elas se relacionem ou com elas se misturem. Mas essa forma clássica até que condiz com a estética de toda uma época. E agrada a combinação harmônica dos belos figurinos com o cenário enxuto, a cortina e o palco ao fundo, os músicos ao vivo na cena… E o ritmo dado por William Pereira é excepcional: o longo espetáculo não cansa. Mesmo com a impressão de que o diretor colocou, na parte final, músicas demais. Ficou a impressão de que faltou texto para justificar isso. Mas, bem cantadas e interpretadas, foram belas.
No elenco, surpreende a interpretação e a boa forma dos atores, em destaque Sylvia Bandeira, que consegue sustentar a personagem com certa facilidade. } Independente disso, a presença de uma atriz que interpretasse a Marlene Dietrich jovem seria muito bem vinda e poderia estabelecer relações emocionais interessantes. E senti a falta de mais um casal de intérpretes para dar conta das tantas cenas e personagens representados no espetáculo. Exemplo claro eram todos os homens da vida de Marlene serem o mesmo, com a mesma voz de locutor antigo; e a interpretação de Edith Piaf: o timbre vocal da única atriz coadjuvante está muito longe da cotovia da França . Não bastou a boa interpetação e nem o microfone alto que fazia a moça parecer pequena.
De qualquer modo, no fim das contas, saí (e me parece que todo mundo) com aquela sensação gostosa de ter visto um espetáculo de qualidade, completo, aprendido um pouco da história e, de quebra, me emocionado.










