O que sabemos acerca de nosso passado? Que histórias repassaremos para as futuras gerações? E que futuro teremos?

Muitos questionamentos podem ser inquietantes, avassaladores, mas podemos caminhar diariamente no silêncio de nossas vidas, sem nunca questionarmos ou posicionarmo-nos sobre a história de nosso país, de nossa cultura, e nosso papel como protagonista ou coadjuvante.

Aos 70 anos, Tomé levava uma vida pacata. Das manhãs modorrentas ao som de pássaros, passos e mais passos de estranhos numa praça, ele seguia sem muitas esperanças. Seus dias eram a repetição de ontens infindáveis. E assim parecia prosseguir indefinidamente…

Mas foi numa tarde de domingo que duas vidas se cruzaram, dois olhares diametralmente opostos. Foi quando Tomé encontrou Heitor, de 23 anos, na mesma praça, agora vazia, sem passos, sem vozes.

Tomé viu em Heitor a possibilidade de ser ouvido, um amigo, um filho, um neto, um ser humano que se dispôs a ouvi-lo. E Heitor ouviu pacientemente a história de Tomé. Sua infância, sua juventude na fazenda, seu casamento aos 17 anos, seus filhos espalhados pelo mundo, e a trágica morte da amada, companheira de tantos anos.

Quando Tomé terminou de falar, já não se incomodava mais em conter palavras, lágrimas, sorrisos. Foi a história de Tomé que abriu as portas para a timidez de Heitor. E um jovem, entusiasmado com o futuro, fez iluminar o semblante daquele senhor de tantas vidas, de tantos anos.

– Minha mente, por vezes adormecida, parece acordar a cada dia mais revigorada, principalmente quando procuro beber de fontes das mais diversas, e estremeço a cada página de um livro novo, sempre devorado de uma única vez. Por exemplo, tudo que você viveu durante estes 70 anos representa sua história, sua vida, e foi você que a escreveu, você é o protagonista, são suas escolhas, é o seu caminho. Mas e a história de nosso país, por exemplo? O que aprendemos na escola são verdades absolutas? São “verdades” necessárias? Para quem? – falou Heitor.

– O nosso sistema educacional sempre foi, e por muitas vezes, ainda continua sendo, uma mera reprodução, ou mais especificamente, “transmissão” de conhecimentos dentro de uma pedagogia ultrapassada, utilizada para alienar e marcar verdades como inabaláveis e intransponíveis. Eu já não acredito muito nos seres humanos, nas mudanças – afirmou Tomé.

– O que aprendemos na vida, nos bancos escolares, na universidade durante anos, pode ser refutado; afinal, o que não pode ser questionado? Quais personagens históricos não foram e são caricaturados eternamente? – Estas palavras de Heitor fizeram Tomé parar por alguns minutos, para depois falar:

– E refutar personagens históricos, momentos marcantes e estigmatizados de nossa história passada e recente faz com que passemos a encarar os fatos de outra maneira, e abre caminho para diversos questionamentos.

A vida do jovem Heitor, suas histórias, suas lutas e crenças fizeram brotar um novo olhar na vida de Tomé. Foram minutos marcantes, sentados num banco de uma praça, numa tarde de domingo, quando dois estranhos se dispuseram a dialogar. Talvez duas vidas estranhas, distintas, estejam mais próximas do que você imagina.

– Acredito, e gostaria que todos tivessem acesso a todas as informações, sejam acadêmicas ou não, e que o olhar sobre tudo que nos cerca passe a ser questionador, não me refiro ao papel militante, revolucionário, mas às mudanças que podem ocorrer a partir da leitura de um livro, por exemplo, e de tantos outros. E são, verdadeiramente, as mudanças internas que farão a grande diferença – falou Heitor.

Tomé levantou, pegou na mão de Heitor, agradeceu, disse que sempre poderia ser encontrado ali, todos os dias. O jovem permaneceu sentado, observando Tomé caminhar até sumir no final da rua…

Crônica inspirada na leitura do livro – Guia Politicamente Incorreto da História do Brasil, de Leandro Narloch.

Sobre o autor: Amilton Costa

Amilton Costa é Dentista, Mestre em Saúde da Família , autor dos livros De Boca Aberta: crônicas de vidas na cadeira odontológica, e 20 Dias.