O encantamento e o lirismo de Valter Hugo Mãe

o meu pai pagava ainda a ousadia de se chamar afonso. afonso segundo um rei, mas sobretudo em semelhança ao senhor da casa a que servíamos. uma ousadia disparatada, um sarga chamado afonso, um verdadeiro familiar da vaca como se viesse de rei. quem não tinha do que se honrar, que diabo honraria aludindo a tal nome, perguntavam as pessoas ocupadas com nossa vida.” (trecho do livro “o remorso de baltazar serapião”, de valter hugo mãe)

Valter Hugo Mãe nasceu em Angola, em 1971, e foi criado em Portugal, tem licenciatura em Direito e pós-graduação em Literatura Portuguesa Moderna e Contemporânea, escreve romances, livros infantis e poesia, é vocalista de uma banda e às vezes ataca de artista plástico.

Foi logo associado às letras minúsculas, as únicas utilizadas em seus primeiros livros de romance (o que valeu até para o seu próprio nome) – associação que ele busca romper a partir do último livro, para não ter a sua obra reduzida somente a isso. Usar apenas as minúsculas chama a atenção nas primeiras linhas, é claro, mas após várias páginas isso acaba se tornando um detalhe – é só um detalhe, é só uma marca, é só um charme a mais para um texto incrível. Mãe dispensa as maiúsculas, dispensa os pontos de interrogação e exclamação, dispensa pudores e falsos pudores. Após “o nosso reino”, “o remorso de baltazar serapião” e “o apocalipse dos trabalhadores”, com “a máquina de fazer espanhóis” valter hugo mãe encerrou essa sua espécie de tetralogia.

Sobre esses seus quatro romances, dos quais apenas “o apocalipse dos trabalhadores” não tem ainda uma edição lançada para o Brasil, recomendo a leitura da sua entrevista para o blog Prosa, pouco antes da Feira Literária de Paraty (FLIP) 2011.

 

Li algo a seu respeito pela primeira vez na Revista Bravo! e na mesma semana fui à Biblioteca e emprestei o livro “o remorso de baltazar serapião” (vencedor do Prêmio José Saramago de 2007 – “às vezes tive a impressão de assistir a um novo parto da língua portuguesa”, disse o próprio Saramago a respeito do livro). Fascinante e não menos que isso, Valter Hugo Mãe parece escrever prosa como quem escreve poesia – é tudo milimetricamente calculado, como esse trecho:

foi como fiquei desiludido com a esperança de lhe ter dado sinal suficiente para que se amigasse de mim com o olhar e, quem sabe, num dia não vigiada, pudesse até dirigir-me palavra. dirigir-me palavra e, enfim, iluminar-me como iluminava a escuridão e envergonhava todas as sombras.” (o remorso de baltazar serapião)

 

Os seus livros chegaram ao Brasil pela Editora 34 e pela Cosac Naify – ou seja: em excelentes mãos. Com o grande sucesso de “o remorso de baltazar serapião” e do livro “o nosso reino”, Mãe foi convidado para a FLIP 2011 e acabou se tornando o grande fenômeno do evento – durante o qual fez o lançamento para o Brasil do livro “a máquina de fazer espanhóis”. Escreveu uma carta para a FLIP e a leu durante uma mesa de debate, conforme o vídeo abaixo. É um relato emocionado e emocionante da sua relação com o Brasil.

 

somos um país de cidadãos não praticantes. ainda somos um país de gente que se abstém. como os que dizem que são católicos mas não fazem nada do que um católico tem para fazer, não comungam, não rezam e não param de pecar.” (a máquina de fazer espanhóis)

Em anúncio realizado semana passada, com “a máquina de fazer espanhóis” Valter Hugo Mãe foi o grande vencedor do Prêmio Portugal Telecom de Literatura (o mesmo vencido por Cristóvão Tezza em 2008, com “O Filho Eterno” e que já tem Dalton Trevisan como figurinha carimbada em suas premiações), levando o prêmio da categoria romance e também como melhor livro.

abracei o corpo da minha mulher, segurei-lhe a mão, a sua cabeça no meu ombro, criei um pequeno embalo, como para adormecê-la, ou como se faz a quem chora e queremos confortar. vai ficar tudo bem, vai correr tudo bem. o que era impossível, e o impossível não melhora, não se corrige. estávamos encostados à parede, sobre o cortinado, como fazíamos na juventude para os beijos e para as partilhas tolas de enamorados. estávamos escondidos de todos, eu e a minha mulher morta que não me diria mais nada, por mais insistente que fosse o meu desespero, a minha necessidade de respirar através dos seus olhos, a minha necessidade vital de respirar através do seu sorriso. eu e a minha mulher morta que se demitia de continuar a justificar-me a vida e que, abraçando-me como podia, entregava-me tudo de uma só vez. e eu, incrível, deixava tudo de uma só vez ao cuidado nenhum do medo e recomeçava a gritar.” (a máquina de fazer espanhóis)

 

Sobre o seu último livro, “O filho de mil homens”, lançado no Brasil em abril deste ano, como eu ainda não o li, recomendo a leitura desta entrevista dada à Revista Cult.

O Crisóstomo disse ao Camilo: todos nascemos filhos de mil pais e de mais de mil mães, e a solidão é sobretudo a incapacidade de ver qualquer pessoa como nos pertencendo, para que nos pertença de verdade e se gere um cuidado mútuo. Como se nossos mil pais e nossas mil mães coincidissem em parte, como se fôssemos por aí irmãos, irmãos uns dos outros. Somos o resultado de tanta gente, de tanta história, tão grandes sonhos que vão passando de pessoa a pessoa, que nunca estaremos sós.” (O filho de mim homens)

 

Já muito conhecido em Portugal, talvez igualmente aqui no Brasil, trata-se, com certeza, de um dos maiores nomes da literatura de língua portuguesa da atualidade. Tendo os prêmios e o número de livros vendidos como consequência natural da sua genialidade e do seu talento, Valter Hugo Mãe é um escritor sobre o qual ainda ouviremos muito. Vejo nele a minha melhor “descoberta” literária de 2012 e a confirmação de que grandes escritores têm mesmo algo especial.




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