Só eu acho absurdo tantas universidades – e alguns jardins de infância também – se ufanarem por preparar seus alunos “para o mercado”?

Júlia Rodrigues publicou em seu blog um trecho de O Emílio, de Rousseau, em um belo artigo que toca nesse ponto:

Arrastados pela natureza e pelos homens a caminhos contrários, forçados a nos dividir entre esses diversos impulsos, seguimos uma composição que não nos leva nem a um nem a outro objetivo. Assim, combalidos e errantes durante toda nossa vida, terminamo-la sem termos podido entrar em contato com nós mesmos, e sem termos sido bons nem para nós nem para os outros.

(…)

Na ordem natural, sendo os homens todos iguais, sua vocação comum é a condição de homem, e quem quer que seja bem educado para tal condição não pode preencher mal as outras relacionadas com ela. Pouco me importa que destinem o meu aluno à espada, à igreja ou à barra. Antes da vocação dos pais a natureza o chama para a vida humana. Viver é o ofício que quero ensinar-lhe. Ao sair das minhas mãos, concordo que não será nem magistrado nem soldado nem padre; será Homem em primeiro lugar; tudo o que um Homem deve ser, ele será capaz de ser e, se preciso, tão bem quanto qualquer outro; e, ainda que a fortuna o faça mudar de lugar, ele estará sempre no seu.

A certa altura, antes dessa citação, Júlia solta a seguinte frase que considero fundamental: “Percebi que, durante anos de estudo, não pude escolher o conteúdo de meu próprio aprendizado.”

Mais uma vez: só eu acho essa condição, à que submetemos diariamente os filhos e filhas de nossa sociedade, diariamente, absurda?

Notável que uma noção tão moderna de Educação venha do século XVIII.

(publicado originalmente em 14 de outubro de 2008)

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!