casa própria

A cada página que leio de Walden, de Henry David Thoreau, tenho um novo ensinamento.

Admito. Tenho lido devagar esse livro. Não sei se é porque meu ritmo de leitura está lento mesmo ou se é porque quero saboreá-lo e mantê-lo comigo mais tempo, antes de passá-lo adiante.

Minha tia, a cada semana vem até a minha casa e pergunta se já o li para que ela possa lê-lo também.

Desta vez, gostaria de compartilhar alguns pensamentos sobre moradia que encontro já no começo deste livro em que o escritor nos conta de sua experiência de viver no mato, relativamente isolado, durante alguns anos.

Tenho acompanhado alguns destes programas, na TV a cabo, em que cidadãos estadunidenses contam com a ajuda de um consultor para encontrar um lar. São casas enormes, com muitos cômodos, muitos banheiros, cozinhas gigantescas e, não poucas vezes, eles reclamam que elas são pequenas.

E eu fico pensando: por que eles precisam de tanto espaço? Qual o interesse em se contrair uma dívida, uma hipoteca que durará anos quando, se se abre mão de tanto espaço, pode-se usar a diferença do valor para outras coisas mais úteis.

Claro, esse é o meu ponto de vista. Talvez, por alguma razão que eu não compreenda, de fato as pessoas precisem de mais espaço a ponto de abrirem mão de muito dinheiro (por dinheiro, imediatamente eu compreendo tempo de trabalho e, por tempo de trabalho, eu entendo tempo de vida vendido a outros).

Embora eu não consiga alcançar o motivo ou encontrar alguma explicação lógica tento me identificar com esse povo que precisa de muito espaço.

No entanto, este trecho do Walden só reforça minhas convicções:

No estado selvagem, toda família possui um bom abrigo, e suficiente para suas necessidades mais simples e rústicas; mas acho que não é exagero dizer que, se as aves do ar têm seus ninhos, as raposas suas tocas e os selvagens suas tendas, na sociedade civilizada moderna só metade das famílias possui um abrigo. Nas vilas grandes e nas cidades, onde predomina especialmente a civilização, a quantidade dos que têm abrigo próprio é uma parcela muito pequena do total. Os restantes pagam por essa roupa mais externa de todas, que se tornou indispensável no verão e no inverno, uma taxa anual que daria para comprar uma aldeia inteira de tendas índias, mas que agora contribui para mantê-los na pobreza durante toda a vida.

Grifo meu.

Não quero insistir na desvantagem de alugar em comparação a possuir, mas é evidente que o selvagem possui o seu abrigo porque custa pouco, ao passo que o homem civilizado normalmente aluga o seu porque não pode possuí-lo; e com o tempo nem vai mais conseguir alugar. Mas, responde alguém, simplesmente pagando essa taxa o civilizado pobre pode morar numa casa que é um palácio em comparação à do selvagem. Um aluguel  anual de 25 a 100 dólares, tais são os preços da região, permite-lhe gozar das melhorias dos séculos, aposentos amplos, pintura e papel claro nas paredes, uma lareira Rumford, paredes reforçadas com argamassa, venezianas, encanamento de cobre, fechos de mola, um porão espaçoso e outras coisas mais.

Não preciso dizer que os valores são de meados do século 19.

Mas como é que este homem, que dizem gozar dessas coisas, geralmente é um civilizado pobre, enquanto o selvagem, que não dispõe delas, é rico em sua condição de selvagem?

A resposta é exatamente como penso.

Quando afirmam que a civilização é um verdadeiro avanço na condição do homem – e penso que é, embora só os sábios aproveitem suas vantagens – precisam demonstrar que ela criou moradias melhores sem serem mais caras; e o custo de uma coisa é a quantidade do que chamo de vida que é preciso dar em troca, à vista ou a prazo. Uma casa média aqui nas redondezas custa cerca de uns 800 dólares, e juntar esse dinheiro leva de dez a quinze anos da vida do trabalhador, mesmo que ele não tenha que sustentar uma família – calculando em 1 dólar o valor monetário da diária de um homem, pois, se alguns ganham mais, outros ganham menos -, de modo que ele terá de gastar, geralmente, mais da metade da vida antes de poder ter uma tenda própria. Supondo que, em vez de comprar, ele pague aluguel, continua a ser uma difícil escolha entre dois males. Seria sábio da parte do selvagem trocar sua tenda por um palácio nesses termos?

Não estou dizendo que não valha a pena ter uma casa própria. Eu mesmo comprei a minha. Quando o fiz, escolhi uma pequena, que consegui pagar não sem alguma dificuldade, mas rapidamente (em termos).

Ao fazer sua escolha: pense no que é vantajoso. Se vale a pena ter MUITO espaço que, no fim, precisará ser preenchido com mais coisas das quais você não precisa de verdade.

Se você se identifica com esse pensamento, sugiro que conheça o meu blog Casas Pequenas.

photo credit: HA! Designs – Artbyheather cc

Sobre o autor: Alessandro Martins

Sou o editor deste blog. Trabalhei como jornalista em Curitiba de 1995 a 2008, quando fui demitido e passei a me dedicar a escrever apenas na internet, em blogs e mídias sociais. Agora estou publicando minha newsletter que tem milhares de leitores: assine!