O conflito entre nova mídia e velha mídia non ecziste

O texto abaixo, publicado anteriormente em outro site, é do ano passado (ou retrasado) e fala sobre uma rinha entre blogueiros e jornalistas que se deu temporariamente. E de certo modo localmente, se pudermos considerar a aldeia blogueira com que convivo um local (existem várias aldeias).

Recentemente e de forma menos aguda e mais crônica, a tensão entre velhas mídias e novas mídias tem aumentado. Gosto do termo tensão, porque ele é usado em harmonia musical, em sinfonias: a tensão acontece para em algum momento se resolver, harmonizando-se de uma forma ou de outra. Pessoalmente, não acho que existam novas e velhas mídias. Existe a mídia da qual, agora, você participa mais ativamente.

Se a responsabilidade de um jornalista que trabalha em um portal checar uma informação é grande, pela confiança que é creditada a seu veículo, a de um usuário do Twitter não é menor apenas porque seus atos estão diluídos na massa composta por outros usuários. O mesmo a pessoa que dá forward para toda a sua lista de emails, divulgando uma notícia falsa.

Se há problema de confiabilidade nas informações da internet, isso não é problema da internet. Uma mera ferramenta. Os problemas são reflexos de seus utilizadores e, convenhamos, o ser humano embora tenha potencial ainda não é exatamente uma torre de virtudes. Não culpe o martelo pelo dedo machucado.

Pois bem, segue o texto:

Eu sou jornalista e editor de blogs.

Convivo com outros editores de blogs – através do computador – e com outros jornalistas – na redação e em outros ambientes.

Posso dizer que não existe conflito entre os dois mundos por vários motivos.

Um deles, só para começar: além de jornais poderem ser várias coisas abarcadas pelo termo pouco preciso “jornal” e blogs poderem ser várias coisas abarcadas pelo termo pouco preciso “blog”, os dois mundos não se conhecem.

Jornalistas têm uma vaga idéia do que seja um blog e editores de blog têm uma vaga idéia do que seja o jornalismo.

Mesmo jornalistas que têm blog não costumam – em geral – explorar todas as potencialidades de um. E editores de blog, ainda que tenham visto muitos filmes sobre jornalismo, se não tiverem entrado em uma redação, jamais saberão exatamente do que se trata.

Muito embora os dois lados pudessem ganhar caso passassem a se reconhecer mais seriamente.

Cada vez que falo sobre blogs a um jornalista mais ou menos próximo do meu convívio, vejo uma expressão de curiosidade em seu rosto acompanhada de um ouvido atento. Explico sobre como os leitores estão se interessando mais e mais por informações e opiniões mais pessoais, mais próximas de sua realidade, aqui e no mundo, e eles ficam sinceramente tocados pelas novas possibilidades.

Alguns deles irão se tornar novos editores de blogs e outros não.

Mas, definitivamente, eles não ficam irritados ou ressentidos. Nem mesmo se sentem moralmente desafiados pelos blogs. Também não acham que blogs sejam uma ameaça a sua profissão.

Os cavalheiros ainda não foram devidamente apresentados e já estão pegando em armas para um duelo ao amanhecer.

Mundos que não se conhecem não entram em conflito. Ainda que exista um conflito, ele é ilusório. Tipo: temer por desconhecer.

Mas não é bem isso.

Na verdade, o que existe entre jornalistas e blogueiros é quase como uma relação de pai e filho adolescente.

A comparação não é exata, mas é um pouco engraçada:

- Você não me entende, você não sabe quem eu sou, você não sabe o que eu faço, você não me empresta o carro e você não me dá links – diz o filho.

- Primeiro se forme na faculdade – diz o pai – e depois a gente conversa.

E isso é um fato.

As únicas vezes em que os editores de blogs ficaram ouriçados com a imprensa foi quando se sentiram menosprezados ou tratados de forma menor. Por outro lado, o suposto menosprezo vem – grosso modo – do fato de os blogueiros não terem um sustentamento, digamos, mais oficial.

Todo mundo sabe que um blogueiros não se forma na faculdade.

Não para poder escrever em seus blogs, pelo menos. Isso nunca será necessário e tampouco o leitor exigirá isso dele se confiar em suas palavras e gostar do que lê. (Atualização: e, hoje, o diploma não é necessário nem para exercer o jornalismo)

Isso se obtém com a confiança conquistada em experiências anteriores. Isso se constrói de maneira mais árdua do que em quatro anos de faculdade.

Mas os jornalistas já sabem disso. Pois o caminho entre uma idéia na reunião de pauta e a matéria publicada – no papel ou levada ao ar – é muitas vezes estafante. É esse suor que vem conquistando a confiança de seus leitores nas últimas décadas. E não um diploma. (Detalhe: escrevi este texto antes da extinção da necessidade do diploma para exercício do jornalismo)

Mas antes de pegar o carro, mesmo sem o canudo, os blogueiros terão de mostrar a que vieram. E não digo que seja necessário dar informações inéditas antes que os portais e jornalões – os famosos furos -, ou fazer jornalismo investigativo. Basta ser realmente útil e interessante ao público leitor, de modo ético e eficiente.

E, quando isso acontecer de modo expressivo, os jornalistas precisarão conhecer melhor os blogs.

Uma hora ou outra, os blogueiros deixarão de ser esses adolescentes, vão crescer e serão eles quem estarão nas ruas com seus próprios veículos.

Postado em Blogs.

Sobre o autor

Alessandro Martins

Alessandro Martins foi o criador do blog Livros e Afins. Trabalhou em jornais de Curitiba de 1995 a 2008, quando passou a se dedicar somente a blogs e em especial a este.

Deixe seu comentário